Diane Velôso fala sobre nova peça do Caixa Cênica

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Diane Velôso e Thiago Marques em 'Pela janela' (Foto: Márcio Lima)

A atriz Diane Velôso participa do grupo teatral Caixa Cênica desde a sua criação, há dez anos. Com ele, já desenvolveu diversos espetáculos – do suave ‘Duas histórias de amor’ ao o intenso ‘Pela janela’. Nesta semana, Diane organiza, com o Caixa, a comemoração de aniversário da companhia. Além de continuar apresentando montagens anteriores, a equipe trabalha atualmente em uma nova peça, vencedora do Prêmio Myriam Muniz de 2011. ‘O Natimorto: um musical silencioso’, baseado em um livro do escritor paulista Lourenço Mutarelli, deve estrear em 31 de maio deste ano.

Portal Infonet – O novo espetáculo do Caixa Cênica, ‘O Natimorto: um musical silencioso’, possui muitas diferenças com o que vocês já vinham trabalhando?
Diane Velôso –
 Todos os espetáculos são muito diferentes, a gente gosta muito de experimentar. A gente tem a questão da linguagem como uma característica. Buscamos uma linguagem realmente mais contemporânea, porque temos essa preocupação de ter um diálogo mais atual, mais provocador com o público. Isso é uma proposta do grupo. Mesmo montando algum clássico, a gente sempre busca sempre criar uma relação muito forte, viva e atual com o público. E que mexa com esse olhar que já está acostumado com um cotidiano como uma realidade que está ali, quase que toda fechada, com valores morais e, enfim, tudo muito fechado. A gente propõe tirar um pouquinho esse espectador do seu eixo, provocar não sei o quê – mas provocar alguma coisa.

Infonet – Existe uma ligação natural entre as peças, então?
DV –
 Uma ligação, exatamente. Acho que porque, talvez, o foco da pesquisa do Caixa Cênica seja essa coisa do ser humano, das experiências, do indivíduo e das suas questões mais profundas. Talvez isso seja também um ponto de ligação entre todos os espetáculos, até as comédias estão muito ligadas à relação do indivíduo com o mundo, com o outro e com o seu espaço.

Infonet – O novo espetáculo tem o mesmo tom de angústia de ‘Pela janela’?
DV –
 Eles dois tem uma afinidade. Mas a linguagem, por exemplo, a gente já percebeu que é outra. O ‘Pela janela’ traz muitas questões, como a linguagem do naturalismo, do realismo – claro que a gente faz um jogo e não traz só o naturalismo puro. A gente tira um pouco e diz: olha, isso aqui e teatro também. Deixamos uns pisos à mostra, existe a quarta parede [separação imaginária entre o ‘mundo’ da peça encenada e a plateia que a assiste]. É um olhar voyeur, não é um olhar consentido. As pessoas estão ali de intrusas, vendo algo que não era para ser visto.  E tem esse turbilhão dentro dela [a personagem principal de ‘Pela janela’], que é acometida por um distúrbio, o TOC [transtorno obsessivo-compulsivo]. Ela não consegue mais sair de casa, tem uma relação bem complexa e conflituosa com a água, desenvolve uma paranoia. A água é boa a água traz sensações boas e, ao mesmo tempo, traz sensações muito ruins para ela. Nesse outro espetáculo, a gente vai trabalhar questões como essa, que também são questões muito vigentes e que estão também muito relacionadas à convivência das pessoas do grupo. O que é outra coisa importante: a gente preza muito por isso, porque estar no palco é ter essa comunicação e trazer algo que, para mim, seja importante. Pode ser a maior bobagem do mundo, mas só vai ser importante para o outro se for importante para mim.

Infonet – Como foi feita a pesquisa para ‘O natimorto’?
DV – 
Vai todo mundo buscando outras informações, filmes, fotos, quadros, a gente vai se alimentando. Eu estou sentido que a gente está indo por um caminho muito diferente de tudo que a gente já fez, mas que no ‘Pela janela’ deixamos uma faísca já do que poderia ser, sem querer. Acontece muito isso com o Caixa Cênica, é muito louco. ‘O natimorto trabalha questões muito profundas. Trabalha, primeiro, com questões como esses distúrbios psicológicos que são muito atuais – pelo menos a nomenclatura deles é muito atual: o TOC, a bipolaridade. Tudo isso é muito recente na psicologia, na psiquiatria, na psicanálise. Então ele traz isso à tona com muitas questões. Faz um grande jogo com Nietzsche, pelo que me parece o Lourenço é um profundo estudioso de Nietzsche, é muito interessante. Ele trabalha questões como o fatalismo, com Schopenhauer, com metáforas, faz uma brincadeira com as cartas de tarô e as imagens do fundo dos maços de cigarro. Tem essa figura central desse cara que tenta manipular de uma forma muito displicente as pessoas que estão ao redor dele, de uma forma que no fundo você vai perceber que é bastante doentia. Na verdade, são vários focos doentios que convivem ali [risos]. Mas é muita coisa, é um espetáculo muito denso e a gente está buscando uma linguagem. Respeitamos muito a intuição: começamos a ler um texto, começamos a intuir.

Infonet – Quem irá atuar nesse espetáculo? Só você e Thiago Marques?
DV – 
Nesse espetáculo a gente não sabe como é que vai ser, porque vão ser três personagens.  Um dele a gente está vendo como é que resolve. A gente está iniciando o estudo, ainda numa fase de leitura, de devaneios. Eu mesma já estou parecendo uma louca, só penso nisso [risos]. São os devaneios mais loucos e esse, inclusive, é um momento muito importante para um espetáculo. A primeira vez que você lê um texto, as primeiras sensações e ideias são muito importantes, você está sendo pego de surpresa.

Infonet – E como vocês fazem para incorporar isso na peça?
DV –
 Tudo é anotado, é feito um estudo mesmo do texto.

Infonet – E no final vocês se juntam?
DV –
 A gente sempre está junto, eu sempre estou ligando. Se eu tenho uma ideia, já ligo. Às vezes a ideia nunca vai se concretizar, mas no momento ela é importante para estimular outras ideias.

Infonet – Vocês se reúnem todo o tempo? Tem uma regularidade?
DV –
 Ultimamente a gente tem se visto sempre [risos]. Não tem uma semana que a gente não se veja. Claro que tem semanas que tem mais frequência. Por exemplo: agora a gente volta a se encontrar mais por conta do projeto, do próprio aniversário, do Temporada. A gente está mantendo o projeto Temporada desde junho, então a gente está numa frequência gigante. Se bem que tem uns quatro anos que a gente não para de se ver, graças a Deus. Porque é muito difícil manter um grupo aqui ou em qualquer lugar. Porque você não consegue manter um grupo financeiramente fracamente, é uma missão impossível. Mas aí conseguimos que um projeto ganhe um prêmio num edital. A gente vem tentando, ficamos em temporada, mas a verba que entra é um mínimo.

Infonet – Como foi com o prêmio Myriam Muniz?
DV –
É um premio de montagem. É ótimo porque você consegue trabalhar com as pessoas que são suas parceiras eternamente e que trabalham até de graça para você. Entrando no projeto, você consegue pagar todo mundo, o que para mim é o que mais importa. Para todo mundo, nas suas profissões, o sonho é conseguir se manter daquilo. Mas, para o artista, realmente tem muito trabalho, porque não é uma profissão que tenha um emprego fixo e assine uma carteira. Então quando tem esses projetos e esses incentivos para a gente é uma vitória gigante. Conseguimos manter as pessoas sempre ao nosso lado – parceiros que de dez trabalhos a gente acaba conseguindo fazer um que pague. Mas está todo mundo no mesmo barco, são parceiros que sofrem as mesmas dificuldades. Na verdade, a gente vai criando uma cadeia produtiva de outra forma, com uma outra moeda, que é a troca de habilidade. E é por aí que a banda toca, porque se não for assim, a gente não sai do lugar.

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