Rock and roll, condenado à eternidade – Giovani Allievi

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(Comemorando o Dia Mundial do Rock, o Portal Infonet convidou o amante do estilo musical e estudioso do assunto, jornalista Giovani Allievi, para nos emocionar com um texto referente a data)

“O rock and roll é a mais brutal, feia, desesperada e viciada forma de expressão que eu já tive o desprazer de ouvir. É escrito e cantado na maior parte por estúpidos cretinos e por meio de suas reiterações imbecis e letras hipócritas – obscenas – na verdade sujas…O rock and roll consegue ser a música marcial para todo delinqüente de costeletas na face da Terra”. Este é um trecho do depoimento prestado por Frank Sinatra no Congresso Norte-Americano em 1958. As palavras duras e a crítica furiosa a respeito do rock and roll pronunciadas pelo cantor naquele ano não expressam apenas a ojeriza dele pela música que dominava as paradas de sucesso e influenciava diretamente no modo de vida da juventude dos Estados Unidos da América . Essa era também a opinião da esmagadora maioria da população norte-americana com idade superior a 30 anos. A quem Frank Sinatra se referia em seu depoimento? Sua fúria tinha endereço certo e conhecido: Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Carl Perkins, Fats Domino e Buddy Holly, dentre outros que escreveram a bíblia daquela que depois foi aclamada como “A Música do Século XX”. 

O rock and roll e seus criadores não tiveram vida fácil na tentativa (felizmente alcançada) de mudar radicalmente o estilo de música que predominava na América desde o fim da segunda guerra mundial (“big bands” com um cantor solo). A questão é que não era somente uma nova música que estava sendo venerada (e consumida) pelos garotos e garotas americanas, mas os seus “efeitos coraterais” no comportamento da juventude, já que as letras da músicas emolduravam o conceito “viva a sua vida do jeito que você quer porque ninguém tem nada com isso”. Os rapazes aboliram o corte de cabelo militar (“reco”) para ostentar topetes e costeletas; as garotas colocaram no armário as longas e rodadas saias “de florzinha” e enfiaram as pernas em calças compridas de brim e muito justas; a moto (ou lambreta) passou a ser um disputado veículo de locomoção (à exceção dos carros com confortável e amplo banco traseiro – imaginem a razão -); beber (cerveja e whisky) e fumar (cigarros e baseados) passaram a ser “coisas normais” para um(a) adolescente da época; ter amigos(as) e namorado(a) da cor negra “não era nada demais”  e – o horror dos horrores! – a escola já não era o lugar mais importante do mundo (depois do lar). Não é se estranhar que o impacto do rock and roll abalou os alicerces da sociedade americana e a reação não poderia ser outra (vide Frank Sinatra).

Mas, como estamos aqui para confirmar, o rock and roll venceu todos os obstáculos preconceituosos e “ganhou” o mundo. Neste seu 51º aniversário (a data é 13 de julho,mas alguns defendem que o nascimento do rock and roll aconteceu em 1951 com o lançamento do single “Rocket’88”, de Jackie Breston), um pequeno histórico pode ser descrito destacando que, ao longo do tempo, o rock and roll teve suas “raízes” adaptadas e buriladas (Beatles, Rolling Stones, Who),  tornou-se “surf” (Beach Boys, Dick Dale), “instrumental” (Shadows), “clássico” (Procol Harum, Moody Blues), “progressivo” (Yes, Gênesis, Pink Floyd), “psicodélico” (Jimi Hendrix, Iron Butterfly, Jefferson Airplane), “folk” (Bob Dylan, Peter, Paul and Mary), “heavy metal” (Deep Purple, Led Zeppelin, Grand Funk, AC/DC), “new wave” (Police), “punk” (Ramones, Sex Pistols), “grunge” (Nirvana, Pearl Jam), “dark” (Jesus and Mary Chain)….

A lista de denominações e de estilos musicais que surgiram a partir do rock and roll é extensa e só cabe em um livro de muitas páginas. Mas vale um registro: depois de passar quase 20 anos (de 1980 a 2000) sendo vilipendiado por gente obscura e modismos descartáveis, o rock and roll ressurgiu espetacularmente nos primeiros seis anos desse século graças a bandas como The Strokes, Supergrass, Franz Ferdinand, The Killers, Kaiser Chiefs e outras do mesmo naipe que buscam “inspiração” nos roqueiros pioneiros. É assim: o rock and roll sempre se renova!

De 1955 a 1959, o rock and roll conheceu seu apogeu, mas esteve seriamente ameaçado de extinção quando uma série de acontecimentos tirou de “cena” seus principais porta-vozes (para alegria da sociedade norte-americana): Elvis Presley foi para o Exército, Buddy Holly morreu em um desastre de avião, Little Richard se “converteu” em religioso, Chuck Berry foi preso e condenado a dois anos acusado de ter um “caso” com menor de idade e – “que ultraje!”- a moça era branca (ele era negro), e Jerry Lee Lewis teve a vida arruinada por ter se casado com uma prima de 13 anos. Com tantas “baixas”, naquele início de 1960 o rock and roll parecia morto e sepultado nos Estados Unidos da América.

No entanto, suas “cinzas” estavam sendo levadas para a Inglaterra em forma de discos por marinheiros norte-americanos. E em uma cidade portuária da Inglaterra, inúmeros garotos também sentiam nas entranhas da alma os acordes do rock and roll da mesma forma que, três anos antes, os norte-americanos sentiram. Entre esses roqueiros de Liverpool, quatro deles passaram a sonhar o impossível: ser maiores do que o “rei” Elvis Presley. Seus nomes? John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Eles conseguiram o que queriam e destronaram “sua majestade”, mas esse é um outro capítulo da inesgotável história do rock and roll.            

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