Ponte do Imperador: entre encontros e encantos

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O encanto da Ponte está, além de na sua própria história, nas histórias que ela participou ou, sob o olhar atento, testemunhou. Aracaju fazia seus cinco anos, quando, em 1860, rústica, mas entapetada, com o ar nobre e “granfino”, serviu de passagem para o Imperador. Ao abrir seus olhos, não viu cajueiros, mas “edifícios assentados sobre suas raízes ainda verdes”. Viu ruas desniveladas e sentiu o cheiro de uma cidade insalubre. Mas rendeu-se, a Ponte, ao encanto da ainda desengonçada cidade. A Ponte do Imperador é do povo, pois é o imaginário popular que a define assim, apesar de já ter sido chamada de Ponte do Desembarque, do Governador ou mesmo de Ponte Metálica. Uma Ponte que não é ponte, mas sim ancoradouro da alma popular. Ela fez parte, de geração a geração, da nossa história, sendo vivida e sentida nos lentos dias dos seus 143 anos. Neste momento, não a vejamos de fora, como numa foto aérea, percebendo-a apenas pelo transcurso histórico das suas várias remodelações: do seu arco de estrela ou das suas torres castelares, das esculturas e placas, pois os registros escritos já conferem a sua importância enquanto monumento. Vejamos a Ponte por dentro, procurando senti-la. Imaginemos o calor provocado nela pelas multidões nas procissões do Bom Jesus dos Navegantes; sua expectativa nas atividades desportivas e da sua ansiedade nas cerimônias cívicas. Em suas veias, hoje envoltas por concreto, pulsam os corações, sonhos, ansiedades, traquinagens, sensualidade e dores daqueles que a viveram não só nos eventos políticos e religiosos ou nas festividades, mas também na tranqüilidade das conversas de pescadores, na agitação pueril das crianças ou nas noites quentes. A Ponte viu cada aurora. Cada pescador às quatro horas da manhã. Viu os postes de luz à querosene, os calçamentos, os bondes, as procissões, ouviu os sinos da Catedral. Apropriou-se de cada experiência reconhecendo Aracaju como seu lugar, conquistando e encantando a cidade. A sua primeira e nobre função ficou na história. Foi de madeira, de ferro, e hoje é de concreto e em todos momentos foi vivida e é por nós reconhecida. Hoje ela vê agitação. Não mais as brincadeiras e o olhar tranqüilo do homem que pára. Na correria do dia-a-dia as pessoas que por ela passam não mais a vivem; o asfalto tomou o lugar da piçarra e dos paralelepípedos. Automóveis deixaram os bondes para trás. Talvez aquele semáforo sirva para que, quem sabe, por um segundo, este homem-sem-tempo volte a percebê-la como outrora. A Ponte, hoje monumento, distancia os seus usos. Está ela ali para ser só rapidamente vista? Não. O homem de hoje que é dos shoppings e não das praças; o homem dos celulares e da internet e não das conversas de ponta de rua, necessita percebê-la como referência do que fomos e vivemos, relembrando através de sua memória a nossa história. Afinal, a Ponte não pode ser cooptada pela diluição do lugar. Ela nos liga ao passado. É única e guarda em si, dentro de sua natureza social, nossa identidade, quando também é símbolo de Aracaju. E, mesmo nos revezes da homogeneização e superficialidade do olhar que hoje se impõe, ela não deixa de fazer parte do nosso cotidiano. O encanto da Ponte está sob o olhar do homem que a encontra, a vive e a sente, tornando-a tão próxima porque nela se reconhece. Autora: Luna / Elissandra Silva Santos 8ª colocada no 2º Concurso de Crônicas sobre a cidade de Aracaju

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