Estudo elaborado pela UFS mapeia área de risco no bairro Cidade Nova

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O crescimento urbano, o descarte irregular de lixo e construção de moradias inadequadas são os principais motivos que geram os deslizamentos (Arte: UFS)

Aracaju começou a ser construída na metade do século 19 em uma extensa região de planície litorânea, tendo, em média, 4,9 m de elevação em relação ao nível do mar. A partir da década de 1970, a ocupação urbana avançou de forma intensa sobre a vegetação de áreas de tabuleiros costeiros, onde surgiram bairros nas zonas Norte e Oeste em pontos que chegam a 100 m de altitude.

É o caso do Bairro Cidade Nova. Localizado na região norte da capital sergipana, com 821.453 m² de área, é caracterizado por relevo de até 70 m de elevação em comparação ao nível do mar, com inclinações de encostas alcançando 44º. A geologia do bairro compreende colinas com vertentes íngremes, vales incisos e planícies restritas.

Em virtude das características geológicas da região, bem como dos efeitos do crescimento urbano desordenado, a exemplo do descarte irregular de lixo e construção de moradias de forma inadequada, a localidade tem sofrido ao longo dos últimos anos com o chamado movimento de massa. Isso desde o deslizamento de encostas à ruptura de talude, sobretudo em períodos chuvosos.

A fim de contribuir para a minimização dos riscos por conta dessas intervenções, a geóloga Luisa Sampaio Franco desenvolveu uma pesquisa de mestrado voltada às análises hierárquicas e de regressão linear aplicadas aos mapeamentos de suscetibilidade e de risco aos movimentos de massa. O trabalho foi realizado junto ao Programa de Pós-graduação em Geociências e Análise de Bacias, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), sob orientação do professor Felipe Torres Figueiredo.

O estudo de risco geológico no Cidade Nova foi desenvolvido pela pesquisadora entre os anos 2019 e 2021, sendo dividido em três etapas: pré-campo, campo e análise laboratorial. Segundo ela, umas das finalidades desse tipo de pesquisa é “reunir evidências científicas para auxiliar nas tomadas de decisões quanto às ações do poder público nos locais em monitoramento”.

Monitoramento de risco geológico auxilia tomada de decisão de medidas preventivas (Foto: UFS)

Pré-campo

A primeira etapa da pesquisa buscou formar um banco de dados sobre as características geológicas do local com a coleta de informações, por meio de imagens de satélites e dados fornecidos pela Defesa Civil. O geoprocessamento dessas informações possibilitou a delimitação das áreas mais críticas, que passaram para a análise na segunda etapa do estudo.

“Sabendo desses lugares, onde a moradia está posicionada em relação ao terreno, além de conhecer a probabilidade, por exemplo, daquela região ter uma chuva ou um período do ano mais chuvoso, é possível trabalhar para fazer uma análise prévia dos locais com maior potencialidade de ter um escorregamento,” pontua Felipe Figueiredo.

Campo

Com a utilização de drones, a geóloga obteve imagens para facilitar a visualização das áreas de risco. Além disso, os moradores responderam a um questionário através de uma ficha catalográfica com informações sobre a quantidade de residentes em cada casa, o histórico de deslizamentos, a presença de trincas ou rachaduras nas residências.

Ao todo, foram realizadas seis etapas de coleta, sendo elas: vulnerabilidade estrutural das residências, fatores topográficos e geológicos das encostas, caracterização local, feições de instabilidade, histórico de processos e medidas mitigatórias.

“Com todas essas informações coletadas nas etapas de pré-campo e de campo, buscamos definir a partir daí qual o grau de risco que aquela casa avaliada se encontra e quais são as intervenções que são necessárias para aquele local,” ressalta Luisa Franco.

“Essas etapas são importantes para termos uma noção espacial tanto qualitativa como quantitativa dos locais com maior potencial para um evento que possa causar algum dano em bem material e, até mesmo, um risco de perda de vidas humanas,” complementa o professor.

Análise laboratorial

Com a categorização das áreas em quatro graus de risco, a pesquisa identificou 43 setores de risco no bairro, sendo 4 deles de risco muito alto, 9 alto, 14 médio e 16 baixo. Ao todo, 1.417 pessoas se encontram em situação de risco de movimento de massa em 356 moradias do Cidade Nova.

“Conseguimos identificar 80 residências em situação alto risco. Já de muito alto risco, que é uma região que precisa de uma resposta mais emergente e de um monitoramento mais ativo, foram identificadas no bairro 13 casas. Estas informações já foram repassadas para os órgãos responsáveis”, afirma a geóloga.

Gerenciamento de risco

Coordenador da Defesa Civil de Aracaju, o major Sílvio Prado destaca que uma das principais atribuições do órgão é atuar para reduzir os riscos e danos sofridos pela população em caso de desastres dessa natureza. Isso perpassa desde medidas de mitigação a estudos de riscos geológicos.

‘Com esse dimensionamento, conseguimos saber quantas pessoas residem em área de risco e quantas moradias estão construídas nessas áreas, para que tenhamos um monitoramento para que não haja um aumento de construções nessas áreas, principalmente em períodos chuvosos. Isso permite que tudo seja planejado pelo Município antes de qualquer desastre envolvendo deslizamento de terra e movimento de massa,” pondera.

Fonte: UFS

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