Segredos de um leque – Gustavo Aragão

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…Sinto um vazio apertar-me o peito. Mas como? Tenho 30 anos e uma vida estável. Sou um empresário bem sucedido, sou correspondido em questões de amor. No jogo não tenho tanta sorte. Mas a vida ela própria se faz jogo, permeado de obstáculos para que possamos, em algum momento, lograr êxito. E neste, posso até dizer que tenho me dado bem. Porém sinto-me incompleto. Há algo que me falta. É nesta sensação de vazio que me caibo, agora… Desejo, por isso sofro, na minha condição de homem incompleto.

Certa feita, uma profusão de cores irrompeu em meus pensamentos, repentinamente. Um caos se fez em mim. Não sabia decerto o que se passava comigo, mas sabia julgar que aquela confusão armada, em minha mente, era tão bela quanto as cores que povoam e pintam as manhãs primaveris.

Estreavam em meu palco mental as mais belas figuras, como numa dança coreografada, com toda a graça e elegância que são próprias das bailarinas. Quanto mais se confundiam as cores, mais belas ficavam as figuras formadas por elas. Pareciam querer pintar telas e mais telas, infinitamente. Delineou-se, num dado instante, de modo ordenado, a face de um senhorita que tomava, em uma das suas mãos esverdeada, áspera e de unhas grandes, pintadas à cereja, um leque aberto a encobrir-lhe metade da face. Via-a cabocla, de cabelos longos e pretos, meio ondulados, possuía um olhar assombrado, como se guardasse nele um medo. Seria o medo do tempo? Ou seria o medo do medo que nos mobiliza a vida? Ou ainda poderia ser o medo de si mesma? Não conseguia decifrar aquela luz, que me chamava do fundo dos olhos daquela senhorita, tão forte e marcada era a sua face em segredo. Porém me intrigava sua imagem complexa e bem composta por pontos coloridos, que se sobrepunham num ludismo de cores, para mim, até aquele momento, impossíveis de serem verbalizados. Não que isto fosse algo impossível de se dar, coçavam-me às idéias, mas transpor em palavras algo que não se domina é praticamente irrealizável. Portanto, fiquei a observá-la com olhos de poeta e pude, então, tempos depois, visualizar na derme do leque um corpo feminino, arqueado, banhado por uma leve luminosidade. Talvez fosse aquela luz a resposta da escuridão, que passeava pelos olhos da senhorita aturdida? Para mim pontos de desejo, vermelhos como a maçã completavam o leque e se esparramavam por sobre o corpo da mulher vulnerável, que ali se estendia e se revelava, em pedaços, pelos limites das varetas encobertas por cores em tons diversos.

Abanicava-me os pensamentos, agitava-me a percepção, tão complexa e inesgotável de sentidos se me mostrava aquela fugura.  Pensei: Não é possível. Somente um pintor poderia formular algo do tipo em sua mente. Por que eu que nenhum talento tenho para as artes? Talvez essa presença tenha sido mobilizada pela ausência, que me envolvia, antes mesmo deste caos se fazer uma realidade em mim. Fiquei confuso. O sentido que tentei dar a essa figura é só meu, por isso acredito que me encontrei com a minha verdade. Não sou nenhum artista. Mas acredito que não devo pensar a imagem e a palavra, de modo superficial, mas sim no espírito, que carregam e que as realiza.

     Abriu-me um buraco, no pensamento, essa imagem…

 

●Este texto foi inspirado numa tela de Leonardo Alencar, cujo título é “Segredos do leque”

Por Gustavo Aragão

●Todos os direitos autorais estão reservados ao autor perante a lei nº 9610/98, lei de direitos autorais.

 

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