Professora resgata primeira revista literária do Estado

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Ao estudar o Gabinete de Maruim para defender uma tese de Mestrado, a bióloga e pesquisadora Maria Lúcia Marques Cruz e Silva encontra a Revista Literária que foi publicada para divulgar o centro de leitura. Mesmo tendo sua primeira edição datada há 118 anos, a obra fala sobre temas atuais. Com colaboradores de outros países e idéias avançadas para a época, a revista chegava a vapor em 75 cidades por todo o país. Nesta entrevista ao Portal Infonet, a estudiosa relata os principais temas, os maiores autores e a importância histórica e cultural deste achado.

Portal Infonet – Por que a escolha do estudo do Gabinete de Leitura do município de Maruim?
Maria Lúcia Marques –
Além de estudar Maruim há 25 anos, publicando o Inventário Cultural da cidade em 1994, sou filha da cidade. A intenção foi recuperar a história da imprensa sergipana, por Maruim ser considerado um centro livreiro. Maruim teve seis tipografias no século XIX e editou 21 jornais. Eu estudo Maruim há muito tempo, entro no Mestrado estudando o Gabinete e, nestas buscas, descubro que ele teve uma revista literária.

Infonet – Fale-nos um pouco da história deste Gabinete.
MLM –
Este gabinete é de 1877 e é a única instituição do gênero que perdurou até hoje no Estado. Aracaju, Tobias Barreto e Laranjeiras, por exemplo, tiveram gabinetes literários, mas com vida efêmera. O de Maruim funciona hoje como uma biblioteca municipal. Segundo os estatutos, este gabinete nasceu como um espaço para recreio e instrução dos sócios. E diferente dos gabinetes portugueses de leitura de Salvador, onde o espaço era reservado aos portugueses, os que nasceram na segunda metade do século 19 são espaços de contestação da ordem, que era Monárquica e Escravocrata. Ele foi uma iniciativa de um grupo formado por pessoas com idéias político-liberais. Eles queriam levar a educação a todos e atingir as massas, que é todo um discurso dos ideais republicanos que eclodem com a República. O Gabinete de Leitura é tido como uma instituição popular. E em 24 de outubro de 1890 nasce a Revista Literária, com o propósito de divulgar o Gabinete e incentivar o gosto e amor às letras. 

Antiga Fachada do Gabinete de Leitura de Maruim.
Infonet – Além de um lugar para leitura, o Gabinete tinha outro fim?
MLM –
Era um clube social fechado. Era tipo uma reunião de maçonaria. Uma sociedade fechada e tinha estatuto rígido. Com isso, sabe-se que não era para o povo. O estatuto dizia ‘Criar uma biblioteca para recreio e instrução dos sócios’ e os discursos dos oradores diziam que “queriam criar a biblioteca para difundir o gosto e o amor às letras por todas as classes sócias”. Mas o povo não tinha acesso, e há indícios de uma ligação com a maçonaria, porque a maioria dos sócios teve passagem por ela. Eu encontrei discursos e um signo tipográfico. São 26 sócios que aparecem numa moldura tipo corrente, característico de maçom. Encontrei a ata de fundação do Gabinete onde aparecem 60 sócios, mas na revista só aparecem 26 nomes como se muitos deles não a apoiassem.

Infonet – Quem estava à frente da Revista?
MLM –
Não consegui achar um diretor, são vários editores e colaboradores. Todos do Estado de Sergipe. Da cidade de Maruim, consegui identificar o jurista Deodato Maia, que colaborou com poesias. Eles eram intelectuais na área jurídica, médica e empreendedores do açúcar, da indústria e do comércio. Um dos maiores colaboradores da revista foi N. Júnior, que escreveu textos políticos em uma coluna chamada ‘A lápis’, trazendo 23 artigos exclusivamente políticos. Como eles queriam levar um periódico que tivesse feição educacional, eles ‘batizaram’ a coluna de uma forma que driblasse a censura. Outro colaborador foi Nogueira Cravo, que era o chefe de redação e do telégrafo de Maruim, e Leonídio Porto, que era de Capela e escreveu nove artigos sobre Educação.

Atual fachada do Gabinete de Leitura, reformada em 1953.
Infonet – Qual a periodicidade da Revista?
MLM –
A revista era semanal e teve 34 edições, sendo 20 com um formato e 14 num tamanho menor. E a revista tem o cunho liberal político, mas também cultural, porque publicava muitos folhetins, poesias e literaturas. Isto para que ela não fosse censurada, já que a revista fazia oposição ao Governo de Deodoro da Fonseca. Cerca de 39% do corpo textual da revista é composto por poemas em folhetins, o que seria a nossa novela de hoje.

Infonet – Esta revista era comercializada? E chegou a ser vendida em outros Estados?
MLM –
Sim, a assinatura mensal da revista custava 500 réis. Eu a rastreei e descobri que permutou com 75 jornais do país, inclusive a cidade de Uruguaiana, no extremo Sul do Brasil. Imagine a dificuldade de transportar esta revista via vapor para cidades como RJ, RS, SP e PA. Eu acredito que a revista foi uma estratégia para atrair o leitor ao Gabinete, porque os jornais ficavam à disposição do público nas mesas de leitura e traziam notícias recorrentes do país. E esta permuta com 75 jornais faz com que eu acredite que a obra não trouxe muito lucro. Percebe-se que ela passa por uma crise, porque nos primeiros 20 exemplares têm propaganda e nos outros 14 não têm, e diminui também de tamanho do papel da revista. Existem indícios que ela parou de ser publicada por causa da censura.

Infonet – A senhora encontrou algum motivo para o nome da obra ser Revista Literária?
MLM –
Eu acho que este título era para mascarar a proposta política deles, porque ela nasce com a idéia para divulgar a instituição, mas pelo meu estudo eles só falam dela em somente 5% do corpo textual da revista. Falam 39% de poemas e folhetins, uma grande quantidade de política e temas gerais, mas o motivo da criação da Revista que era divulgar o Gabinete só é lembrado em 5% dos textos. Nela, a maioria dos textos são assinados, mas encontrei alguns pseudônimos.

Uma das edições da Revista Literária.
Infonet – Qual o valor deste achado para a história atual?
MLM –
Esta revista é subsídio para a história da imprensa em Sergipe, visto ser a primeira do gênero no Estado. A revista do Instituto Histórico de Aracaju é de 1913 e esta do gabinete é de 1890. A minha esperança é que o valor deste achado faça com que o Gabinete de Leitura seja recuperado. Pretendo recorrer a algumas instituições para ajudar a melhora do espaço que teve este passado tão importante na História Cultural de Sergipe. 

Infonet – Tem algum poema que mais lhe chamou atenção nestas 34 edições?
MLM –
Tem uma poesia de Martins Jr. chamada ‘Receita’, que é uma das mais bonitas, e um folhetim chamado ‘Os Morangos’, de Emílio Zolar, que é encantador. Ele é tratado com uma literatura de época, em que a maioria das poesias é parnasiana, em que vemos a riqueza do poema. As obras deste último foram proibidas, porque ele escrevia folhetins e uma ‘moça de família’ não podia ler. Suas obras eram inspiradas em paixão, violência, trama de amor e isto podia corromper a moral e os bons costumes da época. E por isso o Gabinete era censurado e suas leituras não eram bem vistas pela sociedade, pelo Estado e pela Igreja.

Infonet – Qual a sua opinião sobre os temas das notícias abordadas nas 34 edições?
MLM –
Esta revista está tão presente, que observamos que muitos dos temas são discutidos em jornais atuais. Em um dos textos, é discutida a importância de levar para o menino o trabalho manual já no primário e atualmente um ministro está propondo levar que os meninos tenham uma profissão ainda no primário. E este discurso está vivo na revista.

Infonet – Isso quer dizer que os discursos só se repetem?
MLM –
É verdade. Os discursos se repetem e as providências são poucas.

Infonet – E para senhora, qual o sentimento de ter encontrado uma parte da história de Maruim?
MLM –
Para mim, que venho estudando Maruim há tanto tempo, foi uma felicidade encontrar esta revista. Eu revirei a Biblioteca Epiphaneo Dórea e foi um presente de Deus, pois esta revista é a alma do Gabinete e ele é a alma da cidade. Eu estudo um pensamento, o ideal de um grupo que sonhava salvar a comunidade pelas letras, num discurso tão presente.

Por Raquel Almeida

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