SVO: 30% das mortes naturais não são esclarecidas

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Várias famílias sepultam parentes sem saber causa da morte (Foto: Arquivo/Portal Infonet)

Quantas pessoas morreram naturalmente, mas o drama continua pós-sepultamento sem que a causa da morte seja esclarecida? Uma estatística que nem o serviço público consegue precisar. É um número desconhecido, apesar de existir em todo o país um serviço especializado para fazer a investigação epidemiológica e capaz de identificar a causa da morte daquela pessoa aparentemente saudável que, de repente, tem morte súbita.

Um drama que a família do professor José Wilton dos Santos, coordenador do Ensino Médio de um colégio particular, conhece de perto. No dia 19 deste mês, amigos encontraram o professor morto em casa, sem sinais de violência. Familiares até suspeitaram de morte provocada por dengue hemorrágica, mas o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) descarta esta possibilidade. “É pouco provável que tenha sido dengue”, declara o coordenador técnico do SVO, Ricardo Fakhouri.

Fakhouri: falta de informações

O corpo do professor foi sepultado, a família tem certeza que não houve violência física, mas todos os parentes sofrem por não encontrar respostas satisfatórias que justifiquem a morte inesperada. “Não temos informações suficientes para identificar a causa, seria necessária uma investigação posterior”, observou. Alternativa que a família descarta e, como consequência, não encontrará explicações precisas. “Meu irmão vinha sentido dores de cabeça, no corpo… e, como era teimoso, não procurou o médico. Pensou que era uma virose e tomou tilenol”, comentou a psicóloga Grayzyane Machado, irmã do professor.

Estatísticas

E, nesta mesma condição, está um expressivo número de famílias que sepulta seus entes queridos sem saber ao certo o que motivou a inesperada morte, muitas vezes creditada, aleatoriamente, a doenças cardiovasculares. Em Sergipe, dados do SVO indicam que 35% das mortes não violentas não são esclarecidas. Um índice considerado elevado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza como suportável um índice de 15% de mortes naturais sem que a causa tenha sido investigada e devidamente esclarecida. Sergipe apresenta mais que o dobro, com 35%.

Edmilson Suassuna: reestruturação do SVO

Na ótica do coordenador técnico, falta estrutura adequada ao SVO para realizar a necropsia, o que efetivamente poderia dar respostas adequadas e precisas às famílias, em se tratando de mortes naturais. O SVO atende a uma média de três casos de mortes não violentas diariamente. São encaminhados para o SVO os casos de falecimento domiciliar sem assistência médica, falecimento com assistência médica que não se chegou ao diagnóstico e também os casos encaminhados pelo Instituto Médico Legal (IML).

Nestes casos, conforme as orientações do SVO, a família deve providenciar a funerária para fazer o traslado do corpo e, em caso de dúvida, buscar informações por meio do telefone (79) 3234 – 6038 sobre os procedimentos legais e adequados para a verificação de óbito e a consequente emissão de atestado de óbito.

Reestruturação

O diretor geral da Fundação de Saúde Parreiras Hortas [entidade a qual o SVO está vinculado], Edmilson Suassuna, admite os problemas, mas está otimista. Ele acredita que, nos próximos quatros meses, o SVO seja efetivamente reestruturado com sede própria que funcionará em anexo ao Hemose, no bairro Capucho, em Aracaju.
Atualmente, o SVO funciona na rua Campo do Brito, no bairro São José, em anexo à sede do Parreiras Horta. O SVO já foi vinculado à Secretaria de Estado da Segurança Pública, funcionou em anexo à Maternidade Hildete Falcão e só houve reconhecimento do Ministério da Saúde no ano passado a partir da contratação de cinco patologistas, com vínculo com a Secretaria de Estado da Saúde.

A partir desta reestruturação, o SVO recebeu investimentos da ordem de R$ 360 mil, dos quais R$ 140 mil foram liberados pelo Ministério da Saúde no primeiro quadrimestre deste ano. Com estes recursos, foi possível fazer um planejamento e adquirir alguns móveis, entre eles, a maca para necropsia, que já está guardada no depósito da Fundação de Saúde Parreiras Horta aguardando a estruturação da sede do serviço.

Segundo o diretor geral da Fundação, há pendências para que o serviço entre em efetiva operacionalização. A futura sede fica próximo a uma unidade de tratamento de resíduos e, para evitar transtornos futuros, técnicos estão estudando para evitar que o serviço funcione em local ilegal. A perspectiva é que o serviço entre em operação nos próximos quatro meses, na perspectiva de alcançar os índices preconizados pela OMS e, até o próximo ano, ter estrutura suficiente para identificar a causa de todas as mortes sem violência.

Por Cássia Santana

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