Crítica Teatral da Peça ‘Os Desvalidos’ – Anderson Sant” Anna

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NOME DA PEÇA: DESVALIDOS

BASEADO NO ROMANCE HOMÔNIMO DE FRANCISCO DANTAS

ADAPTAÇÃO: IVAM CABRAL

MONTAGEM: GRUPO TEATRAL IMBUAÇA

DIREÇÃO: RODOLFO GARCIA VAZQUEZ.

SNOPSE:


A peça narra as memórias de Coroliano. Sua infância no Sertão, pessoas e experiências que viveu e que proporcionaram a sua transformação enquanto pessoa. Numa estrutura atemporal, bem costurada, nos deparamos com um velho corcunda, solitário, exercendo a função de sapateiro, não muito sociável… e que guarda consigo lembranças que o tornam uma figura universal, que em pouco tempo associamos com alguém que já conhecemos ou já vimos em algum momento da nossa vida: Com desejo de conquistar sua independência, de correr atrás de seus sonhos, que procurou à custa de muitas lágrimas conquistar a liberdade.


Uma história que nos fisga, e não nos larga mais até o desfecho a partir do momento em que através de personagens como Zerrano, Felipe e Maria Melona nos emocionamos com as angústias desses personagens pelo direito de ser feliz, pelo direito de simplesmente viver! 


Absolutamente cientes das dificuldades e barreiras naturais estabelecida pela própria condição natural do Agreste ou pela problemática social do Cangaço.


DESVALIDOS é uma peça universal, mas se torna individual, pertencente a cada Sergipano que se identifica com seus personagens que transitam por cidades do nosso amado Estado como Simão Dias e Própria.


Por trás de um enredo que narra com muita propriedade a miséria humana,e  a busca pela dignidade, Desvalidos nos convida a um reflexão acerca de valores que já andam esquecidos há algum tempo; e sobre a semi-vida dos milhões de Desvalidos espalhados pelos quatro cantos do nosso planeta.


COMENTÁRIO:


A peça  iniciou dentro da costumeira tolerância de quinze minutos, que os grupos de teatro locais gostam de dar, mas porque não começar exatamente na hora prevista? Logo de início sofremos um grande impacto ao nos deparar com um cenário aparentemente muito simples, mas que se mostra um espetáculo à parte. No canto esquerdo nos deparamos com algo que se parece com uma máquina de costura, mas não é. Ao fundo um grande painel, limpo, sem gravuras, amarelo queimado como a cor da terra seca do semi-árido. Um pouco à direita um outro objeto de dificílima distinção. Nada óbvio! Somente à medida que conhecemos cada personagem aprendemos a apreciar o cenário e enxergar a genialidade do 
cenógrafo escondida naquela “estrutura simples”.


Desvalidos poderia ser classificada como uma ópera: A ÓPERA DOS MISERÁVEIS E ESPERANÇOSOS! Tal qual a saudosa Ópera do Milho, é um orquestra de costumes e realidades nordestina, ambientado num ambiente inteiramente sergipano. Com uma incrível harmonia, uma iluminação planejada a cada segundo, sempre aplicada com um propósito uma intenção além da cena, às vezes se confundindo com a própria cena, às vezes a luz sendo mais um componente de um elenco essencialmente equilibrado.

 


Quanto ao elenco é difícil nomear alguém que se destacou mais. Por isso escolhi o termo Orquestra, pois todos estavam muito bem afinados! 


Cada um desempenhou o papel que deveria. Evidenciando a olhos mais atentos os benefícios de anos de dedicação a arte da interpretação bem evidentes na expressão corporal de Coroliano (Iradilson); Maria Melona (disfarçada de Cangaceiro- Tetê Nahas); e na postura vocal de Felipe (Lindolfo Amaral) e dos personagens que não sei o nome de: Tonhão (GAGO); Isabel e Luciano Lima. Como disse, uma sinfonia excepcionalmente dirigida por Rodolfo Garcia Vazquez.

 


Apesar de ser teatro de textos densos, e com alguns silêncios. A dinâmica é bem medida. O uso devido de coreografias intercaladas com canções que remetem a nossa cultura, empurram a história para frente nos mostrando de forma mais clara e evidente sobre o drama e desejo de cada personagem.

 


A luz, em poucos minutos de espetáculo já mostra a que veio. É um espetáculo à parte! Um agente transformador do cenário, nos apresentado paisagens, geografias diversas e nos dando diversos planos de interação entre cenário-ator; ator-ator e cenário-cenário. Uma perspectiva em três dimensões que nos dá um orgulho extra pelo fato de ser um grupo sergipano está apresentando tamanha maravilha.


O figurino é bem equilibrado, com a cor da terra seca. Fugindo ao convencional, que tende a abusar em coro ou em roupas rasgadas. Também foi uma agradável surpresa.


Maquiagem: De extrema importância. Evidenciando as marcas da miséria e a luta pela sobrevivência no rosto, nos cabelos, na pele coberta de poeira. E perucas sutis.


Segundo dados do grupo; o processo contou com a musicalidade de Joésia Ramos mesclada à poesia de Maria Lucia Dal Farra, a direção de arte de Fabio Namatame. Indiscutivelmente um casamento perfeito, pois a interação entre a interpretação inspirada da maioria dos autores, a música, dança, cenário e luz, tornam DESVALIDOS mais que entretenimento, mas sim em experiência de vida!

PONTO ALTO:

 Cena inicial em uma máquina é ligada e vemos faíscas na 
escuridão do teatro.

 Fuga à cavalo de Felipe e Maria Melona.

 Estupro e assassinato praticado pelos cangaceiros.

 Cena do anúncio da morte de Lampião.

 Cena de reencontro de Coroliano e Felipe.

 Cena do primeiro encontro de Felipe e Maria Melona.

PONTO MORTO:

 14 minutos de atraso para início

 Não terem concertado o problema do microfone do protagonista, 
ficando uns com microfone funcionando e outros não.


RECOMENDAÇÕES:

DESVALIDOS é sem dúvida a coroação de 30 anos de dedicação ao teatro. Altamente recomendado aos amantes das artes cênicas. Um presente que só um grupo extremamente talentoso como o grupo Imbuaça tem condições de proporcionar ao público sergipano. E nós, além de parabenizar, 
temos a obrigação de agradecer.

CRÍTICO:  Anderson Sant” Anna (teinassis@infonet.com.br)

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