O PODER LITERÁRIO – Gustavo Aragão

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A LITERATURA É UM SENTIDO SUSPENSO, QUE SE OFERECE AO LEITOR COM UM SISTEMA SIGNIFICANTE, DECLARADO A FIM DE SER DESVENDADO.

                                                                                       Gustavo Aragão Cardoso 

 

            Ao imaginarmos quando se deu o surgimento da literatura, o homem criando um mundo imaginário e narrando esse mundo a um grupo de ouvintes; ou o homem desfiando suas vivências, no mundo, em ritmo de poema; instauram-se, em nossa mente, uma série de  dúvidas: a literatura nasceu como prosa ou como poema? Que papel cumpre a literatura no mundo de hoje? O que move um indivíduo a sentar-se à escrivaninha, ajeitar papel e tinta, e passar horas, voltado para si mesmo, escrevendo um conto ou um poema? Costuma-se referir à vocação de escritor, querendo assim revelar a presença de um desejo quase compulsivo para escrever. O que significa realmente a vontade de escrever? Seria um tipo de afirmação pessoal? Realmente é motivo de prazer ver o próprio nome na capa de um livro ou ouvir o nome do seu livro numa lista de obras de sucesso público. Dá prestígio e status.

            Os escritores, hoje, constituem um grupo de operários de um ofício que cria produtos para estocagem. Geralmente, as pessoas não vêem a utilidade de um poema ou de um conto, de um romance ou mesmo de uma peça de teatro. Raramente flagramos pessoas, lendo um livro de poemas ou um romance por motivação própria; mais raro ainda se a leitura não se fizer como uma necessidade pessoal a este leitor; quando, por exemplo, este indivíduo não é um crítico, um professor ou outro poeta ou romancista. Se o desejo da literatura fica entre especialistas, ela não cumpre a sua real função na cultura. Todavia, vez em quando surgem livros que surpreendem pela força de atração que concentram. O que significa esse fenômeno? Seria uma conseqüência do poder da publicidade ou é o poder da literatura que se nos apresenta? Os escritores produzem (criam) suas obras com uma intenção, os leitores, de sua parte, escolhem as obras com outra intenção e, finalmente as livrarias ficam entre ambos numa tentativa de aproximá-los. Porém, fica evidenciado que o fator essencial que se instala, aí, é o poder econômico, e não o poder literário. Porque será que muitos escritores não se submetem à sociedade de consumo e suas exigências, recusando-se, deste modo, a escrever obras que poderiam interessar os homens? Porque o que mobiliza os grandes escritores, hoje, é o ideal da obra de arte literária. Todos querem fazer a obra perfeita. O que importa é a obra em si: os leitores, embora importantes para a literatura, devem ser educados e preparados para realizar a leitura de tais obras, portanto. Isto faz com que os escritores continuem fazendo seus livros e amedrontando, de certa forma, os leitores cada vez mais receosos com relação à perfeição desses livros.

            Ao observarmos atentamente a trajetória histórica da literatura, no Ocidente, percebemos que houve uma sucessão de deslocamentos que acabaram por mudar a literatura em uma coisa preciosa, porém quase inútil. O primeiro deslocamento ocorreu quando houve o afastamento do coletivo na direção do individual; o segundo deslocamento foi o movimento do imaginário, que passou a se centrar na figura do autor, organizando-se sob a orientação de uma consciência individual; o terceiro acontece quando retira o interesse da literatura da pessoa, seja coletiva ou individual. Agora o que passa a motivar a palavra é o mundo dos fatos; um mundo impessoal, matemático, calculado. O escritor torna-se um observador, com a função de retratar com fidelidade, cada fato. Passa a ser amigo da ciência e a literatura o seu mais devotado instrumento; o quarto decide eliminar, de vez, o homem da literatura. Agora, é a literatura pela literatura. A literatura fala de si mesma, e não tem compromisso a não ser com a palavra, com a sua natureza de objeto construído a partir do verbal. De ciência do mundo, a literatura tornou-se ciência da palavra. O escritor tornou-se, pois, um especialista. Neste momento, a literatura acaba perdendo o leitor. Em contrapartida, ganha o estudioso. Ganha em expressão técnica, porém perde o seu poder antropológico. É bem verdade que a literatura é uma forma de arte e não pode virar as costas a esse destino técnico, porém não deve ser esta a única razão da literatura. Ela não pode perder o seu primeiro mandamento: a mimese. Antes de ser obra de arte, a obra é literária: é a revelação do homem na palavra. Mas como revelar de modo mais verdadeiro? É universalizando o fato, dizendo o possível do homem, penetrando nas profundezas da sua humanidade e aí realizando a mimese.  A literatura tem o poder para atingir todos os homens. Desvendar a alma coletiva é o segredo elementar do poder literário.  Portanto, se a literatura renega o homem, ela perde o poder e se transforma em objeto de luxo, ou se inutiliza.

 

Por Gustavo Aragão Cardoso

 

 

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Fonte de pesquisa

SANTOS, Wendel. Crítica: uma ciência da literatura. Goiânia: UFG, 1983.

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