Quase sergipanos

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Sérgio Cabral Santos, de passagem por Aracaju neste fim de semana, despertou curiosidade sobre sua ascendência metade sergipana. Conversando com jornalistas e músicos, na noite de sexta-feira, no Hotel Aquarius, revelou que até morou em Aracaju dos 3 aos 5 anos de idade. Foi logo após a morte do pai, o fuzileiro naval sergipano José Jugurta Santos, quando se transferiu com a mãe, a carioca Regina Cabral Santos, para Boquim. Posteriormente, veio para Aracaju, onde iniciou a alfabetização. Com um pouco de boa vontade — da parte dos conterrâneos do seu pai — Sérgio Cabral, jornalista, pesquisador emérito da MPB e que fez 68 anos naquele dia, bem poderia ser considerado um quase sergipano, categoria subjetiva na qual se encaixariam outros brasileiros ilustres, os baianos de boa cepa — não por coincidência — Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e João Gilberto. O quase sergipano seria assim aquele que poderia ser mas não é, diferenciando-se do que não era mas acabou sendo, a exemplo do escritor santista Amando Fontes, do político carioca José Eduardo Dutra e do jornalista baiano Cleomar Brandi.

Jorge Amado

O quase sergipano Jorge Amado (1912 – 2001), é sabido, tinha uma relação mais do que afetiva com este Estado. Nascido em Itabuna, no sul da Bahia, era filho do fazendeiro de cacau itaporanguense João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado. O menino Jorge gostava de Sergipe. No final dos anos 20, quando fazia o secundário no colégio jesuíta Santo Antônio Vieira, em Salvador, fugiu para refugiar-se na casa do avô, em Itaporanga D’Ajuda. Não por acaso, sua primeira mulher, Matilde Garcia Rosa, era sergipana de Estância, onde se casaram em dezembro de 1933. Juntos, eles lançaram o livro infantil Descoberta do mundo. E com ela teve uma filha, Eulália, que morreu no Rio de Janeiro, em 1949, “de repente”, conforme contou o escritor.

Quando foi libertado da prisão em 1938 — ele havia sido preso em 1936 por motivos políticos, acusado de participar da Intentona Comunista —, o escritor foi mandado para o Rio, mudou-se para São Paulo, depois foi para a Bahia e, por fim, refugiou-se novamente em Sergipe, onde imprimiu uma pequena edição do livro de poemas A estrada do mar, que distribui para os amigos. O iconoclasta sergipano-carioca Joel Silveira recorda-se do refúgio de Jorge em Sergipe: “Quando eu tinha 16 anos, depois do golpe de 1935 a polícia andou procurando o Jorge e ele se escondeu em Estância. E naquele tempo eu era aluno do Ateneu Pedro II, presidente do Grêmio Literário, e resolvi fazer uma visita. Eu e o grêmio todo. E foi aí que conheci o Jorge. E quando vim para o Rio nos encontramos e ficamos amigos. Até ele entrar para o Partido Comunista, aí me afastei completamente dele”.

João Gilberto

Jorge Amado era primo carnal de um sergipano ilustre, o escritor, político e diplomata estanciano Gilberto Amado (1887 – 1969). Outro Gilberto — outro baiano espicaçado por Joel Silveira —, o “inventor” da bossa nova João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira (1934), natural de Juazeiro, também é um quase sergipano, mas talvez valorize isso menos do que o primeiro. Ele morou e estudou em Aracaju durante quatro anos, a partir de 1942, quando foi aluno interno do Colégio Jackson de Figueiredo. Informação maravilhosa: na capital sergipana, iniciou-se no aprendizado do violão com os violonistas Carnera e João Moreira, pai do promotor Augusto Lobão Moreira. Em 1947, mudou-se para Salvador e decidiu abandonar os estudos para dedicar-se exclusivamente à música. Mas o implicante Joel Silveira não gosta dos acordes alterados. Recusa-se, aliás, a ouvir uma nota sequer emitida pelo violão ou pela voz de João Gilberto e diz que, se um dia fosse nomeado Imperador de Sergipe, baixaria um decreto proibindo que ele cantasse em terras sergipanas: “Por chatice”.

João Ubaldo Ribeiro

O outro quase sergipano, este mais do que os outros, é o escritor João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro (1941), natural da Ilha de Itaparica. Ao completar dois meses de idade, João mudou-se com a família para Aracaju, onde passou a infância, iniciando os estudos com um professor particular. Seu pai, professor e político, não suportava ter um filho analfabeto em casa. No ano de 1951 ingressou no Colégio Estadual de Sergipe. Sempre dedicado aos estudos, prestava ao pai, diariamente, contas sobre os livros lidos, sendo, algumas vezes, solicitado a resumi-los e a traduzir alguns de seus trechos. Em Salvador, para onde o pai fora transferido, conta ele que era perseguido pela professora de inglês, por causa de seu sotaque. “Ela não percebeu que eu falava inglês britânico, já que estudara em Sergipe com um professor educado na Escócia”.

Consagrado como um marco do moderno romance brasileiro, Sargento Getúlio filiou o autor, segundo a crítica, a uma vertente literária que sintetiza o melhor de Graciliano Ramos e o melhor de Guimarães Rosa. A história é temperada com a cultura e os costumes do Nordeste brasileiro e, em particular, dos sergipanos. Getúlio é jagunço de um importante chefe político de Aracaju, para quem já efetivara “vinte trabalhos”, isto é, vinte mortes. Quando cogita se aposentar, recebe sua última incumbência: prender um adversário político do interior de Sergipe (um udenista) e levá-lo para Aracaju.

Em 1993, encerrando o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo Ribeiro torna público o seu apreço por Sergipe: “Deixo para o fim, por ser a mais importante, a homenagem ao povo de minhas duas terras. Tendo sido criado em Sergipe até os 11 anos, não posso deixar de ser meio sergipano; tendo nascido em Itaparica, sou baiano. Agradeço, abraço e peço a bênção do povo da Bahia e de Sergipe. Imagino que agora, lá na ilha, algum itaparicano levanta um copo em minha lembrança e, lá em Aracaju, tão doce e amável na minha infância feliz, algum amigo antigo fala em mim com orgulho conterrâneo.” Ser quase sergipano é isso.

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