Balanço da 3ª semana do Futebol Sergipano

'Seu Gilson', 28 anos de vida dedicados aos bastidores do futebol sergipano. Quando exaltaremos essas histórias? (Foto: Arquivo Infonet)

A rodada do fim de semana da Copa do Nordeste levantou a possibilidade da classificação dos dois clubes sergipanos para as quartas-de-final. Mas as falhas e os vacilos da 4ª rodada podem ter jogado todo o trabalho pelo ralo.

O Confiança, que havia vencido o Sousa fora de casa, teve a partida na mão e entregou dois pontos preciosos ao ser castigado com um gol aos 45 minutos do segundo tempo, jogando diante da sua própria torcida. Mais uma vez o Dragão deixou de fazer com a bola nos pés o mínimo necessário quando o clima da partida era favorável. Foi assim na Ilha do Retiro contra o Sport, e foi assim no Batistão na noite da quarta-feira, 30.

A situação agora é a seguinte: o Dragão deve secar o Fortaleza pela 5ª rodada, e fazer o dever de casa na difícil missão de superar o animado Sport, este domingo, no Batistão. O azulino tem sete pontos, enquanto os cearenses tem apenas quatro, mas com um saldo negativo de três gols. As duas equipes se enfrentam em Fortaleza pela última rodada.

O Itabaiana, por sua vez, conseguiu a primeira vitória no Nordestão, mas teve o saldo de gols revertido – critério importantíssimo numa competição de tiro curto – ao ser goleado pelo ABC, em Natal. A equipe tricolor se mostrou irreconhecível, numa partida em que expôs muitas fragilidades e sentiu a pressão do Frasqueirão.

A sorte do Tremendão é que o Grupo A é o mais embolado da competição. Ceará e Bahia, com sete pontos, ainda não estão garantidos na segunda fase, enquanto ABC e Itabaiana, com 4 pontos, tem totais condições de pegar uma das duas vagas.

Já o campeonato estadual, para além do roteiro esperado, tem como destaques a queda de produção do Sergipe, possivelmente causada pela classificação antecipada, e a campanha fraca do River Plate, que pode nem se classificar a depender dos resultados da última rodada.

Público do futebol sergipano

Uma importante discussão a se fazer neste começo de ano, com duas competições acontecendo em paralelo nos gramados de Sergipe, é a questão do público nos estádios. O que falta ao futebol local para que os estádios estejam cheios como nos estados vizinhos?

Primeiro ponto: a cultura torcedora é algo que se forma com história, e em Sergipe, definitivamente, muitos erros foram cometidos quebrando esse processo. Durante anos seguidos, o futebol local foi perdendo sua atratividade, em detrimento do futebol carioca e paulista – principalmente na sua abordagem midiática – mas não só isso.

Estaduais longos e deficitários (a Copa do Nordeste pode reverter isso), gestões desastrosas dos clubes, atletas descompromissados, e até jogos televisionados para a cidade onde acontecia a partida, tirando os torcedores do estádio – coisa que não acontece em nenhum lugar do mundo. São fatores que parecem desconectados, mas que tem peso crucial a longo prazo.

Parece faltar em Sergipe a compreensão daqueles que fazem o futebol – dirigentes, atletas, treinadores, diretores, profissionais de imprensa etc – de que a construção da cultura torcedora em Sergipe precisa ser retomada. Não basta apenas criticar as torcidas organizadas apontando que elas são as causas do afastamento dos torcedores do estádio. É preciso assumir responsabilidades e também assumir o compromisso de reforçar o futebol local.

Isso pode ser feito de diversas formas. Valorizar o público de um jogo é uma delas, mas nem isso está sendo feito. No jogo contra o Sousa, a torcida proletária lotou o “seu lado” da arquibancada do Batistão, fez uma linda festa, exaltou sua paixão… e foi informada de que menos de 5 mil torcedores estiveram presentes naquele dia. Difícil tentar descobrir qual o cálculo que apontou um número tão baixo para o que, visualmente, parecia ser bem maior. O primeiro a se desestimular é o próprio torcedor.

Um segundo ponto é: onde estão as lendas do futebol local? Onde estão aquelas pequenas histórias da vida comum que explicam como o futebol é belo, e que ele também tem vida aqui nessa faixa de terra entre o Rio Real e o Rio São Francisco?

Estive em Itabaiana e tive o prazer de conhecer Gilson Ferreira, um senhor na faixa dos seus 60 anos, vestido com o manto tricolor, batia no peito com orgulho dizendo que trabalha há 28 anos aparando a grama do estádio da cidade. Uma história fantástica de quem dedicou metade da vida ao futebol sergipano, mas que nunca foi reconhecido. Quantos ‘seu Gilson’ não devem existir por aí, e estamos deixando de registrar?

Notas sobre o acidente na Arena do Grêmio

O acidente ocorrido na Arena do Grêmio também é um ponto fundamental de discussão para o futebol brasileiro. E isso envolve o futebol sergipano, também. Parecerá polêmico, mas vejamos.

Há no Brasil a consolidação de uma verdadeira ditadura da “ideologia das Arenas”. Quando falo de “ideologia das Arenas”, me refiro a essa concepção de futebol-negócio que vem sendo forjada no país há alguns anos, na carona da Copa do Mundo. Uma pretensa “modernização” das estruturas do futebol, que no frigir dos ovos significa o seguinte: transformar o jogo em puro negócio, e dar muito dinheiro a quem está envolvido – custe o que custar.

O caso do acidente com a torcida do Grêmio é uma peça interessante para compreender esse processo: da forma que reza a cartilha do futebol-negócio, que tem contornos radicais no Brasil, é ruim (logo, dá menos dinheiro, é dispendioso) que uma torcida se comporte daquela forma: cantando, torcendo, pulando e se negando a permanecer sentado na arquibancada como se estivesse num teatro.

Por ser o que é, a Geral do Grêmio foi capaz de pressionar a diretoria do clube a não colocar cadeiras no setor onde ela se localizaria no estádio. Mais do que justo, é um ato democrático e de bom senso: a Geral sempre lota os seus setores, mesmo quando o resto do estádio está vazio. Para a infelicidade dos defensores do futebol-negócio.

Mas a Geral também tem sua cultura própria, e a Avalanche é parte disso. É a forma que os torcedores acordaram em comemorar o melhor momento do futebol, que é o gol. É o momento da catarse coletiva que só o futebol, dentre os tantos esportes existente, é capaz de proporcionar. Quem não estiver disposto a participar da Avalanche tem outros espaços do estádio para se posicionar. Assim como quem não tem interesse em ficar sentado durante todo o jogo, tem a Geral.

É a estrutura do estádio que deve se adaptar à Geral do Grêmio, e não o inverso. Uma torcida com mais de 10 anos de ações inacreditáveis e memoráveis para o clube deve ser mais valorizada do que uma visão mercadológica xiita de futebol-negócio como essa "ideologia das Arenas". Mas o senso comum voltou a soar mais alto do que o bom senso.

Fazendo comparações esdrúxulas com a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, o senso comum apoiou a interdição do setor do estádio, a colocação de cadeiras e “paravalanchas”. Ainda na sexta-feira o Grêmio divulgou nota dizendo que acataria ordem da Secretaria de Segurança Pública, do Corpo de Bombeiros e da Brigada Militar de colocar 5 mil cadeiras no setor até a próxima partida.

Quanto ao relatório técnico que apontaria se houve erro de cálculo na colocação da estrutura que faria a proteção dos torcedores? Esse só sairá daqui há três meses, quando o estrago já terá sido feito.

Quando falo o senso comum, pontuo principalmente o papel que cumprem a ala da imprensa esportiva nacional que flerta com o futebol-negócio que citei acima. Durante os dias que seguiram a polêmica pouco se pontuou que as avalanches acontecem nos jogos do Grêmio há pelo menos cinco anos, e nunca – nunca mesmo – foi registrado algum acidente.

O Grêmio, antes de se mudar para a Arena, jogava no estádio Olímpico, mais antigo, com 50 anos de existência, onde nunca aconteceu qualquer dano à sua estrutura física durante as comemorações. De vítimas de uma obra mal feita e mal planejada e da teimosia em adaptar o setor para uma das torcidas mais atuantes do Brasil, os torcedores do Grêmio viraram vilões. A corrente quebrou, mais uma vez, do lado mais fraco.

Por Irlan Simões

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