“Agência Nacional de Petróleo no Caminho com Maiakovski”, por José Paulino da Silva*

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Na noite de segunda para terça-feira desta semana, assisti no canal de TV Alese pronunciamentos de parlamentares sergipanos a respeito de suas posições sobre abertura de concorrência através da qual a Agência Nacional de Petróleo(ANP) estará disponibilizando a empresas internacionais do ramo petrolífero 50% de reserva dos poços existentes em território brasileiro para exploração.Um “leilão” internacional.

Todos os deputados que usaram da palavra, tanto estaduais quanto federais manifestaram-se contrários à decisão da ANP.Foram mais além. Estão movendo recursos legais no sentido de impedir a realização deste “leilão” à semelhança do que já fez o governador Requião no Paraná.

É muito salutar que nossos parlamentares usem das prerrogativas para as quais foram eleitos e tentem, dos espaços institucionais,recursos jurídicos necessários, para defender os interesses do povo brasileiro.

No decorrer dos pronunciamentos foi dito ainda que a Petrobrás não pode em nada alterar os rumos deste acontecimento uma vez que se trata de uma decisão que está acima de sua esfera hierárquica ou seja, é uma decisão da ANP com evidente respaldo do presidente da República. Este o fato como pude captar.

Faço aqui minhas considerações como cidadão no sentido de contribuir para a formação da opinião pública sobre a questão.Mas escrevo também como profissional que durante 35 anos se dedicou ao ensino superior com o propósito de ajudar na formação da consciência crítica dos alunos,muitos dos quais seriam dirigentes, líderes,enfim cidadãos esclarecidos em defesa do povo sofrido desta grande nação

.Aprendemos que uma sociedade dependente se caracteriza pela “perda de autonomia, destruição da unidade étnica, subjugação, limitação do desenvolvimento posterior, perda do controle sobre seu próprio destino..”.Ensinamos em nossas aulas, que a dependência dos países periféricos do capital estrangeiro (dos grandes conglomerados econômicos) como é o caso do Brasil,é fruto de muitos fatores ,dentre outros , de regimes políticos ditatoriais, que de forma autoritária e truculenta, procuraram calar ou destruir o direito e o sentimento de liberdade e de autonomia dos povos.Desde o golpe militar foi imposto ao Brasil uma situação de “dependência negociada” como observa Teotônio dos Santos,:(quando o Brasil deixou de esforçar-se por um desenvolvimento autônomo a favor de um desenvolvimento associado ao capital estrangeiro(desenvolvimento associado)”.

Certamente a decisão deste “leilão” é resquício desta realidade que se configura como uma teia invisível desta dependência tão real quanto aparentemente invisível.Uma decisão que certamente passa por outros canais de pressão externos, alheios à vontade do Presidente da República ou dos dirigentes da ANP.A decisão do mesmo porventura retroagir não deve ser um ato solitário,mas deve ser reforçada com o apoio da sociedade através de todos os meios, que estiverem ao seu alcance. A soberania da nação está muito acima da vontade política de qualquer dirigente. Mas é preciso que a nação expresse sua vontade, clame e diga que ele (presidente da República) ,tem respaldo da sociedade para reagir ou retroagir da decisão de realização do “leilão”.

É tempo ainda de nossos governantes, a sociedade,nossos líderes políticos aprendermos com o poeta de no caminho com Maiakovski”:

“Na primeira noite

Eles se aproximam

E colhem uma flor

Do nosso jardim

E não dizemos nada.

Na segunda noite

Já não se escondem:

Pisam as flores,

Matam nosso cão

E não dizemos nada.

Até que um dia

O mais frágil deles

Entra sozinho em nossa casa,

Rouba-nos a lua e,

Conhecendo nosso medo,

Arranca-nos a voz da garganta

E porque não dissemos nada,

Já não podemos dizer nada.”

(Eduardo Alves da Costa ,Do Jornal de Poesia.S.d.)

 

*Doutor em Filosofia e História da Educação

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