LE GRAND CIRQUE DE LA CIRC’ORE – Gustavo Aragão

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…Em terra de mortais pobres ou pobres mortais (?), quem tem um centavo a mais, pensa-se deus rico. E foi nesta terra de surdos–mudos, que Le Grand Cirque de la Circ’Ore, resolveu montar suas tendas para fazer brilhar as artes circenses. La Circ’Ore era conhecido em todo território nacional por sua trupe de palhaços, ditos os melhores já vistos.

“Em tempos em que a chama do circo se esmaece. Le Cirque de la Circ’Ore se faz presente para trazer à tona a magia do circo, com sua trupe atrapalhada.” Isto era o que sempre dizia o seu administrador, um dos palhaços,  cujo cognome era Chamusco, quando chegava a uma cidade a fim de se instalar.  

Era uma tarde ensolarada de segunda-feira, quando um carro de propagandas saiu anunciando, pelas ruas do povoado de As falta o Salto, que havia chegado, na cidade, Le Grand Cirque com seu magnífico espetáculo. O povoado ficou em polvorosa.  Fazia trinta anos que naquela aldeia não se falava em algo que pudesse ser considerado um entretenimento aos seus habitantes.

A comunidade de As falta o Salto era pacata, de poucos habitantes, em sua maioria ignorantes, mas que resguardavam dignidade, honra, simplicidade e um sentimento de solidariedade para com o próximo, não muito comum em outros lugares; era menosprezada pelas autoridades vigentes. Não se tinha posto de saúde, mercado, padaria, as mercearias que existiam, ou melhor, resistiam por lá, eram as mais simplórias. Era uma terra vulnerável, sem donos aparentes, apenas tinha um representante local, o qual chamavam “seu Modesto de dona Maria”; era o líder da comunidade. Para se fazer um evento, um comício, uma procissão, qualquer manifestação cultural ou social por lá, tinha que passar pelo crivo do seu Modesto de dona Maria. Ele era um burrocrata, é… digo, burocrata, que sempre exigia um ofício, em letras garrafais, pois “já não andava bom das vistas” e precisava ter a certeza de que nada atingiria a moral daquele lugar. Poderia até ser burocrata, mas era honesto, honesto mesmo.  Vez em quando superfaturava alguns ofícios, quando se tratavam dos ofícios enviados por políticos, em épocas de eleição, mas nada demais. Era algo extraordinário, feito em surdina.

Seu “Modesto de dona” estava observando da janela da sua casa-cartório o “movimento” do povoado, quando escutou o carro de Zé de Tonho, anunciando a chegada do circo no povoado. Arregalou os olhos, que já lhe eram esbugalhados por natureza, coçou a nuca, num gesto impaciente e foi direto à sua escrivaninha, tateou os papéis que estavam sobre ela, mas lembrou que todo e qualquer ofício, poderia ser do político mais poderoso, até mesmo, do menino que cata papel e plástico para vender na cidade mais próxima, sempre guardava na última gaveta do lado direito, cuja chave tinha um chaveiro, que era uma nota de plástico de um euro. Achava linda aquela nota, só se chateava por não ser de verdade.  Enfim, abriu a gaveta e se debruçou a procurar apressadamente o ofício, onde constasse a liberação de espaço, no povoado, para que “Le Grand Cirque de la Circ’Ore” se instalasse, mas não o achava. Não podia ser. Não havia perdido. Tudo estava sob o seu controle. Há tempos não haviam solicitado liberação para qualquer manifestação cultural, na aldeia. “Tenho que falar com o administrador deste circo, isto não pode ser assim, feito de qualquer jeito. É um absurdo!” E fora lá, no local anunciado. Ao chegar lá, estavam finalizando a montagem da tenda. Era um belo circo armado, no meio de um terreno baldio que havia no final da rua do Sol, revestido por cores diversas, que coloriam os ares daquela terra, onde a imaginação havia tirado férias há alguns anos. Seu Modesto chamou um menino, que estava assistindo a dois senhores, que levavam baldes d’água para dentro de uma das cabines, que estava estacionada em redor da lona já quase armada. O menino agitado veio logo atender ao chamado do senhor Modesto. Não o conhecia, mas criança é sempre assim mesmo, muito espontânea. O senhor lhe perguntou quem era o administrador do circo; o menino, logo lhe apontou a cabine do palhaço Chamusco. Então, lá foi o seu Modesto. Ao chegar bateu na porta semi-aberta e foi logo entrando. Até secretária havia dentro daquele “moquiço”! Era muito charmosa, tinha um belo rosto, dona de um belo sorriso, devia ser um tipo de “rumbeira”, mas resguardava no canto do olhar uma sombra de receio. Aparentava tranqüilidade, mas ao ver o senhor entrando na cabine demonstrou todo o medo que camuflava. Quando seu Modesto chegou lá, ela estava sentada numa cadeira acolchoada de rodinhas, meio danificada, mas ainda aparentando ser confortável; lixava as suas enormes unhas, pintadas de vermelho cereja, dava para perceber que o seu rosto estava recoberto por uma boa camada de maquilagem. Era realmente uma bela mulher. Até então não havia aberto a boca para pronunciar sequer um: “boa tarde, senhor”, apenas olhou para o homem e depois retornou a sua atenção às unhas. Ele foi quem se dirigiu a ela, educadamente, perguntando-lhe quem era o administrador do circo. Ela olhou para ele, com um olhar vazio e lhe disse: “Seu Chamusco está em reunião! Não pode atendê-lo agora. Volte mais tarde.” Seu modesto arregalou seus olhos, coçou a nuca e irritado com a resposta da moça, disse-lhe: “Sou o líder desta comunidade, deste povoado. Quero falar agora com esse tal de Chamusco. Vou esperá-lo”. A mulher imbuída de uma pseudo-empáfia retrucou: “Senhor, Chamusco encontra-se cheio de compromissos não pode atendê-lo agora. A reunião vai demorar.” “Que reunião é esta? Vocês são apenas uma trupe composta por no máximo uns vinte artistas e técnicos; pude constatar pelo número de cabines que têm. São cinco, portanto, se em cada cabine cabem quatro pessoas, no total teremos vinte pessoas. Acabaram de chegar neste povoado, sequer pediram autorização para que pudessem se instalar por aqui. E o administrador não pode falar comigo. Isto é absurdo! Chame-o agora!” “Senhor, ele está em reunião.” De repente ouve-se uns gritos que vinham dos fundos da cabine. Era uma voz grave, masculina, que em tom imperativo chamava a moça. Ela na mesma hora levantou-se receosa e foi atender ao chamado, parecia um soldado. Quando voltou, disse ao seu Modesto que voltasse no final da tarde, pois o seu Chamusco iria lhe receber. Assim o fez. Foi embora. Esperou o sol desmaiar no horizonte e voltou ao local marcado. O circo já estava todo iluminado, mais ativo que nunca, o povo se aglomerava na entrada. Quem quisesse entrar para assistir ao espetáculo tinha que pagar uma quantia em dinheiro, ou mesmo, fazer a doação de um quilo de alimento. Seu Modesto não gostou do que estava acontecendo. E, mais irritado do que já estava, se dirigiu à cabine administrativa, porém chegando lá, a mesma estava trancada, apagada, não havia nenhum sinal de vida dentro dela. E pensou: “Isto é um absurdo! Quem este homem pensa que é? O dono do mundo?”. O burocrata se encaminhou para a entrada, e lá foi cobrado o seu ingresso. “Não era obrigado a assistir ao espetáculo, mas caso quisesse, havia de pagar”. Gritou aos quatro cantos, numa tentativa de alertar o seu povo: “Não podem fazer isto! Vão para suas casas. Essa é uma trupe de palhaços transgressores, usurpadores. Vão para suas casas!” Pareciam inúteis os gritos daquele que haviam eleito líder naquela comunidade. Seu Modesto não teve apelo suficiente para sobrepor-se ao do picadeiro colorido, que se instalara na cidade sem nenhuma permissão. Era a primeira vez que isto acontecia. Ficou intimamente sobressaltado, nervoso, irritado… Não se conformava com tal situação. “Era líder daquele lugar ou não?”. Ficou atormentado. Deu às costas e fora para casa, pensando na medida que tomaria, assim que a lua se escondesse e o sol se levantasse, tomando-lhe o lugar. Sua cabeça parecia uma máquina em plena atividade, estava confuso, com medo… “Medo? Não posso ter medo deste forasteiro. Este é o meu lugar, ora essa!” Estava preocupado.

Quando o sol raiou, seu Modesto já estava à porta da cabine administrativa a espera do Chamusco. Quando uma senhora se aproximou e ele a saudou com um educado “bom dia, senhora! Como se chama?” “Pode me chamar de Chamuscadela é como me chamam neste universo mágico de encanto e magia” – abriu os braços e rodou em volta de si mesma. “Sei” – disse o senhor, com uma secura na voz, que a palavra parecia rachar por entre seus lábios.  Depois se aproximou um rapaz negro, que aparentava ter uns 30 anos. Este logo o cumprimentou, com um sorriso e um: “Olá! Sou o Chamuscado. Muito prazer!”. “Olá” – respondeu seu Modesto meio confuso. Logo apareceu outro e mais outro e foram se apresentando à medida que se aproximavam. Modesto meio confuso disse: “Quero falar com o administrador deste estabelecimento. Desde ontem que tento, mas não consigo. Onde ele está?” “Ele não está. Foi à cidade vizinha fazer umas compras. Sabe como é, né, já estavam faltando algumas coisinhas e aqui neste povoado não tem nada que preste. Sequer tem uma mercearia com biscoitos ou coisas do gênero” – disse Chamuscadela. O senhor engoliu seco, depois perguntou com os olhos inflados de raiva: “Você não é a secretária dele?” “Sou eu mesma”. “Volto aqui mais tarde” – disse o senhor atônito, roendo-se por dentro.  Foi-se embora, transpondo para os seus passos e gestos, toda a sua cólera e insatisfação.

Passou a tarde inteira remoendo o que poderia dizer àquele tal Chamusco, caso o encontrasse. Mas nem isso pôde fazer. Tentaria pela última vez, no final da tarde.

O dia parecia se arrastar… As horas preguiçosas faziam aumentar a angústia do seu Modesto de dona Maria. Coitado! Estava se sentindo impotente diante de tal situação. Nada podia fazer, a não ser suportar a angústia de ser destratado daquele modo, até que a sansarra da vida resolvesse dar a volta e tudo ficasse ao seu favor. Esperou…esperou…esperou… Até que a sombra do palitinho que havia cravado na terra se inclinou, indicando aproximadamente às 17 horas. Fora mais uma vez ao circo no intuito de falar com o administrador. Ao chegar na rua paralela à rua do sol, não conseguia ver a parte alta da lona, que cobria a estrutura do circo. Estranhou. Mas foi, até lá, checar o que estava ocorrendo. Ao chegar na rua do sol, deparou-se com toda a estrutura desmontada, a lona dobrada, todos estavam entrando nas cabines, que começavam a dar partida. Estavam indo embora. Seu Modesto ficou indignado, furioso, pois vira que aqueles indivíduos só queriam se aproveitar dos seus, retirar o que quase não tinham, e se tinham era fruto de muito suor e trabalho. Não estava acreditando no que via, beliscou-se numa tentativa de se convencer que aquilo só podia ser um sonho. “Era muita ousadia. – pensava seu Modesto – Como puderam agir com tanta desonestidade?” Ainda tentou falar com o tal do Chamusco, que vira pela primeira vez, quando estava sentado ao lado da sua mulher, ao que parecia, dirigindo a cabine na direção da saída do povoado. Mas ouviu nada mais nada menos que zombarias, deboches daquela “trupe de corruptos, sanguessugas, que apenas se aproveitaram da ingenuidade daquela gente esquecida.” Ouvira, com o afastar das cabines, gritos, apenas gritos, que lhe fustigavam a alma e o ser desolados: “Aurevuoir, seu Modesto! Pode ficar com o seu povoadozinho nojento! Acabamos de encontrar outro melhor, quiçá mais besta! Vamos fazer fortuna. É só isso que nos interessa. Aurevuoir!” Seu Modesto se perdia dentro da multidão, que acenava aos palhaços, em tom de despedida. Ia ficando pequeno… pequeno… pequeno… Sua face perdia os traços, homogeneizava-se, sua fisionomia perdera a força, sua energia perdera o fôlego. Vira-se um tudo, que agora se restringira a um nada, inerte, com o olhar absorto, que revelava a inconformidade e a fraqueza que tomavam a sua alma, chamuscada pela sombra amaríssima que aquela “trupe maldita” havia lhe deixado como lembrança…

 

Sua alma verteu lágrimas que escorreram pelo meu ser e resvalaram por sobre esta folha de pensamentos, tingida por tinta e sentimentos transformados.

Por Gustavo Aragão

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