Auto da Barca do Inferno – De Sergipe para a Europa

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O Anjo e o Diabo são os personagens principais desta composição dramática de origem portuguesa, o Auto da Barca do Inferno de autoria de Gil Vicente, eles farão a viagem inversa e partem de Sergipe – Brasil de volta à Portugal com uma nova roupagem, em forma de teatro de bonecos.

 

A Auto da Barca será encenado por cinco jovens de Sergipe, que embarcam para a Europa no próximo dia 6 de agosto com tudo pago para passar dois messes entre Portugal e Espanha. O espetáculo irá mesclar um pouco da cultura ibérica e brasileira, em especial a nordestina.

 

Na bagagem desses cinco jovens, além de muita expectativa e do velho friozinho na barriga, estarão cerca de 15 bonecos confeccionados por eles e que representarão os personagens do auto, escrito por Gil Vicente em meados de 1500.

 

Os bonecos, construídos a partir de materiais simples como isopor, papel, cola e resinas naturais, carregam a riqueza da cultura popular e elementos das obras de dois importantes artistas sergipanos, Véio e Arthur Bispo do Rosário. O grupo de cinco pessoas e quinze bonecos já estão com participação confirmada no Festival de Teatro em Ciudad Rodrigo, cidade localizada na provícia de Salamanca, na Espanha.

 

Esta oportunidade, para muitos pode ser vista como ‘caída do céu’, mas tudo começou no ano passado quando veio à Sergipe o diretor português Moncho Rodriguez, responsável pela montagem do espetáculo da Ópera do Milho. “Daí começou a germinar na cabeça da gente muitas outras coisas, inclusive, um encontro ibérico, que aconteceu em maio e contou com a presença de 14 pessoas de fora. Como resultado disso tivemos dois cursos, Poética dos Objetos e os Gigantões, como conseqüência desse trabalhos surgiu a idéia de montar a Barca do Inferno”, explica Aglaé Fontes de Alencar, diretora do Centro de Criatividade e uma das principais responsáveis pela concretização deste projeto.

 

Moncho Rodriguez, que já encontra-se em Portugal, assume a direção executiva da Barca e a adaptação do texto, do português arcaico para um português brasileiro, sem alterar a história de Gil Vicente. Um outro português, chamado Zé Ramalho, diretor e ator das Marionetes de Lisboa – considerado o mais importante no gênero da Europa – foi quem ficou à frente das oficinas, que foram o ponto crucial da elaboração da montagem do espetáculo.


Augusto Barreto
‘A Poética dos Objetos’, foi a primeira delas, realizada entre os meses de fevereiro e maio, contou com a participação de 30 pessoas, que aprenderam a transformar objetos simples em obras de arte e a produzir bonecos gigantes, com uma altura média de 3,5 metros. Já nos meses de maio a junho, ele trabalhou a construção dos personagens que compõem o auto. “Foram várias experiências até chegar na montagem da Barca”, explica Augusto Barreto, diretor do Mamulengo do Cheiroso e professor de teatro de bonecos do Centro de Criatividade, uma das pessoas que acompanhou o processo desde o início.

 

Ana Maria dos Santos, Camila Monteiro, Andreson Dias, Viviane e Altair Soares Santos foram os cinco escolhidos para a viagem. Eles participaram de todas as oficinas e por fim foram selecionados por Ramalho, com base no aproveitamento técnico que obtiveram durante as aulas. Chegando em Portugal eles passarão por aulas de direção dramática, manipulação e interpretação e em seguida sairão em turnê.

 

Ao embarcar para Portugal, Ramalho deixou a cargo deles a finalização da confecção dos bonecos. A pintura dos rostos e mãos foi desenvolvida por Ramalho, Andreson e Marlene, partindo de experimentos com resinas naturais eles obtiveram uma coloração que confere ao boneco um aspecto que se assemelha à madeira entalhada, inspiração que partiu dos trabalhos do artista Véio, morador de Glória reconhecido por esculpir figuras humanas e animais em madeira com características bastante peculiares ao artista. Enquanto a composição dos adereços, será baseada no trabalho de outro ilustre artista sergipano, Arthur Bispo do Rosário.

 

Os figurinos acompanham a proposta da proximidade com as cultura nordestina, a execução das

Joana Angélica, o Diabo inpirado na obra de Véio e Ana Maria
peças ficou à cargo de Joana Angélica. Segundo ela, “a proposta de concepção foi coletiva. Eu entrei para dar uma afinada nas idéia, definir cores, padrão, tecidos e executar. Tem muito colorido no figurino para dar uma quebrada na linha rústica dos bonecos e obter um equilíbrio”.

 

As influências dos folguedos populares também se faz presente através de um ou outro elemento, como por exemplo, o adereço de Igreja que vai ser colocado na cabeça do Frade, uma alusão aos Guerreiros.

 

“Na época Gil Vicente era um autor popular, depois foi que suas obras se tornaram eruditas. Nosso conceito de cultura será enraizado dentro do espetáculo, vamos visitar a cultura nordestina passando por esses bonecos”, explica Augusto Barreto, que por conta de compromissos com o Mamulengo do Cheiroso não vai poder acompanhar o grupo nessa ida à Europa.

 

Camila e Ana trabalham na finalização dos bonecos
Ana Maria, 28 anos, estudante do curso Saneamento Ambiental no Cefte e Letras na UFS e uma das integrantes do Grupo de Teatro Experimental da UFS, afirma que “faltavam oportunidades para realizar um trabalho técnico, quando o Centro de Criatividade abriu esse curso eu não exitei duas vezes. Porque eu acho que de técnica de teatro, a de bonecos é a  mais difícil que existe”.

 

Prestes a alçar um vôo importante em sua vida, Ana se mostra bastante empolgada. Empenhada na finalização dos bonecos ela passa manhã e tarde no Centro de Criatividade, e acrescenta que, se fosse necessário passaria também as noites engajada neste projeto.

 

“Para mim vai ser uma experiência importantíssima, não porque eu vou à Europa, mas sim porque eu vou com o terceiro olho, para poder sugar tudo que eu puder e depois poder contribuir na manutenção da cultura do Estado”, declara.

 

Camila Monteiro, 21 anos, trancou o curso de psicologia para participar deste projeto de montagem da Barca do Inferno, junto com Ana e mais três jovens. Esta não será a primeira vez que ela viaja para fora do país. Ele já teve a oportunidade de viajar para Portugal e contribuir na montagem de um espetáculo também dirigido por Moncho, na parte de confecção de figurinos e bonecos. Desta vez, nem pensou duas vezes, a ceitou a proposta de cara. “Vai ser uma experiência muito boa, a expectativa é de crescimento, temos que aproveitar e aprender com a proximidade com novas culturas”.

Por Carla Sousa

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