Reitor da UFS fala sobre expansão universitária

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Para o processo vestibular 2007, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) está preparando, além do aumento do número de vagas em cursos já existentes, a criação de mais 19 novas graduações. As ações fazem parte do projeto de expansão da instituição, que além dos campi de Aracaju e São Cristóvão, funcionará em Laranjeiras e Itabaiana. O reitor da UFS Josué Modesto dos Passos Subrinho conversou com o Portal Infonet sobre o projeto e esclareceu pontos importantes dos novos locais e novos cursos. Confira agora.

 

Portal Infonet – Como a universidade conseguiu, em um ano, aprovar 19 novos cursos?

Josué Subrinho – Nós fizemos, em primeiro lugar, uma estratégia de parcerias para viabilizar a infra-estrutura e os investimentos necessários da implantação desses cursos.

 

Infonet – Como essas parcerias, por exemplo, irão beneficiar esses cursos?

JS – Há um conjunto de cursos da área de engenharia e tecnologia – Engenharia Mecânica, Engenharia de Materiais, Engenharia de Produção, Geologia – que terão suporte a partir dos investimentos feitos em parceria com a Petrobras. Firmamos um convênio com a Petrobras para a construção de um núcleo regional de competência em tecnologia de petróleo e gás, um núcleo de R$ 30 milhões com sete laboratórios, e esses laboratórios servirão, inclusive, para apoiar esses cursos ligados à área técnica.

 

Infonet – Como vai ficar a área de Artes?

JS – Os cursos da área de Artes, essa área nova, serão localizados em Laranjeiras, através do convênio com a Prefeitura Municipal de Laranjeiras e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico

Trapiche que abrigará o Campus das Artes em Laranjeiras
Nacional (Iphan). Nós receberemos da Prefeitura uma área restaurada e adaptada para o funcionamento do curso superior. A área é composta por antigos trapiches, ruínas, que serão restauradas e adaptadas pelo Iphan e lá serão sediados os cursos de Teatro, Dança, Arqueologia, Museologia e Arquitetura.

 

Infonet – E a área de Saúde?

JS – Os cursos da área de saúde, Enfermagem e Fisioterapia, terão suporte a partir do primeiro semestre, e já estão inclusos no Campus da Saúde. Eles decorrem de, por um lado, de uma emenda parlamentar para a construção de uma nova ala do Hospital Universitário, e do outro, pelo financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) que vai permitir a construção de um novo laboratório de testes clínicos.

 

Infonet – O que mais será feito?

JS – Todos esses laboratórios não comportam o volume de novos cursos e alunos que estão chegando. Para receber esses novos alunos desses novos cursos nós também precisamos da ampliação da área de uso comum, da área didática. Iremos ampliar as salas de aula e está prevista a construção de um novo prédio da Didática aqui no Campus de São Cristóvão e outro prédio no Campus da Saúde, em Aracaju, isso com recursos que já estão previstos no orçamento da União deste ano e que está pendente ainda de liberação. Isso totaliza em R$ 4,450 milhões que serão aplicados na construção desses novos prédios, das Didáticas, da Rádio Comunitária, da construção do Departamento de Matemática e outros pequenos empreendimentos. Ao lado disso, ainda no Campus Universitário de São Cristóvão, nós teremos a construção de uma Vivência Estudantil, com recursos do Governo com o Banco do Brasil, e de um Fórum da Justiça Estadual em convênio com o Tribunal de Justiça, que no momento, já está em obra.

 

Infonet – Algo mais?

JS – Há por um lado, vários investimentos feitos entre parceiras e acordos de convênios a partir da ação da bancada sergipana que vem promovendo e apoiado a expansão da UFS, mas é obvio que tem também a questão importante do corpo docente. Então este ano, no ano de 2006, a UFS contratou 108 professores efetivos, a maior parte deles doutores, que vai permitir um maior conforto para os departamentos, tanto para os cursos novos como para os existentes. Há uma clareza da estratégia de que as universidades crescem, recebem mais recursos financeiros quanto recursos humanos. Então nós temos uma expectativa de que na próxima redistribuição de vagas do Ministério da Educação (MEC), tanto para técnicos quanto para docentes, nós teremos uma parcela mais expressiva do que já tivemos neste ano, que foi, de fato, muito expressiva, certamente foi maior o concurso público que a UFS já realizou em sua história em um único ano.

 

 

Infonet – E como foram feitas a escolhas desses novos cursos? Foi sugestão, pesquisa de mercado?

JS – Os cursos são escolhidos a partir da proposta dos departamentos, tendo em vista tanto nosso potencial acadêmico da faculdade de propor cursos quanto, claro, uma estratégia de desenvolvimento do Estado de Sergipe, e uma visão também do mercado nacional e até internacional. Hoje, de fato, as pessoas não se formam para trabalhar apenas em sua cidade – claro, há, crescentemente, uma mobilidade internacional de trabalhadores e há a clareza de que nós precisamos formar jovens profissionais para atuar no nosso mercado e no mercado nacional. Então, tínhamos, primeiro, que preencher certas lacunas na oferta de cursos pela UFS.

 

Infonet – Quais eram essas lacunas?

JS – Nós tínhamos uma lacuna grave em tecnologias e em engenharia, e a construção que fizemos em conjunto com a Petrobras para a implantação desse núcleo de competência em tecnologia de petróleo e gás nos fez ver que era imprescindível ter certos cursos. Por exemplo, Sergipe não ter um curso de Geologia é uma lacuna gravíssima, porque há mais de 40 anos o petróleo é o item mais importante da economia sergipana, e depois do início da exploração do petróleo em Sergipe nós tivemos um desdobramento em mineração – são importantes jazidas de calcário e potássio, a única em exploração no país – nós não tínhamos, até então, um curso em Geologia. Não tínhamos certas engenharias, como Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção, Engenharia de Materiais, então esses cursos tecnológicos que a Petrobras está fazendo em várias universidades do país mostrou que nós tínhamos chance de abrir oportunidades para os sergipanos que eventualmente se inserirão no mercado local, no mercado nacional e até no mercado internacional.

 

Infonet – Quais as lacunas da área de Artes?

JS – Nós tínhamos uma carência grande na área de Artes – basicamente uma licenciatura em Artes Visuais – e isso é muito pouco. Nós não tínhamos um curso de Música, que é um conteúdo obrigatório da educação básica, e quando você não forma professores de música você termina não tendo professores na rede de ensino básico. Então, abrir cursos de Arte é atender certas demandas da sociedade sergipana e da sociedade brasileira, o problema da falta de professores de música é geral, não é apenas local.

 

Infonet – Quais as lacunas em Saúde?

JS – Um curso que não estamos ofertando agora, mas que as primeiras turmas já se formaram e que na época provocou uma certa polêmica sobre cursos novos, foi o curso de Física Médica. Eram poucos os cursos no país e todos os nossos primeiro formandos já estão bem alocados no mercado porque há um mercado nacional. O local não é muito grande, mas não podemos pensar pequeno.

De uma maneira geral, os cursos da área de Saúde, Fonologia e Nutrição, não temos esses cursos em Sergipe. Os profissionais que atuam no Estado tiveram que fazer formação fora. Então é uma outra opção para os sergipanos, tanto para o mercado local como para o mercado nacional.

Finalmente, nós temos alguns cursos como Turismo e Secretariado Executivo, são cursos na área de Ciências Aplicadas que tem tido uma sanção da profissão e não tínhamos uma oferta local.

 

Infonet – E nas outras áreas?

JS – Arqueologia, por exemplo. A nossa universidade tem uma experiência arqueológica importante. Nós temos o Museu de Arqueologia em Xingó, nós temos já uma tradição acadêmica de pesquisas em arqueologia, mas não participávamos do esforço de formação de profissionais para arqueologia, que, aliás, são poucos os cursos do país. Então óbvio que as pessoas que cursarem arqueologia não contarão apenas com o mercado local, ainda há um mercado nacional ainda pouco ocupado por esses profissionais, e que são demandados por todas as grandes obras – que tem impacto ambiental muito grande, um dos requisitos é ter uma pesquisa e um resgate de vestígios arqueológicos. Então há outros ramos da Arqueologia que são importantes e que eu acredito ter mercado de trabalho. Eu destacaria a Engenharia de Pesca, pois há uma clara vocação dos Estados da região Nordeste para a Aqüicultura e nós não tínhamos esse curso em Sergipe, que eu tenho a impressão de ser um setor econômico em expansão, com grandes perspectivas, e que os nossos profissionais poderão atuar.

 

Infonet – Então, a UFS terá, com esses convênios firmados com essas entidades, estrutura para suportar esses novos estudantes?

JS – Sim, nós estamos preparando a estrutura. A propósito, por exemplo, o curso de Engenharia de Pesca, nós já temos alguns contatos com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), então há um interesse dele de fazer um convênio para disponibilizar as estações de pesca do Mosqueiro ou a de Pacatuba. Nossos colegas da área estão verificando os prédios com o Ibama e ainda há a possibilidade de firmar convênios com outras instituições, então os nossos alunos já ingressarão com a possibilidade de práticas em espaços adequados.

 

Infonet – Inicialmente, os novos estudantes terão aulas onde?

JS – Aí depende dos cursos. Os cursos da área de Artes, destinados ao campus de Laranjeiras, as aulas serão no município de Laranjeiras, desde o primeiro semestre. No primeiro semestre nós não teremos à nossa disposição esse prédio mencionado, mas nós entramos em contato com a Prefeitura Municipal de Laranjeiras que disponibilizará um colégio para o início das aulas até recebermos a instalação definitiva do campus de Laranjeiras cuja previsão de conclusão reforma e adaptação é de um ano.

No caso dos cursos de Aracaju e São Cristóvão nós pretendemos iniciar ainda este ano a construção desses novos prédios – já estamos providenciando as licitações – aqui nesses campi.

 

Infonet – Já foram contratados professores para esses novos cursos?

JS – Não. Os professores que foram contratados ainda não foram para novos cursos, foram para os cursos existentes. Para os novos cursos cujo inicío de aula está previsto para o final de março ou abril, nós faremos a primeira seleção próximo ano para contratar professores. Há uma previsão de que no próximo ano nós teremos uma quota de vagas mais significativa do que nós havíamos até então, pois nossa universidade está em processo acelerado. O nosso pleito já foi encaminhado ao Ministério da Educação comprovando a nossa necessidade, e assim que recebermos a devida autorização, nós teremos condição para efetuar a contratação de professores efetivos.

 

Infonet – O governo federal já está dando suporte a essa expansão, já disponibilizou verbas ou ainda não?

JS – Tem uma parte. Os novos prédios dos campi de Aracaju e de São Cristóvão estão no orçamento da universidade, numa emenda da bancada parlamentar de Sergipe, foi aprovado, está no orçamento, mas a liberação está no limite de empenho, ou seja, está no orçamento mas não está liberada. Está dependendo de negociações com o MEC e com a área econômica do governo. Nós temos mantido permanente pressão e conversa com a promessa de que esses recursos serão liberados ainda antes do final do exercício. Esses são recursos que o governo federal libera de acordo com a execução do orçamento, com a constatação de que há recursos no orçamento. E claro que isso passa por um processo de pressão política, e quanto a isso nós temos contado com o apoio incondicional da bancada parlamentar e está tudo preparado aqui para começarmos as obras.

 

Infonet – A expansão acabou ou o projeto pretende levar novos campi a outras cidades do interior de Sergipe?

JS – Não, o projeto não acabou. O projeto que nós apresentamos previa a construção de cinco campi no interior do Estado. O campus de Itabaiana já está com os recursos assegurados, no final desse ano começaremos a construção de um novo prédio para ampliação. Itabaiana e Laranjeiras surgiram como opção a partir de certo entendimento entre as Prefeituras Municipais e o Iphan, mas continua o pleito da UFS de ter campi universitários em Lagarto, Estância, Nossa Senhora da Glória e Propriá. Do nosso ponto de vista, a UFS gostaria que, com essas cidades-pólo, nós estivéssemos presentes em todas as regiões do Estado. Essa é a nossa pretensão, depende apenas da autorização do governo tanto para construção quanto para assegurar corpo docente e técnico.

 

Infonet – Como a comunidade universitária recebeu a notícia da criação desses novos cursos?

JS – Eu acho que a comunidade recebe, por um lado, com um certo entusiasmo, pois a universidade está se expandindo para incluir novos segmentos e percebe a sua relevância, e é claro que há um certo temor em todos nós quanto ao volume de recursos, se teremos recursos suficientes. É mais cômodo não fazermos nada, mas não podemos ficar inflexíveis às necessidades de desenvolvimento e crescimento do Estado de uma maneira geral e as necessidades de segmentos importantíssimos da nossa população que não têm outra alternativa. Então eu diria que vale muito a pena continuar nesse processo de luta, que não pode ser uma luta apenas retórica, mas tem que ser uma luta efetiva.

 

Infonet – Mudando de assunto, como está a questão do sistema de quotas? Quando ela deverá ser implantada?

JS – No nosso caso, por enquanto, depende da legislação federal. Na nossa universidade já tem havido discussões, mas as propostas partindo da própria universidade não avançaram o suficiente para transformarem em medidas concretas. Há universidades que iniciaram ela internamente – a Universidade Federal da Bahia, de Alagoas, e a Universidade Estadual da Bahia tem sistema de quotas. Na nossa universidade, apesar das iniciativas e debates, ela não avançou e se concretizou. Por outro lado, eu diria que a nossa universidade tem algum tipo de políticas de inclusão, que é exatamente essa interiorização, a abertura de cursos noturnos – a exemplo da Universidade Federal da Bahia, que implantou o sistema de quotas, mas tem uma oferta ínfima de cursos noturnos. Nossa universidade tem uma oferta significativa de cursos noturnos. Claro que a oferta de cursos noturnos beneficiam um público, principalmente as pessoas que trabalham. A universidade que não oferta exclui os jovens trabalhadores da possibilidade de ter acesso ao ensino. Então, não foi uma escolha consciente, uma coisa não exclui a outra, mas de alguma forma a universidade trilhou para um caminho também de inclusão, mas não com o sistema de quotas. Mas é uma questão que se encontra em debate no Congresso, talvez seja transformada em lei.

 

Por Herbert Aragão e Carla Sousa

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