Carnaval Nuclear: a Coreia do Norte e suas provocações

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Na última terça-feira de carnaval, 12 de fevereiro, o governo da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), mais conhecida como Coreia do Norte, realizou um novo teste com arma nuclear. Desta vez, porém, eles deixaram claro que realizaram a detonação de um artefato de pequenas dimensões, mas com alto poder de destruição e capaz de ser transportado em um míssil balístico. O projétil, deste modo, poderia atingir alvos a longa distância.

Jornais do mundo todo relataram a preocupação de governantes do Ocidente e do Oriente. A data escolhida não foi ocasional. Ela coincidia com o dia marcado para o “State of the Union”, o tradicional discurso realizado pelo presidente americano no Congresso dos EUA, quando senadores e deputados ouvem do mandatário as propostas para o ano que se inicia. Ou seja, não havia como Barack Obama ignorar a provocação. A estratégia do presidente, porém, foi apontar a Coréia do Norte como um país isolado, como uma não-potência.

Curiosamente, parte da imprensa nacional e internacional parecia ansiosa por uma postura belicista no discurso que Obama realizado pouco mais de 12 horas após os testes coreanos. Todavia, o que se viu foram palavras duras, mas sem afirmações de um novo confronto bélico.

Neste cenário de crise atômica, a China, uma tradicional aliada dos governos de Pyonngyang, joga um papel importante. Parceira comercial, fornecedora de parte significativa dos recursos tecnológicos e energéticos dos norte-coreanos, as influências de Pequim se estendem através da sua frequente oposição a maiores sanções à RPDC levantadas em debates no Conselho de Segurança da ONU. No caso dos dois países, os partidos comunistas e suas pretensões possuem mais poder do que os seus próprios ministros de relações exteriores, uma distorção institucional que ajuda a entender as recorrentes provocações norte-coreanas e os deslizes diplomáticos.

Aparentemente a China, com seu novo líder Xi Jinping, não parece disposta a proteger com a mesma ênfase a parceira habitual (o primeiro teste nuclear conhecido da Coreia do Norte se deu em 2006). Desta vez, Kim-Jong-un, curiosamente um apaixonado pela Disneylândia, ignorou os conselhos chineses para evitar as explosões atômicas. Tudo indica que embora a China não decida deixar a sua aliada de lado, as relações entre os dois Estados tendem a ser abaladas.

Mas, diferente da China, a Coreia do Norte está longe de ser uma potência econômica. Os seus quase 23 milhões de habitantes convivem com altas taxas de mortalidade infantil, com surtos de fome, mortes provocadas pela falta de dietas alimentícias mínimas, percentuais de desnutrição que chegam a 37% entre as crianças. Doenças como tuberculose e malária são endêmicas por lá. Relatos de campos de prisioneiros, torturas, assassinatos de opositores políticos fazem do país um agressor destacado aos direitos humanos.

Ainda assim, este aliado em potencial da China possui uma das maiores forças armadas do mundo. São aproximadamente 1,2 milhões de componentes e quase 16% do PIB dedicado a gastos militares. A persistência em manter testes nucleares, um discurso abertamente ameaçador, provocou críticas do Conselho de Segurança e da comunidade internacional.

Com ou sem a intervenção da China, para especialistas da Casa Branca, após o seu carnaval nuclear, a Coreia do Norte deixa de ser um adversário hipotético e se torna cada vez mais um inimigo provável em um intervalo curto de tempo. Como (e se) ele será vencido, só o futuro poderá dizer.

Andreza Santos Cruz Maynard é doutoranda em História pela UNESP e integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPQ/UFS). O artigo integra as colaborações à coluna do GET.

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