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Camila e Cristóvão Bittencourt: vidas dedicadas ao karatê (foto: Geraldo de Paula) |
Eles não herdaram apenas os genes. Herdaram paixões. Além do envolvimento intenso com suas modalidades esportivas, alguns dos principais atletas de Sergipe também gozam de um privilégio: ter aprendido boa parte do que sabem com seus pais. Em todos os esportes há pelo menos um exemplo assim. E neste Dia Dos Pais, escolhemos três deles para ilustrar pais que se projetam nos filhos; e filhos que prosseguem o legado paterno.
Pai, técnico… e “carrasco”
Um dos principais professores de karatê do estado, Cristóvão Bittencourt conseguiu levar aos tatames dois filhos. Envolvidos com a arte marcial desde pequenos, Thiago e Camila Bittencourt cresceram diante da rigidez e da cobrança de seu "pai-professor" dentro e fora dos tatames. “Eu não podia nem chamá-lo de pai nas aulas de karatê. Tinha de ser mestre, pois ali eu era igual a qualquer outro aluno dele. E justamente por ser filha, recebia mais cobrança. Eu tinha de ser um exemplo”, conta Camila.
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Camila, Cristóvão e Thiago Bittencourt (primeiro à esq.,agachado) entre outros faixas-pretas: família de mestres (foto: Acervo Pessoal) |
A disciplina imposta por Cristóvão também era acompanhada de lições de integridade. Camila conta que, quando criança, lutou uma final que tinha, entre os árbitros, seu próprio pai. E quando o resultado ficou nas mãos da arbitragem, o voto decisivo surpreenderia a todos. “Os juízes haviam me dado a vitória. Mas foi meu pai quem os convenceu de que eu não tinha vencido. Então voltaram atrás, e perdi o campeonato”, conta.
A lembrança da derrota, entretanto, não a afetou – e as lições ensinadas pelo professor perduraram e frutificaram: hoje tanto Camila quanto Thiago são faixas-pretas 3º Dan de caratê, árbitros internacionais e ajudam o pai na organização de diversos campeonatos estaduais. “Meu pai é influência para mim não só no esporte, mas na vida. Sempre fui de escutá-lo, e faço isso até hoje”, diz Camila. O professor Cristóvão retribui o carinho. “Camila é uma pessoa maravilhosa. Sempre foi uma criança exemplar, estudiosa, e assim como meu filho Tiago, ainda puxou ao pai na prática do karatê. Tenho um orgulho imenso de meus filhos”, conta.
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Rodrigo Lama: campeão iniciado pelo pai (foto: Paulinho Santana/s2sports) |
Juntos nas lamas da vida
Ele é um dos maiores nomes do motocross nacional. É referência no Nordeste e já ensaia uma carreira no exterior. E deve parte de tudo isso ao cara que o iniciou e o sustenta no esporte: seu pai. Aos 21 anos, Rodrigo Andrade “Lama” não se vê em nenhuma competição sem a presença de seu “velho” Juvenal Alves. “Foi ele quem me ensinou a andar de moto, quem me incentiva, quem vai a todas as corridas e luta por patrocínio. Nossa relação tem muito de pai e filho, e mais ainda de amizade”, diz Rodrigo.
Piloto de trilhas, Juvenal costumava deixar seu filho brincar com as motos com apenas três anos de idade. Até que um amigo o convenceu a iniciar Rodrigo no motocross. “A intenção era competir só para brincar. Mas de lá pra cá a gente não parou mais”, conta Juvenal.
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Lama, lesionado no chão, e Juvenal Alves em pé: presente nos momentos difíceis (foto: Talvan/s2sports) |
O pai do multicampeão explica ainda que ter um filho atleta é, sobretudo, saber discipliná-lo. “Temos que mostrar o caminho certo da vida e evitar que eles cometam nossos erros. Entre um torneio e outro, eu o advirto sobre noites perdidas, alimentação, condicionamento. Nessas horas, é preciso ser ainda mais pai do que técnico”, diz.
Rodrigo reconhece a importância da cobrança paterna, e lembra com carinho de um episódio que tinha tudo para ser um dos mais duros de sua carreira. “Certa vez caí e quebrei os dois braços. Foi a lesão mais séria que já tive no motocross. E meu pai ficou comigo no hospital todo o tempo. Depois da cirurgia, assim que cheguei em casa, tinha uma moto 0 km me esperando. Foi o jeito que ele encontrou de me incentivar e me encorajar a prosseguir”.
Rodrigo também ressaltou que técnicos são importantes, mas ter um "pai-técnico" por perto é muito melhor. “Além da intimidade que sempre tivemos, sei que ele sempre quer o melhor para mim”.
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Emílio e Mylena: pai e filha, mestre e pupila (foto: Prefeitura de Aracaju) |
Insistência campeã
Mesmo filha de professor de jiu-jitsu, Mylena Ludmila não se animou muito com as artes marciais na infância. Quando mais nova, preferia a delicadeza do balé e da ginástica rítmica. Mas o costume de casa falou mais forte – e a insistência paterna venceu. “Ele me chamou para fazer algumas aulas. Nas primeiras, fiquei meio desconfiada. Mas depois acabei gostando e não saí mais”, conta.
A perseverança do faixa-preta Emílio Nascimento com o envolvimento da filha nos tatames foi ainda mais longe. Depois de conseguir fazê-la vestir um quimono, o próximo passo de Emílio foi convencê-la a competir. “Eu não queria participar de campeonatos. Até que um belo dia ele chegou em casa e disse ‘inscrevi você em um torneio’. Eu não acreditei. Fiquei nervosa, disse que não iria. Mas ele me confortou. Disse ‘faça o que você aprendeu nos treinos’, e de lá pra cá já participei em várias competições”, detalha a atleta, que já chegou a ser campeã mundial de jiu-jitsu na faixa-azul.
Hoje faixa-roxa, Mylena tambem destaca a dedicação do "pai-técnico" com o crescimento da filha como atleta. “Ele sempre me incentiva a não desistir nunca. Quando ele mesmo se machuca, essa é uma das maiores lições que tiro. Certa vez machuquei o braço em uma competição e saí chorando. Nessa hora ele me abraçou, disse que tudo ia passar e que em pouco tempo eu estaria de volta, como ele mesmo sempre fazia”. A jovem atleta também não hesita em apontar o pai como seu melhor técnico. “Ele pega no meu pé, mas sabe o que é melhor pra mim”, diz.
Alem de Mylena, Emílio Nascimento também arrastou para os tatames o pequeno rebento Juan, de apenas quatro anos. E para o professor, é preciso saber separar o pai e o técnico. “É uma boa relação, mas tem suas complicações. É preciso tomar cuidado para que seus alunos não pensem que você está privilegiando os filhos. Dentro de casa, sou o pai. Mas no tatame sou o mestre deles e de muitos outros”. E o faixa-preta não esconde sua satisfação com os pupilos especiais. “O importante é que os filhos sigam o caminho do bem. Mas quando eles seguem a mesma trilha que os pais tomam, é melhor ainda”.
Por Igor Matheus
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