Covid-19 pode provocar síndrome inflamatória grave em crianças

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A síndrome é mais comum em crianças de 6 a 12 anos de idade (Foto: Freepik)

Os pais e responsáveis de crianças e adolescentes devem ficar atentos para os sintomas que eles venham a apresentar, caso tenham contato com pessoas infectadas pela covid-19. É que a doença tem provocado uma síndrome rara e grave,  a Síndrome Inflamatória Multissistêmica, que acaba trazendo a necessidade de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em Sergipe, até o momento, seis casos foram confirmados.

Foi o que aconteceu com o pequeno Juan de 10 anos. Ele começou a apresentar sintomas que lembravam uma infecção intestinal, quatro semanas após ter contato com um familiar que estava infectado pela covid-19, mas na verdade, ele desenvolveu a Síndrome Inflamatória Multissistêmica.

A mãe de Juan, Juliadna Sebastião, conta que os sintomas apresentados foram febre persistente, vômito, diarreia constante, dor de cabeça, falta de apetite, tontura e fortes dores abdominais. “A princípio, achávamos que fosse uma infecção intestinal ou crise de apêndice, mas foi algo bem mais sério. Juan ficou 11 dias internado. O intestino ficou inflamado, o baço aumentou e a apêndice inflamou, mas não é só isso, tem crianças que estão tendo problemas cardíacos e pulmonares”, conta.

Juan testou negativo no teste rápido para covid-19, mas pelos sintomas os médicos acreditam ter sido um falso negativo. “Estamos aguardando o resultado do teste sorológico, mas os médicos nos relataram que crianças que deram entrada no hospital aqui e em outros locais tinham sintomas semelhantes e positivaram para a covid-19. Essa é uma síndrome que está atrelada ao covid-19 em crianças”, diz.

Síndrome

O Portal Infonet ouviu a médica pediatra, dra. Danielle Moises, especialista em terapia intensiva pediátrica, que explicou que a síndrome é uma resposta inflamatória exacerbada do organismo que pode surgir dias ou semanas após exposição ao vírus SARS-cov-2 (covid-19). Ela pode acometer crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, sendo mais frequente na faixa etária 6 a 12 anos.

A médica pediatra, Danielle Moises, alerta para a gravidade da síndrome e a necessidade do diagnostico precoce (Foto: Acervo pessoal)

“De maneira geral, a síndrome se caracteriza por febre por mais de três dias associada a dois ou mais sintomas como rash cutâneo; conjuntivite bilateral não purulenta;  sinais de inflamação mucocutânea; comprometimento hemodinâmico (choque, hipotensão,  taquicardia); comprometimento cardiovascular (miocardite,  pericardite; alterações coronarianas percebidas ao ecocardiograma ou marcadores cardiovasculares positivos como troponina e NT – pro BNP); e manifestações gastrointestinais como dor abdominal e diarreia. Estando todos esses sintomas associados a provas inflamatórias laboratoriais positivas como VHS, PCR, ferritina”, aponta.

Dra. Danielle lembra que esses sintomas são comuns a outros quadros de sepse bacteriana, que precisam ser descartadas. “Para fechar diagnóstico, devemos buscar exaustivamente evidência de exposição ao vírus SARS-cov-2, através da pesquisa laboratorial (Rt-PCR e sorologia) e investigação epidemiológica. No momento que estamos vivendo, o principal gatilho a ser investigado é o contágio pelo vírus SARS-cov-2. Mesmo as crianças que apresentaram quadros assintomáticos podem desenvolver a síndrome”, alerta.

No Brasil, de acordo com a pediatra, entre 2020 e 2021, foram registrados cerca de 736 casos. A Síndrome Inflamatória Multissistêmica é doença de notificação compulsória. A orientação da médica é que os profissionais que trabalham na assistência clínica de crianças fiquem atentos a essa síndrome. “Eles precisam ter alta suspeição da síndrome para que o diagnóstico seja precoce e tratamento clínico imediato, impactando significativamente na evolução e no prognóstico da doença”, orienta a pediatra que explica como funciona o tratamento.

“O tratamento consiste no uso de medicamentos como imunoglobulina e corticoide, e será determinado pela gravidade do caso. Suporte hemodinâmico e ventilatório são necessários e, por isso, a necessidade de monitorização dessas crianças em Unidades de Terapia Intensiva (UTI)”, pontua.

Orientação

A médica alerta aos pais e responsáveis para a necessidade de respeitar as medidas de proteção para evitar o contágio, e ao perceber sintomas persistentes nos filhos, que busquem o quanto antes atendimento médico.

“A síndrome é decorrente da resposta do organismo ao vírus. Então, é importante ressaltar as orientações das autoridades quanto à necessidade de respeitar as medidas de isolamento associadas ao uso da máscara e cuidados de higiene. Somente evitando o contato com o vírus, é possível proteger as crianças de apresentarem o quadro”, ressalta.

Juliadna conta que hoje Juan está bem, em casa, mas vai precisar ser acompanhado por um rematologista. “Foi um susto muito grande. Deus guardou muito meu filho, porque ele tem alergia respiratória e não afetou o pulmão. Poderia ter sofrido um AVC ou um infarto do miocárdio, essa síndrome é séria. Então, meu alerta como mãe é para que os pais mantenham o isolamento, respeitem as medidas sanitárias, e observem seus filhos caso alguém da família venha a ter o vírus”, finaliza.

SES

O Portal Infonet entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde (SES) para saber se há casos notificados da síndrome em Sergipe. De acordo com a SES, 10 casos da Síndrome Inflamatória Multissistêmica foram notificados entre 2020 e 2021. Destes, seis foram confirmados, um descartado e três estão em investigação.

Por Karla Pinheiro

*Matéria alterada às 11h47 do dia 13/04 para corrigir idade de Juan
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