Mingo Santana: a paz está com ele

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No jeito calmo de falar, na música calma para se ouvir, na preocupação com o que é nosso está Mingo Santana. Artista há mais de 20 anos, ele conseguiu respeito e prestígio no cenário artístico local e apresenta, nesta Quintas da Assaim, o show Visagem, reunindo canções de seus dois CD”s, além de outras interpretações. Mingo, em entrevista ao SERGIPE CULTURAL, fala de seu trabalho e da cultura em Sergipe. Seguem as palavras calmas, mas forte de Mingo Santana sobre a música. SERGIPE CULTURAL: Como começou sua carreira? MINGO SANTANA: Eu comecei a compor em 1979. Não tinha nenhum impulso de música, foi uma coisa que veio espontaneamente, de criação mesmo. Comecei quando veio a inspiração da primeira música, que chamou-se “Irmandade”, que é uma palavra que não tem no dicionário, eu criei como fusão de irmão com humanidade, uma relação de solidariedade, fraternidade, exatamente o que minha música busca: essa energia. Nem sempre eu acho que consigo isso, mas o que busco é essa integração do direito humano com a proteção ambiental; tive essa preocupação desde 79, quando comecei a compor. E até hoje acho que ainda sou muito assim; me prejudica um pouco, de certa forma, porque o consumismo da música está ligado ao romantismo e eu não sou tão romântico assim, apesar de está pretendendo fazer um projeto que tem ligação com o romantismo. Mas nunca tive essa preocupação imediatista, que é o romantismo na música; a maioria das músicas que estão na parada são ligadas ao amor, aquele amor dilacerador, um romantismo masoquista e eu gosto de evitar esse masoquismo, talvez por isso eu fuja um pouco do romântico. O romantismo que eu coloco em minhas composições tem sempre uma janela, para as duas pessoas ficarem bem e não presas a um sentimento, saberem que essa dor não vale à pena, podem partir para outra. SC: Como você define sua música? MS: Eu vejo minha música como bem espiritualista, porque percebo que os temas que eu coloco são temas que, se eu não tivesse uma forte ligação coletiva, eu poderia dispensá-los. Eu passei a entender algum tempo depois a missão daquela peça que eu criei. Apesar de eu compor muito só, eu também tenho vários parceiros, então, acho que isso é como se fosse uma ligação espiritual, porque pelo dia-a-dia que as pessoas têm, elas não teriam essa preocupação temática que eu tenho. SC: Qual a diferença do trabalho solo para o trabalho em parceria? MS: O trabalho em parceria tem uma importância muito grande, porque ele absorve a energia daquele seu parceiro, você parte para uma evolução, parte daquele lugar comum. E a gente compondo só, se passarmos muitas peças sem intercalar com parceiros, nos prendemos muito a um estilo, por isso, é sempre bom o contato com outros parceiro, porque quebra um pouco a rotina da criação, apesar de a criação sempre vir para mim de uma forma espontânea. A rotina persegue todos os artistas de qualquer área. Então, temos que buscar sempre correr o risco que a arte precisa para não ser mais um copista que um criador. SC: A música tem que ter um cunho social? MS: Sim. A gente está numa fase muito ruim, com a mídia deixando de fora as músicas com maior elevação espiritual. O povo brasileiro tem que ser mais corajoso, não só no setor político, mas também no seu lado mais íntimo, com relação a seu companheiro, você tem que estar mais fortalecido e a gente percebe que as músicas que estão fazendo maior sucesso são de cunho mais masoquista, como se o temor do amor fosse uma coisa única, como se o amor acabasse ali. E não é assim: a gente tem que acreditar que o nosso almoxarifado de sentimentos é infinito. O cunho social tem que vir não só da música romântica, mas de todos os estilos. Eu sempre tratei de Ecologia, sempre tive essa preocupação, mesmo percebendo que não é muito aceita, as pessoas têm preconceito, porque ela causa a reflexão de culpa, desde o nosso dia-a-dia até mesmo a gente vendo um incêndio na mata causado pelo cigarro que jogamos no chão. Eu percebo que a música que trata do ecológico tem uma necessidade atual para o planeta inteiro, por isso, temos que valorizá-la, assim como a música de auto-ajuda deveria ser mais praticada e executada. Por isso, tento transitar por todas essas áreas, porque temos que estar alertas para chegar em um nível cultural melhor. SC: Qual será o repertório de sua apresentação no projeto Quintas da Assaim? MS: Esse show será semi-acústico, já que o Melodia é uma casa aconchegante. Também caberia uma banda, mas nesse momento estou em uma fase muito criativa, estou compondo muito, então, não seria interessante fazer um show muito técnico, muito ligado à banda. Vai ter a presença de dois arranjadores que contribuíram muito na composição dos meus dois CD”s: o Marcos Vinícius, que é uma fera da guitarra sergipana, vamos mostrar um pouco do CD “O Som das Araras” e também o Nilton Nascimento, que é arranjador do último CD “Na Multidão”. Algumas músicas inéditas; inclusive, espero mostrar “A Volta de Feliciana”, que está sendo lançada exclusivamente para o show de Maria Feliciana, que acontecerá dia 29, no Augustu´s, com a participação de 12 artistas. Teremos também Peninha, no teclado, e Camafeu, na percussão, além de três artistas inéditos, que nunca se apresentaram em Aracaju. Então, vou fazer essa confraternização, trazendo pessoas que nunca tiveram experiência de palco para mostrar que somos todos iguais. Vou trabalhar meu lado mais intimista, ecológico, um pouco de romantismo – por ser uma casa noturna, o pessoal está, durante à noite mais à flor da pele -; vou tocar, inclusive, uma música que fez um grande sucesso no Teatro Atheneu. Vou fazer uma homenagem ao Dia da Consciência Negra, tocar uma música que não está no CD “Na Mutidão” e foi uma música que tirei na última hora, mas que nessa noite vou tocar. Chama-se “Nação Olodum”, uma homenagem ao Olodum e à cultura negra. Também o “Alto das Laranjeiras”, que fala da importância dos negros, principalmente, na cidade de Laranjeiras, onde a revolução e movimento negro foi muito forte e a história esconde alguns fatos. Essa será uma homenagem à Laranjeiras e aos negros que se rebelaram contra a postura materialista da época. SC: Qual a importância da Quintas da Assim para o movimento artístico de Aracaju? MS: É um projeto que eu vi nascer. A preocupação de João Paulo de colocar um lugar na cidade, em que a gente tivesse um exercício dos associados, mostrando a união dos artista, que precisa muito ainda, estamos ainda engatinhando. Eu me lembro que João Paulo foi a várias casas noturnas e elas não credibilizaram, não deram apoio; e o Melodia acolheu logo de primeira-mão. Esse projeto deve continuar no próximo ano em um formato de teatro. O público precisa assistir aos shows com maior atenção. Em uma casa noturna é legal, é bem descontraído, mas tem trabalhos que precisam ser mais apreciados de uma forma mais tranqüila, em um teatro. Está sendo um sucesso, tanto que as casas que negaram o projeto procuram a Associação dizendo que têm interesse e, claro, ela não tem, porque é complicado divulgar, principalmente, devido ao trabalho autoral, que em Sergipe se trabalha com uma expectativa muito curta. E os associados da Assaim, geralmente, tem um trabalho autoral e é importante que o sergipano comece a conhecer esse trabalho e essa é uma ótima oportunidade. SC: Por que o nome Visagem para o show? MS: Apesar de ser uma música do primeiro CD, eu escolhi por esse momento em que estou vivendo de uma composição entre o romantismo e o regional. Visagem é uma música que tem esse duplo sentido de trazer o lado romântico e ecológico. Eu homenageei ela para trazer essa cena que eu quero passar nesta noite. Percorrendo também a parte de direito humano. SC: Em que momento você se reconheceu artista? MS: Todos os momentos eu valorizo muito, mas acho que o momento mais mágico, em relação ao público, de reconhecimento, foi na primeira vez em que eu participei do Carnaval de Salvador em 2000. Fui convidado, por causa da música “50 Anos de Trio” – eu não imaginava que a música tinha tanta força. Cheguei em cima da hora, a banda já estava ensaiada, o trio já estava andando na Praça Castro Alves. Paramos em frente ao camarote de Gilberto Gil e, coincidentemente, a Globo estava fazendo uma entrevista com ele na hora. A música falava exatamente sobre os personagens da música brasileira: Caetano, Pepeu, Moraes… os grandes mestre da música carnavalesca. Aquele foi um momento muito importante, porque, além de ser visto em muito lugares – tinham várias televisões cobrindo a festa – tive a oportunidade de Gil ter feito um comentário ao vivo, durante a entrevista dele sobre a música que estava sendo tocada. Depois da entrevista, o trio já estava andando e ele pediu para tocar de novo. Repetimos três vezes. Naquele Carnaval ela foi muito tocada, falava daquele momento de 2000, os 50 anos de trio. Eu só tinha ela pronta, não queria tocar mais nada por causa da minha vocação autoral. Esse risco é algo que eu acho muito importante, naquela hora eu senti que estava fazendo arte: foi um momento sublime da minha pequena história. SC: Qual projeto você ainda quer realizar? MS: Dentro da música são vários. A gente vai fazendo o que é possível. Neste ano, a gente preparou um trabalho muito interessante, “As Lendas Sergipanas”, uma série de música para uma peça da Casa da Imaginação, um grupo de teatro. É um trabalho muito importante para a cultura sergipana, porque estamos resgatando não só histórias verdadeiras, como também as lendas. Essa peça já era para estar pronta, assim como o CD, mas houve problemas de ordem financeira. As composições, apesar de serem só cinco músicas para esse CD, com a peça, eu e o Kleber Melo vamos lançá-lo em um ano e meio, mais ou menos, um CD completo com as lendas sergipanas. Foi muito importante o convite para esse projeto, o pessoal nos credibilizar para compor esse tema. Meus outros projetos estão muito ligados aos CD”s que já existem: divulgar mais, a gente não tem muito espaço. As gravadoras hoje têm um interesse imediatista; os trabalhos mais reflexivos como o meu e de outros autores locais vão sofrer muito para receber convite. Apesar de que a SID, uma gravadora, fez um convite para 14 cantores sergipanos fazerem um CD coletânea, que vai ser um empurrão grande para a música sergipana, já temos alguns sinais positivos de que nossa música tem um tesouro escondido para a grande mídia, que é esse elenco local. Nós temos o Marco Vilane e o Lula Ribeiro, que conseguiram uma distribuidora e agora a SID mostra um interesse pela nossa música. A arte musical está muito desprestigiada, mas estamos passando do estágio de isolamento para o de aparecimento. SC: Qual a diferença entre seu primeiro CD, “O Som das Araras”, e o segundo, “Na multidão”? MS: O primeiro é mais espiritual; uma homenagem que eu faço a arara, um dos símbolos da cidade. Este CD é basicamente uma reunião da minha carreira. Nele tem uma música muito bonita chamada “Cidade Adormecida”, que, inclusive, deveria ser mais exploradas aqui, porque retrata bem Aracaju. É um problema do Estado a falta de estudo da obra de artistas locais e seus personagens; precisamos viver o êxtase de ser sergipano, precisamos de orgulho, de ídolos. E esses ídolos existem, mas o movimento de sergipaneidade é ofuscado pelo desânimo. Temos que lutar contra essa globalização, não internacional, antes é preciso vencer a globalização nacional, como acontece no São João, no Carnaval, quando o folclore daqui poderia está nas avenidas e não estar sendo substituído pelas distorções que se fixaram nesses eventos, que são parte do nosso folclore. O segundo é mais corpo. Foi inspirado na minha experiência no Carnaval em Salvador em 2000. São músicas carnavalescas, não do Carnaval de hoje; ele foge dessa rotina do Carnaval atual, apelando para o sensual. É um trabalho antológico, histórico. Por Marina Ribeiro

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