Uma ponte para o infinito

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Ali, bem pela beirada da manhã, quando no imenso azul uma enorme banda do sol começava a levitar, coroando a barra da ilha do outro lado do rio, Alfredo Baga, arrastando de uma perna, com certo esforço, cruzou a rua da Frente, ainda deserta. Não demorou muito e se fez figurar na velha e acolhedora Ponte do Imperador. Como de costume, arriou no chão, perto da balaustrada, as tralhas de pesca. A única novidade, até então, era o fato de ter levado o filho. No mais, tudo parecia estar como antes, e, mais uma vez, o ritual devia ser seguido, ou seja, olhar o mundo… Volta antes de iniciar propriamente a pescaria. Cumpria esse ritual desde que o pai o levou pela primeira vez para uma pescaria. Ficaram ali, também, sob o império da ponte, pescando o dia inteiro. Daí, não raro, às vezes se pega lacrimejando, lembrando saudoso o velho Nicolau Baga. Então, ele olhou pela barra, aprumou a visão bem no fundo da água, num gesto de quem fala com o rio ou com os peixes. Pôs-se a olhar em giro. Primeiro cuou a vista na direção da ilha. Seguiu rumo… Coroa do Meio, contemplou o calçadão adornado pela balaustrada, os casarios da rua da Frente. E, assim, foi girando, contemplando a paisagem, dali da Ponte. Passou pela praça Fausto Cardoso, volveu o olhar, em fração de segundo, para o Morro do Urubu, e retornou em seguida, passando pelas fábricas Confiança e Sergipe Têxtil Industrial – lembrou Os Corumbas de Amando Fontes, que lera quando menino -, passou pelos mercados há pouco reformados, e volveu novamente o olhar até fixar na Fausto Cardoso. Contemplou o Palácio do Governo e, com alguma dificuldade, enxergou os dois coretos e a estátua de Fausto amparados pelos galhos das árvores. Lembrou da professora de história, uma apaixonada por aquele homem de bronze e pedra. Fazer o quê?! Há gosto para tudo. Pegou anzóis e iscas. Parou, circunspecto. Meteu a mão no bolso e puxou uma velha caixinha, envolvida num naco de pano. Contemplou embevecido o anzol que guardava como um relicário, peça de rara estima, um legado do saudoso Nicolau Baga. Recolocou na caixinha, embrulhou com o pano e meteu no bolso. Pegou a linha, próximo … Chumbada. Num tanjo, dando alguns passos para tr s, arrastando uma das pernas, rodou, rodou, rodou forte e arremessou longe, bem longe, uma cachoupa de anzóis, que afundaram, nas profundezas das águas barrentas do rio Sergipe. Atou a ponta da linha … Balaustrada, tempo suficiente para acender um cigarro, enquanto lançava um olhar cumprido e terno para o pirralho que aguardava que o rio devolvesse os anzóis e a linha do pai. Alfredo riscou o fósforo, mas o vento o apagou. Entretanto, com a ajuda da mão amparando o vento, conseguiu finalmente acender o cigarro. Barbosinha, sua mãe… Eu… Começamos aqui… Aqui quê, pai? Quis saber o menino curioso com os bugalhos dos olhos fincados na água, talvez esperando o rio devolver os pertences do pai que nem os bagunços com os pagos grudados, enfeitados, das jacas-mole que comia … Sombra da frondosa jaqueira no quintal da casa, no bairro Siqueira Campos. Começamos nosso namor… Ta puxaaannndo, pai… Pai, o quê? Atalho Barbosinha, agoniado apontado para a linha em movimento na água. Depois… Depois… Era Alfredo atarantado, … Toda pressa, recolhendo a linha do rio. O emaranhado de nylon crescia no piso da ponte. Alfredo respirou diante do resultado do lance na mão. Cabrunco, baiacus… Quê, pai? Quis saber o pirralho. Mas Inácio Joaquim Barbosa Baga – este era o nome de Barbosinha -, estava feliz, os anzóis vieram enfeitados que nem os bagunços das jacas-mole que comia debaixo da jaqueira no quintal. Ali s, o verdadeiro nome de Barbosinha ‚ uma homenagem a In cio Joaquim Barbosa que, em 17 de marco de 1855, fez a transferência da capital da província de Sergipe d”El-Rei de São Cristóvão para Aracaju. Barbosinha agora olhava admirado o movimento dos veículos na rua, quando, de repente, viu um grupo de turistas chegando … Ponte. · sombra gostosa, ao frescor dos ventos, em um canto um casal, indiferente aos chegados, entregava-se num beijo de língua e saliva, num escândalo que uma freira que acompanha o grupo não parava de persignar-se. Depois dos baiacus, Alfredo não quis mais saber do rio, zangou-se e arrumava as tralhas, disposto a ir embora, quando uma mão suave tocou-lhe o ombro. Pode falar que ser Ponte Imperator?, Era a gringa Gabriela Fox. Prontamente, Alfredo abandonou as tralhas, e, como tinha sido um bom aluno de história, passou a figura agora como cicerone. Riu um risinho modelando gentilezas e clamor: Por aqui, pois não ilustres, dirigiu meio afobado, passando a detalhar cada prédio, cada monumento visto dali mesmo da velha e acolhedora Ponte do Imperador. – Tá vendo que esta ponte liga nada a nada. Falou, com rasgo de deboche, um baiano abelhudo que se intrometeu no meio do grupo repentinamente. Empacou, Alfredo!. Liga nada a nada!? Que estória ‚ essa? Cabrunco de baiacus!, zangou-se. E agora Alfredo? Os gringos se questionavam, abilolados, com voz e gestos como a esperar uma explicação dessa ponte ligar nada a nada. Cabrunco de baiacus. É hoje. Mas, num repente Alfredo calou a todos. Esta ponte, ilustres, pois não, leva sim a algum lugar. Leva ao infinito, disse abrindo os braços. Foi o bastante para os turistas que, se dado por contentes e satisfeitos, foram-se embora, mas sem deixar um centavo para o pobre do pescador. Baiacus do Cabrunco! zangou Alfredo. Arrastando uma das pernas, pegou as tralhas e fez tanjo. Inácio Barbosa já o esperava no centro da praça. Arremessou os baiacus na água. O casal, ali debaixo, dava-se às águas do amor. O movimento de veículos aumentava com o horário de pique, os ônibus passavam gargarejando, atulhados de gente. Baiacus… Pai, quê?! Ponte?! Infinito?! Sim, filho, esta ponte, dita Ponte do Imperador, une o passado ao presente, e, assim, nos leva ao infinito. Não há marreta nem homem que destrua o que a memória e o trabalho dos homens edificaram. Quê, pai? Pararam em frente … estátua de Fausto, cuou a vista, lendo a frase cunhada no pedestal. A liberdade só se prepara na História com o cimento do tempo e o sangue dos homens… Leu, releu com os olhos marejados, saudoso do pai. Amiudou a voz dentro da alma. A professora Terezinha tinha razão, homem deveras importante… Quê, pai? Alfredo Baga olhou para trás e agora via a Ponte do Imperador imensa … sua frente, entre os ramos das árvores, coroada pela lua que se pôs a brotar pras bandas da Barra dos Coqueiros. Vamos, Barbosinha, já‚ noite… Vamos! Autor: Percílio Felisberto / Vanilton Alves dos Santos 2º colocado no 2º Concurso de Crônicas sobre a cidade de Aracaju

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