Notas sobre a boemia sergipana

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Carnera e João Melo (de smocking) Foto: Acervo do autor

A boemia sergipana ainda não foi estudada. À exceção de alguns memorialistas, pouco se falou da vida fértil, do clima quente dos bares, praças, prostíbulos e becos do Aracaju. Pouco se falou das manifestações sergipanas na música noturna, radiofônica. Das serestas e baforadas de cigarros, dos dramas amorosos e dos violões em noites de luar. Porém, é possível que isto não tarde a acontecer.

As mudanças crescentes na historiografia sergipana podem, provavelmente, levar algum estudante a tropeçar na noite sergipana. Quando isto ocorrer, dois nomes inevitavelmente virão à tona: João Lourenço de Paiva Melo e Ursino Fontes de Gois, o Carnera. Dois artistas fundamentais à história da música, do rádio e da boemia em Sergipe.

João Melo ficou conhecido como a “voz de Sergipe”. Foi ele o nosso primeiro cantor de rádio. Já Carnera, liderou belos conjuntos musicais, seduzindo o público ao tocar seu violão. E não encantou pouca gente, não. Entre ambos há aproximações e distanciamentos satisfatórios para que o futuro pesquisador possa observar os caminhos que a vida artística sergipana oferece. Tais aproximações e afastamentos, também permitem falar deles juntos e, ao mesmo tempo, em separado.

As semelhanças existentes entre Carnera e João Melo são facilmente perceptíveis. Os dois nasceram na década de 1920, até o fim dos anos 1940 moraram nas mesmas cidades (Boquim, Aracaju). Carnera foi professor de violão de João Melo. Ambos foram alunos do Atheneu Sergipense. Da mesma forma, participaram juntos das experiências iniciais da radiodifusão em Sergipe.

Mas os distanciamentos entre os dois também não são poucos. João Melo fixou-se no Sudeste do país, só voltando a Sergipe após quase 40 anos, Carnera não resistiu a mais de um ano fora. Embora tenham sido parceiros em composições felizes, acabaram com trajetórias diferentes.

Carnera, sempre elegante ao violão, permaneceu fiel ao estilo seresteiro. João Melo, por sua vez, deixou-se levar pela bossa nova, apresentando uma maior variedade no seu repertório. João manteve-se ativo, chegou a gravar CD e, durante anos, apresentou um programa semanal de televisão. Também escreveu e publicou suas memórias. O discreto Carnera, ao contrário, ficou cada vez mais recluso. Em seus últimos anos de vida, pouco saía de casa, acometido por enfermidades.

João Melo e Carnera. Dois sergipanos profissionais da arte. Personagens influentes na radiofonia e na boemia. Através destas duas biografias, algumas questões sobre os percursos da cultura local podem ser levantadas. Dois homens cujas histórias de vida não podem ser escritas sem que a bela amizade entre eles seja mencionada. Através das aventuras musicais de ambos, a própria história de Sergipe aparece de um modo inesperado.

*Professor do Departamento de História e do Mestrado em História da UFS
Coordena o projeto Memórias da Segunda Guerra em Sergipe
(CNPq/edital 07/2011)
Grupo de Estudos do Tempo Presente
dilton@getempo.org

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