Especialista explica impactos da pandemia na saúde mental das pessoas

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Confira as dicas do especialista (Foto: Freepik)

Os impactos econômicos e sociais da pandemia provocada pela covid-19 também tiveram consequências para a saúde mental da população. Especialistas apontam que os problemas de ordem emocional já vinham crescendo de maneira significativa, mas foram acentuados pela preocupação das pessoas com a situação financeira, medo de contrair covid-19 e a perda de pessoas próximas. O Portal Infonet conversou com o psicanalista e doutor em psicologia escolar e desenvolvimento humano, Ricardo Barreto, que destacou os fatores que tem afetado a saúde mental das pessoas, alertou para os sintomas e orientou sobre os cuidados. Confira!

Psicanalista Ricardo Azevedo Barreto (Foto: arquivo pessoal)

Portal Infonet – Quais fatores provocados pela pandemia têm impacto em nossa saúde mental?

Ricardo Barreto: São inúmeros os fatores de impacto. Existem variáveis individuais, sociais, do estágio da pandemia, entre outras, que acentuam mais determinados fatores a depender do caso. Lidar com tantas mortes e perdas numa escala mundial significa impactar profundamente a saúde mental individual e coletiva, cuja extensão do espectro de sérias consequências não conseguimos ainda calcular. A morte de uma ou várias pessoas em uma família por causa da covid-19 e a inexistência de rituais de despedida dignificantes produzem impacto intenso a longo-prazo à saúde mental. É uma vivência de desamparo e trauma. Os problemas de saúde, adoecimento e hospitalização, sobretudo quando é necessária a UTI, configuram muitas vezes grande instabilidade emocional ao binômio paciente-família. Aliás, as narrativas de medo do adoecimento e da morte são sinais de angústia significativa por parte de muitas pessoas, principalmente em alguns períodos bem críticos da pandemia. Os problemas econômico-financeiros têm adoecido muita gente por causa de falência, desemprego, entre outros agravos, assim como as transformações no trabalho são relevantes: alguns perderam suas funções ocupacionais e remunerações, enquanto outros se sentem cansados e sobrecarregados pelo excesso de trabalho.

Ainda são fatores de impacto os desencontros de informações, a mudança ampla dos estilos de vida individuais, familiares e sociais, com redução da liberdade, os conflitos políticos, as transformações nas atividades escolares de crianças e adolescentes com implicações para a vida dos pais, a violência no âmbito familiar, a hiperestimulação on-line, o uso constante e necessário de máscaras, num cenário de instabilidades na saúde coletiva, com efeitos para as interações humanas.

Infonet – Quais os sintomas ou doenças oriundos dos impactos desses fatores na saúde mental das pessoas?

Ricardo Barreto: Esses fatores impactam a saúde mental, podendo surgir expressões diversas de sofrimento; quadros de ansiedade, pânico, estresse e sintomatologia obsessivo-compulsiva; depressão; alterações na alimentação e no sono; fenômenos psicossomáticos e transtornos psíquicos os mais variados. No caso de doenças preexistentes, pode ficar mais complexo ainda. As vacinas nos trouxeram esperança e resultados, mas a situação pandêmica continua séria. Os cuidados preventivos são fundamentais!

Infonet – Quais desses fatores são mais graves quando se fala em impacto na saúde mental?

Ricardo Barreto: A meu ver, depende de cada caso, cada situação, cada contexto, inclusive, existem consequências pandêmicas que vão aparecer posteriormente. Não dá para calcular atualmente em sua amplitude maior os efeitos da covid-19. Ter que lidar com mortes na família, inumeráveis perdas, adoecimento grave com passagem em UTI, traumas, fatores econômico-financeiros sérios, como falência, perda de emprego, mudanças ocupacionais e dificuldade para sobreviver mostra alguns dos aspectos de profundo impacto da pandemia na saúde mental, física e social. Outro ponto: os profissionais na linha de frente quanto à pandemia da covid-19 são um grupo de atenção do campo da saúde mental em função dos estressores presentes em seu dia a dia.

Infonet – Esses impactos atingem todas as faixas etárias?

Ricardo Barreto: Todas as faixas etárias são impactadas. Nos bebês, há uma relação social bem diferente com os cuidadores. O uso necessário de máscaras, por exemplo, pode trazer mudanças ao desenvolvimento em sentido amplo, entre outros aspectos, ao sorriso social. As crianças e os adolescentes não têm a mesma possibilidade de canalizar seus impulsos, além das alterações nas atividades lúdicas, nas rotinas escolares e sociais. Os adultos precisaram reinventar seu estilo de vida, seu modo de trabalhar, entre vários outros aspectos. A realidade virtual passou a ter um lugar impactante. No caso dos idosos, a angústia de morte, que já é comumente bem presente, aumentou ou houve a negação dessa, além das marcas do distanciamento social, das adaptações necessárias, com efeitos para a saúde global e o envelhecimento.

Infonet – Qual é o papel das redes sociais nesse contexto? Elas ajudam ou atrapalham? De que forma?

Ricardo Barreto: Depende. No campo do negativo, as redes sociais podem trazer uma hiperestimulação de informações ou até conteúdos divergentes e as fake news. No que se refere ao positivo, as redes sociais podem oferecer ensinamentos, possibilitar a socialização e o alívio do sofrimento do momento, por exemplo, por meio de lives artísticas e de entretenimento.

Infonet – O que mostra que a saúde mental da pessoa não está tão legal?

Ricardo Barreto: Sofrimento psíquico acentuado e persistente, sinais de estresse, prejuízos no funcionamento emocional, mental ou comportamental em casa, no lidar com as atividades do trabalho ou em outros âmbitos, sintomatologia de quadros de ansiedade, depressão, alterações no apetite, no sono e/ou nos pensamentos, pessimismo, ideações ou tentativas de suicídio, euforia, fuga da realidade, comportamentos não usuais tanto verbais quanto não verbais sugestivos de transtornos psíquicos, adoecimento físico constante, entre muitos outros indicadores. Em caso de dúvida, é importante procurar um profissional da área da saúde mental. As pessoas e a sociedade devem cuidar da saúde, inclusive no que se refere à prevenção. Os casos de transtorno psíquico preexistente devem manter seu acompanhamento. Atualmente, tem se discutido muito a importância de prevenção ao suicídio. Os assuntos que se referem à saúde mental não devem ser um tabu, mas precisam ser dialogados.

Infonet – Como as pessoas podem se cuidar e proteger a sua saúde mental?

Ricardo Barreto: Acompanhamento de profissionais da área da saúde mental e emocional; Consultas regulares a médicos, alimentação e exercício físico bem orientados por profissionais especializados; Construção de um estilo de vida saudável; Experiências de prazer e realização; Atividades com significado ou sentido; Fortalecimento das pessoas para lidar com o estresse e as adversidades; Construção de suporte social; Atividades criativas e artísticas; Espiritualidade; Inúmeras outras possibilidades; Pedir ajuda sempre! Perceber quem precisa de ajuda é fundamental. Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, psicoterapeutas e outros profissionais da área da saúde mental podem ajudar. Lembrar que é de suma importância a prevenção no campo da saúde mental e quanto ao suicídio. A arte de cuidar muda o mundo.

 

Por Karla Pinheiro

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