Milhares de pessoas se despedem do Padre Gerard Olivier

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A Praça da Matriz ficou pequena durante o cortejo (Fotos: Portal Infonet)

“Se eu tentasse entender, por mais que eu me esforçasse eu não conseguiria. E aqui no coração, eu sei que vou morrer, um pouco a cada dia. E a amargura e o tempo vão deixar meu corpo, minha alma vazia. E sem que se perceba a gente se encontra pra outra folia”. Foi com esse refrão da música de Oswaldo Montenegro e entoando a música Meu Bom José, que os moradores do Vale do Japaratuba saíram em cortejo na despedida ao prefeito Padre Gerard Olivier (PT) no final da manhã desta terça-feira, 4.

Nunca na História de Sergipe, tinha sido visto um sepultamento que reunisse tanta, mas tanta gente quanto o do padre Geraldo Oliveira, como era conhecido. Desde as primeiras horas da manhã, chegava gente de todos os lados. Homens, mulheres, crianças, idosos, políticos de vários partidos, padres, pastores, trabalhadores Sem-Terra. Mas, acima de tudo: o povo. Povo a quem o religioso, que foi prefeito de Japaratuba por quatro legislaturas se dedicou com tanto afinco que a despedida não poderia mesmo ser diferente.

As pessoas não conseguiam conter as lágrimas

A cidade parou. Ninguém teve ânimo para trabalhar ou estudar. Todos relembravam a importância do padre belga que adotou a pequena Japaratuba e lutou com garra em nome do auxílio aos mais necessitados. Na praça ou na igreja onde o corpo do padre Gerard foi sepultado, quase ninguém conseguia impedir que as lágrimas rolassem durante o sermão do bispo de Propriá, Dom Mário Rino ou dos discursos do governador em exercício Jackson Barreto (PMDB), do vice-prefeito de Japaratuba, Hélio Sobral (PMDB), do presidente da Câmara de Vereadores, Luciano Acioli e da deputada Conceição Vieira (PT), que já disputou uma eleição na chapa do padre.

Dor

“Eu gostava de Padre Geraldo não pelo político que ele era, mas pelo coração gigante que ele tinha para defender a gente. Eu só tenho gratidão com esse homem. Nasci no Povoado Patioba e desde pequeno aprendi a respeitar Padre Geraldo. Ele ajudou meu pai a criar a gente. Eu cresci, formei família e hoje estou aposentado com a ajuda dele. É por isso que estou de luto. Desculpe moça, mas eu não estou conseguindo falar mais. A minha vontade é só de chorar muito porque a pessoa dessa terra que eu mais devo, é padre Geraldo por tudo que ele fez não só para a minha família, mas por esse povo sofrido do Vale do Japaratuba”, desabafa aos prantos o Sr. Iracildo Laurindo dos Santos, o Tota.

Dom Mário Rino fez a pregação

“A cidade parou porque esse homem fez demais por esse povo. Padre Geraldo representa muita coisa boa. Lutou com toda a garra até os últimos dias de sua vida por nós. Ele foi um herói, mas acima de tudo foi um pai para todo o povo de Japaratuba. Nós até sabemos que ele está com Deus, mas não tem como não parar de chorar. A saudade vai ser grande”, destaca a dona de casa Eliane dos Santos.

“Minha filha, Japaratuba nunca vai ser a mesma. Ontem (3), quando ficamos sabendo que Padre Geraldo tinha morrido, a cidade chorou de uma vez só. As palhas dos coqueiros pararam. O céu ficou escuro, choveu. Só se ouvia as lamentações pela cidade. Todo mundo chorando. Até as crianças choravam demais. A dor que a gente tá sentindo é muito grande”, acrescenta Maria Justina.

Testamento

Hélio Sobral, Jackson Barreto e Conceição Vieira

Na pregração, Dom Mário Rino ressaltou que o padre Geraldo deixou um testamento. “Não foi um testamento de bens materiais porque ele morreu pobre como nasceu, mas de bondade, de dignidade. Vai se apresentar diante de Deus com as mãos limpas, cheias de obras boas. Ele soube exercer o exemplo da diaconia, que é o de servir à Deus, com uma grande virtude: a virtude da humildade. Serviu até o último momento sem olhar a saúde, poderia até ter prolongado a vida, mas escolheu servir. Homem muito discreto, nunca se ouviu dele uma palavra que desabonasse alguém. Diríamos, um homem de paz”, enfatiza.

Muito emocionado, o vice-prefeito Hélio Sobral afirmou: “Prefeito, o Senhor deixa nas minhas mãos, uma responsabilidade muito grande e eu farei tudo para continuar o trabalho a serviço do povo. Um forte abraço”, diz sem conseguir segurar as lágrimas.

Sem espaço no chão, a opção foi ficar nas janelas

Iracildo: "Tenho muita gratidão"

Eliane: "Ele não só foi um herói, mas um pai para o povo de Japaratuba"

Telão foi montado na porta

Sem-terras  se sentiram órfãos

O governador Jackson Barreto lembrou do amor ao povo e dos compromissos sociais. “Padre Gerard mostrou a possibilidade de libertar esse povo, dando não somente o peixe para matar a fome, mas dando um anzol para ensinar as pessoas a sobreviver e a formação da consciência e cidadania. Esse homem ensinou à cada um de nós o direito à vida social, principalmente aos trabalhadores Sem-Terra. Sua maior riqueza era ver o povo caminhar com dignidade”, entende.

Após um cortejo pela praça, o corpo foi sepultado dentro da igreja, aos´pés de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Ele morreu vítima de um câncer no pulmão.

Quase todos os secretários de Estado a exemplo de Silvio Santos, Saumíneo Nascimento, Oliveira Júnior, Benedito Figueredo, Chico Buchinho e Mardoqueu Bodano, participaram das despedidas. Os prefeitos Fábio Henrique, Heleno Silva, Padre Raimundo, o ex-prefeito Sukita também compareceram, além do ex- presidente da Câmara Municipal de Aracaju, Emmanuel Nascimento e dos deputados João Daniel e Ana Lúcia Vieira (PT).

Por Aldaci de Souza

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