Sobre tetos e conclaves

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(Foto: Divulgação/Agência Brasil)

A escolha do papa pelos cardeais é antiga. Mas o primeiro conclave nasceu em 1270 e, como num parto, não foi bonito. Quase dois anos já haviam transcorrido desde a morte de Clemente IV e os cardeais eleitores continuavam se desentendendo no “Palazzo dei Papi”, em Viterbo. Entrincheirados em facções, eles protagonizavam discussões insolúveis, intermináveis, que pareciam manter o espírito santo longe: as sessões solenes se revezavam, e o sucessor de Pedro simplesmente não surgia.

No dia 1º de junho a população de Viterbo perdeu a paciência: liderada por Rainério Gatti, um famoso “capitano del Popolo”, uma multidão arrastou dezesseis cardeais para o salão principal do Palácio, trancou-os à chave (cum clave); bloqueou todas as entradas e passou a vigiá-las noite e dia para que somente pão e água chegassem aos eleitores. Era preciso forçá-los a uma decisão. Mas Gatti não parou por aí. Como se desconfiasse do sacro colégio, ele ordenou a seus homens que escalassem o palácio e os fez arrancar boa parte do telhado sobre o salão onde os “príncipes da igreja” foram trancafiados. Apesar do extremismo da situação, os cardeais mantiveram o nó sobre a eleição por mais 12 meses! Continuaram irredutíveis por um ano inteiro. Eram indecisos mais magros, era bem verdade, mas ainda assim indecisos. Castigados meses a fio pelo sol e pela chuva, finalmente elegeram Teobaldo Visconti, que tomou o nome de Gregório X: que parece ter dado razão à população de Viterbo e oficializou o isolamento e as demais regras privativas do conclave. O que na senda dos séculos se tornou um ritual solene, reverenciado, nasceu como uma desventura de medidas punitivas, desesperadas, tomadas para contornar uma indecisão excessivamente terrena.

Exatamente aqui há um aspecto que pode dar o que pensar sobre o poder papal: os rumos da política pontifícia podem ser sondados pela duração de um conclave. Um conclave demorado é sinal de uma chance concreta de alternância de forças na Santa Sé. Sua duração pode ser um indicativo de uma reorientação do governo apostólico. Recentemente, as discussões sobre o papado tem ativado um velho mote: a tentação de tornar a ordem política o resultado de aptidões meramente pessoais. É um velho raciocínio liberal esse que leva a ver a personalidade do escolhido como o fiel da balança entre um “governo progressista” e um “conservador”.

A história coloca esse raciocínio em maus lençóis. João XXIII, por exemplo, era o que se poderia chama de um “conservador de transição”; prova disso foi ter anunciado ao mundo sua elevação através de uma cerimônia magnífica, uma entronização tradicionalíssima, tal qual uma demonstração de pompa digna da Velha Europa das nobrezas. E foi este homem que convocou o Concílio Vaticano II – para muitos, a experiência mais audaciosamente “progressista” da Santa Sé em todo século XX.

Um conclave curto tem boas chances de significar a vitória de um favorito das tendências vigentes, ou seja, um homem comprometido com a reprodução do status quo, seja ele europeu ou latino-americano. Por sinal, sabe o que todos os conclaves do século XX tiveram em comum? Foram curtos, nenhum durou mais que cinco dias. Talvez esta celeridade seja a expressão de uma passagem de poder sem maiores traumas, relativamente previsível, de uma já assegurada continuidade da política forjada no ventre do “catolicismo de Estado”. Um conclave demorado pode – e apenas “pode”, não se trata de nenhuma certeza – marcar uma encruzilhada entre diferentes orientações teológicas; o impasse pode ser o indício de que há lugar para uma efetiva mudança de modelos de condução do papado. Só não precisa chegar ao ponto de arrancar o telhado: na Capela Sistina seria um crime contra a humanidade.

*Leandro Duarte Rust é Professor de História Medieval na Universidade Federal de Mato Grosso- Pesquisador fundador do Vivarium – Laboratório de Estudos da Antiguidade e do Medievo

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