“O Papel do Economista nas estratégias de desenvolvimento Local”, por Ricardo Lacerda*

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A idéia do que seja desenvolvimento tem mudado muito nos últimos anos. Na noção clássica de desenvolvimento, os caminhos para alcançar o progresso material eram associados à atração de grandes empresas que promoveriam a ampliação da quantidade de recursos que circulam na localidade ou Estado, com efeitos multiplicadores sobre outras atividades. Essa concepção fundamentou a maior parte das políticas de desenvolvimento adotadas em termos nacionais e locais, desde os anos 50, como a política de incentivos aos investimentos industriais da SUDENE e, a partir dela, foi associado o desenvolvimento de Sergipe aos empreendimentos do Sistema Petrobrás. Diversas gerações de economistas foram formadas nessa tradição de pensamento.

A noção clássica do desenvolvimento não estava errada, ela apenas era insuficiente frente às mudanças na economia mundial e às crescentes demandas sociais. Ademais, os grandes empreendimentos não asseguraram a interiorização do desenvolvimento, a inclusão social e a distribuição da riqueza gerada.

A atração de investimentos de grande porte continua sendo fundamental para injetar um volume significativo de renda e pode atrair empresas fornecedoras ou clientes para a sua proximidade, além de gerar uma renda em termos de salários que estimula a economia local, como é o caso da implantação de Ford na Bahia.. Há, nesse sentido, todo um novo esforço do governo federal, sobretudo através do BNDES, para redefinir as novas prioridades da política industrial.

Desde meados dos anos 80, vem ocorrendo uma mudança radical sobre a compreensão do desenvolvimento. Nas teorias do desenvolvimento endógeno ou desenvolvimento local, o desenvolvimento econômico depende de incrementar a produtividade através da melhoria dos fatores produtivos, mais do que aumentar o uso desses fatores, em aglomerações locais de empresas. A estratégia do desenvolvimento endógeno passa por criar as ‘externalidades’- as condições ambientais em cada localidade- que vão propiciar o incremento da produtividade e competitividade das empresas. A construção desse ambiente envolve a criação de infraestrutura física; a melhoria na escolarização e qualificação da mão-de-obra; a redução dos custos de transação; o estabelecimento de parcerias estratégicas com fornecedores, clientes e concorrentes; a disponibilização de crédito, inclusive o microcrédito e o impulso à Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento de novos processos, produtos e técnicas de gestão. O fundamental é desenvolver relações locais de cooperação e concorrência como forma de obter a eficiência coletiva em uma estratégia de desenvolvimento construída de baixo para cima.

São elementos centrais nessa estratégia de desenvolvimento local, o fortalecimento dos laços de confiança entre os agentes locais (empresários, governo e força de trabalho) na formação do chamado capital social e a construção de uma sólida articulação político-institucional.

As transformações econômicas e sociais recentes e a emergência de estratégias de desenvolvimento local modificam e ampliam o espaço dos economistas e de outras categorias profissionais de planejadores sociais que, ao longo das duas últimas décadas, defrontaram-se com o encolhimento do mercado de trabalho e a desvalorização profissional. Formou-se, mais recentemente, todo um novo espaço de atuação que exige um novo perfil profissional, menos tecnocrático, mais flexível e aberto à interação com as comunidades locais. Amplia-se um campo de atuação para o exercício de atividades tais como a elaboração de planos, programas e projetos de desenvolvimento local; a elaboração de diagnósticos, identificando potencialidades e estrangulamentos das atividades locais; execução, supervisão e avaliação dos planos locais; assessoramento de fóruns locais de desenvolvimento; assessoramento para a implantação de associações e cooperativas do trabalho; assessoramento à incubação de empresas nas localidades; realização de cursos e consultorias nas áreas de custo, gestão e pesquisa de mercado.

* Economista, prof. adjunto do Departamento de Economia da UFS e conselheiro do CORECON-SE.

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