Homenagem aos afrodescendentes e a toda a cultura africana “DEÁFRICA” – por Gustavo Aragão

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Homenagem aos afrodescendentes e a toda a cultura africana 

Foi no dia 13 de maio de 1888, há 121 anos, que a princesa Isabel assinou a lei Áurea e aboliu a escravidão no Brasil. A lei foi antecedida pela lei do Ventre Livre, de 1871, – que libertou todas as crianças nascidas – pela lei dos Sexagenários, de 1885, que libertou todos os negros maiores de 65 anos de idade, e pela lei Eusébio de Queirós, de 1850, que abolia o tráfico de escravos.

A palavra que nomeou a lei: “Áurea”, quer dizer “de ouro” e a expressão refere-se ao aspecto glorioso da lei que pôs fim à exploração do trabalho. Em território nacional, a escravidão vigorou por aproximadamente três séculos, do início do processo de colonização à assinatura da lei Áurea. Apesar disso, atualmente, tanto no Brasil quanto em vários países, há formas de trabalho semelhantes àquelas constatadas no período da escravatura.

A sanção ou aprovação da lei foi, principalmente, o resultado da campanha abolicionista que se desenvolvia no Brasil desde a década de 1870. A princesa Isabel, então regente do Império do Brasil, empenhou-se ao máximo para sua aprovação. A princesa foi a primeira senadora brasileira e a primeira mulher a assumir uma chefia de Estado no continente americano, ela se revelou uma política liberal, abolicionista convicta nas três vezes que exerceu a Regência do país, lutando pela aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871, financiando com dinheiro próprio não só a alforria de dezenas de escravos, mas também o Quilombo do Leblon, que cultivava camélias brancas – a flor-símbolo da abolição.

Em homenagem ao povo africano que tanto contribuiu e ainda contribui para o enriquecimento e o fortalecimento da cultura do nosso país, dedico o poema a seguir:

 

DEÁFRICA

 

Ó, mãe África,

O teu povo injustiçado

Clama pela chama daquilo que nos faz humanos,

Verte por seus poros lágrimas de sangue

De fervente sombra.

Encontra-se num inferno de espumas globais sufocantes.

Fenece sobre o chão de onde não mais brota tanta esperança.

E num olhar lânguido e fugidio,

nos revela toda a dor, que em ti parecem caminhos vedados,

Intransponíveis. Dores supremas,

ainda maiores que as das antigas tragédias gregas.

És vítima das nações imperiosas,

Que batem em teu seio sombrio

Feito as gélidas águas turbulentas de um oceano

de usura, egocentrismo, ambições exacerbadas…

 

Ó, infortúnio!

Ó, tormento!

Encontrar-se marginal.

 

De carne apodrecida,

Esquecida ao léu

Ao bel prazer dos capitalistas

Insanos e inconsequentes de agora.

 

Tatuado em suas entranhas estão o

Palor,

A miséria,

A dor.

E um suor

Ácido que

Escorre sobre

Seu corpo

Deixando-lhe marcas definitivas.

 

E o teu povo

De voz afônica

E passos incertos,

Caminha para onde não se sabe.

Mas caminha mesmo com os pés feridos, fatigados,

escuros, ensanguentados,

Teima em caminhar.

 

E nos portos de uma humanidade fria,

foste tu, ó mãe África, abocanhada pela febre,

despida pela ignorância,

esquecida com fome e sede

de atenção, amor, compaixão e esperança.

 

Transformou-se numa mostra

da miséria, das desgraças e dos humanos equívocos

de um mundo psicopata, descontrolado, que se embala

numa rede de invernos perenes;

mundo canibal,

que se refresca nos ares solitários

de uma humanidade em caos.

E tu, ainda assim, suplicas um só olhar

verde

deste cosmo-capital

desatencioso e

mal-agradecido.

 

Por Gustavo Aragão Cardoso

 

* Todos os direitos estão reservados ao autor perante a lei de Direitos Autorais.

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