Chico César – “De uns tempos pra cá”

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Dez anos de carreira. Um público consolidado e vivendo um momento de maturidade artística. Este é Chico César. Lançando seus sexto CD, intitulado “De uns tempos pra cá” e seu primeiro livro: “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”, o menino nascido em Catolé do Rocha, na Paraíba, demonstra muita tranqüilidade e segurança ao falar de seu atual momento como artista e de sua entrada no campo da literatura.

 

Com seu bom humor característico, durante sua estada em Aracaju para participar do projeto “MPB Petrobras” e para o lançamento de seu livro, ele recebeu a equipe do Portal InfoNet para uma entrevista. Nela ele comenta o “Cantáteis”, o momento atual de sua carreira e seu novo CD, que celebra os dez anos de estrada. Uma celebração com os olhos no futuro, como ele mesmo diz. Confira abaixo um pouco mais deste talentoso artista que é Chico César.       

 

 

Portal InfoNet – O livro traz uma série de elementos regionais, eruditos, pop, dentre outros. Isto é fruto de tudo aquilo que você viveu, do que você acumulou ao longo da sua carreira, da sua vida?

Chico César – Eu acho que é reflexo de uma cultura geral acumulada, inclusive acumulada antes de mim, por pessoas que vieram antes de mim. Fiapos, estilhaços deste acúmulo acabam explodindo na gente. Eu digo fiapos, porque a minha geração pega as coisas já de uma forma um tanto quanto diluídas, sem se aprofundar muito em nada. A gente pega um momento de multiplicidade de informação e de pouco aprofundamento. Eu imagino até que o que a gente passa para a geração seguinte tem bastante relação com isso. Eu vejo hoje as pessoas ainda mais superficiais que a minha geração. Então ter entrado em contato com tantas coisas: com o concretismo, com o dadaísmo, com o cordel, com a ficção científica, com a teoria de guerra e de guerrilha e não ter se concentrado em nenhuma dessas coisas, de certa forma, interfere positivamente do ponto de vista da estética, mas eu não sei o que realmente vai ficar da minha geração, se o que nós conseguimos fazer vai deixar uma contribuição pro futuro. Na verdade nem sei se a gente contribui de forma tão positiva ou propositiva para a nossa época. 

InfoNet – Você escreveu Cantáteis em 1993, por que esperar mais de 10 anos para publicá-lo?

CC – Eu tinha a impressão de que uma escritura minha precisava de um apoio musical. Depois que eu saí de João Pessoa, em 84, não consegui mais pensar em coisas escritas que sobrevivessem sem música. Antes disso eu ia com os meus amigos para o centro da cidade recitar poemas nossos e de outros autores, era o movimento dos escritores independentes. Eu escrevia coisas e não pensava em música. Mas depois me concentrei bastante na coisa da música. – Eu sou compositor de música popular, então as coisas que eu escrevo terão que ter um suporte musical. Aí eu escrevi esse texto longo, difícil inclusive de musicar por ser tão longo. O meu desejo era, e ainda é, fazer uma cantáta, mas algumas pessoas foram me pressionando para publicar por considerarem que o texto em si tem um valor como obra literária. Então mais pela pressão, do que por acreditar que realmente tem um valor eu resolvi publicar e dar a cara para bater. Porque às vezes você pensa assim: – Eu já tenho um trabalho de música, já enfrento bastante crítica com esse trabalho, então para que criar mais um alvo, uma outra frente. Mas eu pensei e achei que era bom. Isto inclusive me deixa mais livre para ter uma outra vertente, um outro jeito para ver o mundo e também de ser visto por ele.

InfoNet – No livro você diz que teve como musa inspiradora Tata Fernandes. Essa questão de ter uma fonte de inspiração é comum nas suas composições? Você geralmente se inspira em alguma coisa ou alguém, ou realmente nesse caso foi uma coisa muito singular?

CC – É neste caso foi bastante singular. Porque, por exemplo, a minha canção de amor mais conhecida: “A primeira vista”, todo mundo pergunta: – Para quem você fez? E eu não fiz para ninguém. Eu estava solteiro, não estava apaixonado, não estava necessariamente num movimento de ah eu vou me apaixonar. Eu procuro partir de dois tipos de olhar: um olhar para fora que é de onde vêm músicas como “Mama África”, “Mand”ela”, “Benazir” e “Respeitem os meus cabelos brancos”, e um olhar para dentro de onde vêm canções como “Esperar meu amor”, “A primeira vista”, “Templo”. Mas eu sempre procuro despersonificar, mesmo que tenha tido um estímulo individual ou autobiográfico. Contudo, neste caso, do livro Cantáteis, é uma coisa claramente biográfica e por mais que eu tenha usado essa vivência pessoal para me relacionar com o mundo, com São Paulo, com o ambiente no qual estava ali inserido, esta personificação da musa, do motivo, do autor ela foi impossível de evitar. Por isso na última estrofe eu assino a musa: – Tata, Tata, Tata, e assino meu próprio nome. Então é uma experiência realmente pessoal, mas quem lê o texto vai ver que ele não trata o tempo inteiro disto. Trata de visões, de vertigens que a pessoa quando está apaixonada e se permite, acaba tendo isso como uma espécie de alucinógeno.

InfoNet – Você fala da Tata e de um perfil da mulher paulistana: guerreira, trabalhadora. No final, quando você descreve o livro, você fala um pouco da cidade de São Paulo. O que São Paulo significa na sua vida, na sua carreira?

CC – Foi em São Paulo que aconteceu o movimento modernista de uma forma mais evidente. De São Paulo, vem a poesia concreta e os concretistas. A Bossa Nova aconteceu mais no Rio de Janeiro, mas onde começou a vender o disco “Chega de Saudade”, de João Gilberto, foi em São Paulo. O tropicalismo para acontecer de verdade teve de ir para São Paulo, aquela junção dos Baianos com os Mutantes. Aí depois vem a Vanguarda Paulistana: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção. Então assim, eu era do grupo Jaguaribe Carne, em João Pessoa, e tinha o meu próprio trabalho de música. Naquela época eu pensava: – Se essa cidade acolhe o trabalho da Vanguarda Paulistana, que é um trabalho bastante difícil, então certamente vai ter espaço para mim lá. E esta era uma visão correta.

InfoNet – Você acredita que essa boa recepção é com todos que chegam? 

CC – São Paulo acolhe todos os undergrounds, quem faz música nordestina, quem faz Rap, quem faz Soul Music. Então é uma cidade de imigrantes e por isso sempre está em transformação. Ela não é muito conservadora num certo sentido, ela está aberta. Por isso é uma cidade ótima para quem quer se renovar, para quem sai de uma capital provinciana como era João Pessoa no ano de 84, ainda na primeira metade dos anos 80, que não tinha um estúdio onde os músicos pudessem gravar qualquer coisa e só tinha retransmissora de televisão, não tinha uma transmissora. Qualquer coisa a gente tinha que fazer em Recife. Então, nesse sentido, São Paulo é uma parceira representada por esse tipo de mulher: moderna com óculos de armação antiga, meio retrô, botas, saias de napa. Toda uma coisa meio clichê de urbanidade que São Paulo tem ajuda bastante, quando você chega, a se livrar de alguns cacoetes efetivamente regionais e que não dizem mais nada, nem na região em que você vive nem num lugar novo. Por outro lado, quando você chega, o fato de se sentir meio ameaçado por toda aquela cultura nova, faz afluir dentro de você o que tem de melhor da sua região, de mais forte, de mais veemente, o que vira o seu estandarte.

InfoNet – Agora falando um pouquinho do seu novo CD. Ele é bem suave. Nesse momento da sua carreira como este CD se encaixa? Essa característica lírica desse novo trabalho tem relação com o momento que você está vivendo?

CC – Neste disco algumas músicas existem há mais de 20 anos, algumas melodias têm por aí 16/18 anos e outras são recentes. Por exemplo, a melodia de “Pra cinema”, que é a primeira musica, existe já há uns 15 anos. A música “Utopia” existe há mais de 20 com letra e musica, a melodia “De por causa de ingresso de festival matou roqueira de 15 anos” tem mais de 20 também, mas a letra é recente, tem menos de um ano. Então é um disco feito de uns tempos pra cá mesmo. Eu quis que o foco deste disco estivesse sobre as canções, a voz e o violão, como foi o meu primeiro CD. De certa forma ele tem um caráter de celebração, são dez anos de carreira. Mas uma celebração de olho no futuro, de olho na densidade das canções. Ele traz uma leveza, mas é uma leveza que não se confunde com ligeireza. É uma leveza densa, é uma coisa de reflexão. Então eu acho que tem a ver com isto mesmo, com uma maturidade, não ter mais aquela pressa do artista que está começando a aparecer, o artista revelação disputado pelas cantoras, paparicado por um setor da mídia. Tem relação com maturidade. – Bom eu cheguei até aqui, agora posso ter mais 20 anos de carreira com tranqüilidade, construindo uma obra. Eu tenho público do Amapá até Pelotas, no Sul, tenho uma carreira também fora do Brasil, então tudo isto ajuda você a ter tranqüilidade de não querer disputar o público da micareta ou do Asa de Águia.

InfoNet – No encarte, no final de cada música tem uma pequena narrativa. Elas foram escritas por você? Foram feitas para o disco ou já existiam?

CC – Foram escritas por mim, para o disco. É como se fosse um hipertexto ao lado de cada canção. Porque para mim o disco começa à meia noite numa sessão maldita de cinema, de São Paulo nos anos 80, como podia ser agora também. Então pode ser uma noite que dura uma noite ou que dura 20 anos. Esta narrativa pode ser tanto em 24 horas, quanto em mais ou menos 20/22 anos. Então eu associo as músicas com o horário dessa longa noite que vai clareando, virando dia e aí o disco vai ficando mais ensolarado, vai entrando mais ritmo. Ele passa essa longa madrugada, depois vem uma manhã com pouco sol, depois bastante sol e termina com esta mistura de Rave com feijoada, com uma música que não tem elementos eletrônicos, mas que é para dançar bastante. Então, esta espécie de conto é como se funcionasse fora do disco, mas  foi feito para ele. É um pouco a minha história, mas é a história de qualquer um da minha geração ou de pessoas que viveram coisas pelas quais eu passei nesses últimos anos. Não precisa ser uma pessoa de 40 anos, às vezes uma pessoa de 20/23 anos vai ter vivido coisas parecidas.  

InfoNet – Num disco de composições, quase todas suas, você grava “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Era uma vontade antiga gravar essa musica? Onde ela se encaixa no contexto do CD?

CC – O disco é basicamente de canções sobre o amor. Tudo tem uma coisa do amor ali no meio. Logo na terceira faixa tem uma canção que é sobre um triangulo amoroso: “Uma valsa para três”. Aí mais na frente aparece “A nível de” que já é o amor entre quatro. O amor não é uma coisa simples, é difícil de equacionar e o “Cálice” entra como uma canção de amor ao tempo. Uma música de um tempo lá de trás e que agora ainda é presente. É como se o espaço não tivesse mudado muito nem o tempo. Esta bebida amarga de que nos falam Chico Buarque e Gilberto Gil continua sendo oferecida como uma imposição. É como se não pudéssemos, nunca, nos livrar deste peso, deste pai que nos larga num mundo bastante caótico. Eu fui apresentado a esta canção no ano passado, quando fui chamado para participar de um programa com músicas que haviam sido censuradas. Eu gostei muito de reler esta música porque ela era da época em que eu era criança, e agora eu vejo que o tempo passou, mas a música continua, infelizmente, muito atual.    

Por Alice Thomaz
Da Redação do Portal InfoNet

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