Ney Matogrosso traz “Beijo Bandido” a Aracaju

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Ney Matogrosso diz que público sergipano sempre corresponde bem aos shows (Fotos: Portal Infonet)

Ney Matogrosso abandonou o figurino exuberante de ‘Inclassificáveis’ e imergiu em uma atmosfera mais leve, exibindo como nunca a sua voz em um repertório marcado por clássicos da música brasileira e músicas de compositores quase desconhecidos do grande público. Uma mistura que deu certo e fez de ‘Beijo Bandido’ um show aclamado por todos os lugares por onde passou.

Nesta quarta-feira, 11, é a vez dos aracajuanos conferirem essa ‘mudança’ de perto. A apresentação já está com os ingressos esgotados e começa às 21h, no Teatro Tobias Barreto (TTB). Considerado um dos maiores intérpretes da MPB, Ney Matogrosso chegou a Aracaju na terça-feira, 10, e concedeu entrevista quando falou sobre o espetáculo que traz à capital sergipana.

Portal Infonet – O que esse nome ‘Beijo bandido’ traduz desse show? Por que escolheu este nome?
Ney Matogrosso –
Não sei. Eu não sei o que é um ‘Beijo Bandido’, mas como ideia ela foi muito forte. Eu gosto de títulos assim, de nomes assim, que mesmo que eu não saiba, provoque. Não tem nada a ver com a música ‘Bandido’, nem com o ‘Bandido da Luz Vermelha’, pois eu recebi o convite para o filme depois. Essa música já estava comigo desde ‘Inclassificáveis’, mas não entrou no show. Mas eu já gostava disso, achava interessante e ficou o título.

 

Infonet – Em termos de repertório, o que você traz nessas apresentações?
NM
– Tem muita música antiga. Tem músicas que eu já gravei com outras pessoas, que eu já gravei sozinho – como ‘O segredo’, de Eriberto Martins -, coisas que têm tudo a ver com o repertório. Inédita mesmo só tem a música do Júnior Almeida [compositor alagoano], ‘A Cor do Meu Beijo’, que quando passei por aqui fazendo o ‘Inclassificáveis’, ele me deu. Eu já estava gravando o disco e quando cheguei no Rio de Janeiro imediatamente ela entrou no disco.

Infonet – Você começou essa turnê em 2008, mas primeiro fez os shows, gravou um CD, depois saiu em turnê e novamente gravou um CD, mas acompanhado de um DVD. Por que você optou por essa sequência?
NM –
Eu testo a reação do público com o repertório. E essa reação vem sendo muito positiva, muito boa. Não tenho a menor queixa. Em todos os lugares onde temos passado, as pessoas ficam muito emocionadas. É um repertório que tem ‘Fascinação’, ‘Da Cor do pecado’, ‘O segredo’, são músicas super dramáticas, que estão no inconsciente e quando você ouve sabe que já ouviu um dia.

 

Infonet – Nesses 32 discos você já gravou muita coisa, de muita gente. Mas a essa altura, o quê Ney Matogrosso ainda não gravou?
NM –
Ah, muita coisa! Tem muita gente que eu não gravei. Mas agora estou procurando gente menos conhecida. Isso me interessa muito. Claro que você não pode fazer um trabalho inteiro inédito. Isso não dá certo, é difícil a absorção disso. Então eu gosto de misturar coisas inéditas com coisas mais conhecidas.

Infonet – E quem desses novos nomes da MPB você pensa em gravar?
NM –
Estou procurando nomes mais novos ainda, estou procurando desconhecidos. Eles chegam na minha mão. Em toda parte que eu ando me dão. No ano passado, quando estava com o ‘Inclassificáveis’, eu recebi a música ‘A Cor do Desejo’, do Júnior Almeida, mas eu tenho outra música da época. Estou buscando pessoas completamente desconhecidas. As pessoas ficam querendo só os compositores grandões, mas nem eles estão produzindo tanto para isso. Eu acho que isso traz um frescor para o meu trabalho.

 

Infonet – Você é muito mais intérprete do que compositor. Por que você não compõe tanto? Não gostaria de cantar suas próprias músicas?
NM –
Eu já fiz duas letras, mas não acho que seja meu dom. Eu acho que há bons intérpretes que são bons compositores. Eu até adoraria compor, porque eu não ficaria tão dependente de encontrar pensamentos com os quais eu teria mais afinidade. Eu poderia colocar os meus pensamentos. Mas eu sou muito crítico, o problema é esse, sou muito crítico comigo.

Infonet – Você já recebeu material de algum compositor sergipano?
NM –
Não, não tenho, mas podem se aproximar. Lembro de Joésia Ramos, que eu conheço, mas ouvi falar de muita gente antes. Eu sempre peço pra me colocarem em contato.

Infonet – Você se sente sozinho de alguma maneira entre os intérpretes brasileiros por ter essa escolha de não compor?
NM –
Não, não sou sozinho. Eu só to fazendo meu trabalho. Eu não penso nisso. Eu sou essa pessoa, esse artista, esse intérprete. Não ser compositor me dá uma vantagem porque eu tenho a oportunidade de aproveitar tudo o que a música brasileira oferece. Eu não sou preconceituoso com relação a estilos musicais. Eu cantei forró numa época em que nenhum artista da MPB cantaria forró.

Infonet – Você não tem costume de escutar música. Por que esse distanciamento?
NM –
Não é um distanciamento, mas eu não tenho o hábito. Porque tem gente que acorda, já liga o som e ouve música o dia inteiro. Eu não tenho esse hábito, gosto de silêncio, gosto de ficar no silêncio. Eu não preciso o tempo todo de alguma coisa me estimulando. Não, não preciso. Eu, sozinho, me sinto muito bem; eu em silêncio me sinto muito bem. Eu ouço mais exatamente quando estou escolhendo repertório, aí, sim, pra mim vira disciplina. Eu pego tudo o que tenho pra ouvir e ouço, em uma sala, na minha casa.

Infonet – Ainda assim, gostaríamos de saber qual a análise que você faz do atual estágio da música brasileira. O que você acha que é bom ou ruim do que se produz atualmente?
NM –
Eu não saberia dizer sobre um ‘atual estágio da música brasileira’. Como eu não ouço tudo eu não sei. Eu ouço rádio quando estou dirigindo, então a minha informação do que está acontecendo vem via rádio, então eu sei que essa informação que a rádio me dá também não significa que é a realidade. Ela mostra quem conseguiu quebrar uma barreira. É por isso que eu vou atrás de gente que a maioria nem ouviu, pra dar essa possibilidade, esse caminho para mim está aberto. Eu posso ser um veículo que está mostrando gente interessante e que não teria, talvez, a oportunidade de chegar lá. Mas não acho que seja um favor; eu faço porque eu gosto. O que eu canto eu gosto. Não estou sendo bonzinho, não é isso. Vou me admirar do que me é mostrado.

Infonet – E o público sergipano corresponde às suas expectativas quando você se apresenta aqui na capital?
NM –
Sim, mas tem o seguinte: quando um show é colocado em um teatro, com algumas restrições, isso já deixa o público um pouco contido. Embora, em Natal, que foram dois dias em um teatro maravilhoso, lotado, o público foi muito vibrante. Mas eu acho que esse repertório tem esse dom, de tocar nas pessoas e aí elas se tocam e se entregam. Sempre achei o público sergipano muito bom, muito participativo. O Nordeste todo é muito mais participativo.

Infonet – Quem te influenciou no início da carreira?
NM –
O rádio me influenciou. Todos os grandes cantores e cantoras de rádio. Meu pai comprava muito disco, isso já quando morávamos no Rio de Janeiro, e ele ouvia os discos o domingo inteiro. Eu era criança e achava tudo aquilo um ‘pé no saco’, mas hoje em dia eu agradeço. Porque eu tenho uma memória dessa época, de muita coisa, que volta e meia volto porque é muito atraente pra mim.

Infonet – Você também flerta com outras manifestações artísticas, como pintura e teatro. O que você vem fazendo atualmente além da música?
NM –
Voltei a desenhar há pouco tempo. Depois que eu comecei a cantar eu não fiz mais nada. Teatro porque é tão absorvente quanto a música. Você tem que ensaiar dois, três meses pra ficar um ano em cartaz. Mas eu já fiz teatro, cinema, acabei de dirigir uma peça, no Rio de Janeiro, dois contos de João do Rio. Tudo o que me interessar e der pra fazer eu farei.

Infonet – Você começou a carreira bem mais tarde que de costume: aos 31 anos, enquanto tem gente que começa mais cedo, aos 20, aos 18 ou até antes. Isso te deu alguma vantagem?
NM –
Claro, eu era consciente, já era um adulto, já era maduro, vivia sozinho desde os 17 anos, e me só fazia o que eu gostava e me interessava. Eu odiava aquela ditadura, era totalmente contra tudo aquilo. Você não podia se expressar, três pessoas não podiam se juntar numa esquina, você não podia falar o que você pensava, nem pensar algo independente. Eu não era e deixava claro, mas eu nunca fiz política partidária, porque não me interessa. Mas eu entrei exigindo minha liberdade de expressão, fingindo, ignorando que a gente vivia debaixo de uma ditadura militar.

Por Diógenes de Souza

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