Tragédia em Graccho: “minha família acabou”

Chirley: amigos deixam mensagens de pesar no facebook (Foto: Facebook)

O trabalhador rural Orlando Ribeiro dos Santos, 57, pai dos irmãos assassinados [Chirley e Leandro Ribeiro Dias, respectivamente de 17 e 24 anos], está desolado com a tragédia ocorrida na noite da segunda-feira, 11, no povoado Guedes, município de Graccho Cardoso. Orlando e a esposa, Maria Diranildes dos Santos, também foram baleados pelo ex-genro. Orlando recebeu alta médica e Diranildes, que luta contra um câncer, permanece internada no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse).

Depois de receber alta médica, Orlando Ribeiro prestou depoimento sobre o duplo assassinato e a violência que sofreu naquele momento de dor, dentro da própria casa onde assistiu a ira do ex-genro, acusado de cometer os assassinatos. No entendimento dos familiares, o acusado identificado apenas como Sílvio estava disposto a matar toda a família. “Só não matou porque ele é um péssimo atirador”, revela Idália dos Santos, irmã de Orlando, tia dos dois jovens assassinados.

Orlando: depoimento em Aracaju (Foto: Cássia Santana/Portal Infonet)

“Não tenho explicação, não esperava por isso. A minha família acabou. Nem a veia presta e não temos mais filhos”, resumiu Seu Orlando, depois de prestar depoimento na Secretaria de Estado da Segurança Pública. Nestas declarações ao Portal Infonet, Seu Orlando não usou o termo pejorativo, apenas se referiu à esposa e à doença que ela enfrenta. Segundo a família, Maria Diranildes está paralítica e já apresenta sinais de estado terminal em decorrência do câncer.

Ao Portal Infonet, Orlando revelou que ouviu o barulho do arrombamento da janela e imaginou que a casa estaria sendo invadida por assaltantes. Mas logo se deparou com o ex-genro, que, segundo contou, gritava: ‘bota ela [a adolescente com a qual o acusado conviveu por cerca de três anos] pra fora senão eu mato todo mundo’. “Aí eu disse: ‘deixa de brincadeira’, mas logo percebi que ele estava muito sério”, lembra.

Histórico de violência

Chirley: relatos de violência (Foto: Facebook)

Pelo comportamento considerado exemplar do acusado, a família nunca imaginou em tragédia, apesar da adolescente Chirley Ribeiro Dias confessar para a tia, Idália dos Santos, as ameaças e as agressões físicas que sofreu durante a convivência com o acusado, identificado como Sílvio. “Ela falou que ele batia nela, mas como ela morava com ele na casa do sogro e da sogra e pelo comportamento dele diante da gente, ficou médio duvidoso”, narrou a tia.

Segundo Idália, há cerca de três meses, a adolescente decidiu separar definitivamente do companheiro e teria fugido para Aracaju, onde passou a morar na companhia de duas amigas. Recentemente, ela teria procurado a tia e passou cerca de quatro dias morando com ela, que tem casa na capital sergipana. “Foi aí que eu disse pra ela voltar para casa dos pais dela porque ela só tinha 17 anos e era difícil arrumar emprego”, lembra a tia, ao revelar que Chirley queria trabalhar para sobreviver e morar distante do ex-companheiro. “Ela chegou e disse: ‘eu vou, mas não vou sair de casa porque ele vai me matar’. Mas a gente nunca pensou que isso pudesse acontecer”, observou a tia.

Idália: comportamento de acusado levou ao "médio duvidoso"

Cerca de uma semana antes do Dia dos Pais, Chirley Ribeiro voltou para a casa dos pais e mudou o comportamento. Antes de se separar do ex-companheiro, Chirley gostava de festas, saía de casa, andava com amigos na cidade, dançava e costumava passear de moto. “Mas quando voltou, ela cumpriu o que prometeu e não saiu de casa. Ela dizia que ele tinha uma arma”.

Segundo a tia, Chirley “fugiu” de casa aos 13 anos para morar maritalmente com o trabalhador rural, identificado apenas como Sílvio. Uma maneira que ela teria encontrado para se livrar das exigências da mãe, que a obrigava a permanecer em casa, sem festas, segundo o conceito da tia. “Quando ela morava com ele, ela ia todos os dias cuidar da mãe, mas saía de moto com os amigos e ele nunca reclamava, sempre perdoava o comportamento dela. Ela não tinha ideia do que era o casamento. Era uma adolescente”, comentou Idália.

Conceito popular

Seu Orlando: "sem explicação"

O crime chocou o povoado. Os amigos e familiares estão atônitos. O casal José Antonio [o Totonho de Mano] e Vera Lima estão acompanhando os familiares. Vera Lima, que já exerceu cargo público no município [ex-vice-prefeita], revela que há um consentimento popular nos relacionamentos entre adolescentes entre 13 e 15 anos com jovens mais velhos, sem levar em consideração que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) trata estas relações como estupro de vulnerável.

“Lá, o pessoal acha que 13 anos a 17 anos é a idade ideal para casar. O conceito é que a mulher que passou dos 17 anos já está velha para o casamento. Então, é bem aceita na comunidade a concepção do casamento prematuro e as famílias deixam e até torcem para não dar certo para que as adolescentes percebam e voltem pra casa”, observa a ex-vice-prefeita do município. “Elas fogem de casa para viver com homens mais velhos, mas acabam maltratadas”, relata.

Vera e Totonho: apoio à família e campanha contra violência doméstica

Neste caso específico, segundo Vera Lima, há informações que indicam a possessividade do acusado em relação a ex-companheira. “Há informação que ele dizia que, com outro, ela não vivia”, comentou. No município, segundo a ex-vice-prefeito, as estatísticas são elevadas quando se trata de violência doméstica.

Vera Lima não pretende disputar novamente cargos eletivos, mas está disposta a realizar um movimento, após as eleições de outubro, contra a violência doméstica. “Seria uma campanha de educação contra a violência doméstica, seja praticada contra a mulher ou contra o homem”, observa a ex-vice-prefeita.

Por Cássia Santana

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