Especial Folclore: Bacamarteiro é grupo centenário

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Quando ainda era um pequeno povoado chamado Rancho, em 1780, surgiu na atual Carmópolis, município distante 47 quilômetros de Aracaju, o Batalhão de Bacamarteiros. O grupo foi criado por trabalhadores de usinas de açúcar que aproveitavam a folga do domingo para “brincar”. Entre uma rima e outra, acompanhada de instrumentos musicais, o que chama mesmo a atenção são os tiros dos bacamartes.

 

O coordenador do grupo, Idelfonso Cruz Oliveira, de 69 anos, conta que os trabalhadores dos canaviais, chamados de “cativos”, não tinham condições financeiras para comprar fogos, por isso inventaram os bacamartes.

 

“Colocamos no fuzil uma pedra que o nome é chifre de ‘viado’ e é encontrada nas matas da redondeza. Quando ela bate em cima da pólvora dá o tiro”, explica. O barulho é ensurdecedor.

 

Mas não são apenas os tiros que compõe o ritual dos Bacamarteiros. O repertório é baseado no cancioneiro popular e eles fazem rimas de improviso, “louvando personalidades”, como diz Seu Idelfonso, ou brincando com os colegas do grupo.

 

Os tiros de Bacamarte são a grande atração do grupo
Os versos mais utilizados entre as rimas são: “quero ver carvão queimar, quero ver queimar carvão”, “menina bonita, faceira, dengosa, quer ir mais eu ‘vamo’, quer ir mais eu ‘vamo’ embora” e “meu papagaio das asas douradas quem tem namorada brinca, meu papagaio, quem não tem fica sem nada, meu papagaio”.

 

Atualmente, o grupo é composto por 60 pessoas, praticamente todas moradoras do povoado Aguada, onde os Bacamarteiros surgiram. Participam homens, mulheres e até crianças, uma prova de que a tradição é passada de pais para filhos. Os mais antigos puxam as canções, alguns ficam encarregados de tocar os instrumentos, como o ganzá, cuíca, pandeiro, reco-reco e a caixa.

 

Apesar do grupo do povoado Aguada ser o mais tradicional, Seu Idelfonso diz que em Sergipe também existem Bacamarteiros em General Maynard, Japaratuba e Capela. “Mas os de Capela só atiram. Não cantam e nem dançam. Os de Recife, em Pernambuco, também são assim”, informa. A componente mais velha dos Bacamarteiros de Carmópolis, dona Laura, morreu aos 103 anos, no último mês de junho.

 

Seu Idelfonso levou a filha e o neto para o grupo
EMOÇÃO – Todos dançam, cantam e se arriscam na tarefa dos tiros, inclusive as mulheres e as crianças. É o caso do pequeno Cleisson, de 7 anos, que aprendeu com o avô, o Seu Idelfonso, a atirar. E agora Cleisson ensina o colega Artur, de 12 anos, a atirar também. Porém os dois se divertem no grupo tocando instrumentos e cantando, vendo a alegria e admiração no rosto das pessoas que assistem às apresentações.

 

Entre as mulheres mais corajosas do grupo está Rivaneide Mota, de 43 anos. Ela sempre brincou nos Bacamarteiros com os pais e já adulta perdeu o medo e resolveu atirar também. Mãe de três filhos, só o mais velho atira e brinca. “Gosto de tudo nesse grupo”, diz satisfeita.

 

São João e São Pedro são os padroeiros do grupo. “Passamos o dia 24 de junho todo fazendo apresentações no povoado Aguada. No dia de São Pedro vamos para Carmópolis”, diz Seu Idelfonso, lembrando que no povoado todo mundo sabe “brincar” com os Bacamarteiros.

 

CAMINHADA – Entre os dias 7 e 14 deste mês, os Bacamarteiros de Carmópolis se apresentaram pela 14ª vez em São Paulo. Eles vão participaram do Festival Nacional do Folclore de Olímpia. “É uma cidade no interior paulista conhecida como a capital do folclore”, trata logo de explicar Seu Idelfonso. Inclusive foi no Sesc de São Paulo que o neto dele, Cleisson, atirou pela primeira vez com o bacamarte.

 

Além de São Paulo, eles já se apresentaram no Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Maceió e em praticamente todos os 75 municípios de Sergipe. Para Seu Idelfonso o momento mais marcante foi a primeira apresentação na capital mineira, há mais de 20 anos.

 

“Foi na Praça da Pampulha. Quando terminou a apresentação, o pessoal invadiu e pegou todos os chapéus e a bandeira. Queriam uma lembrança da gente. Voltamos sem um enfeite para casa, mas foi o momento que mais emocionou os Bacamarteiros”, conclui Seu Idelfonso, como quem ainda vivencia o momento.

 

Por Janaina Cruz

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