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Antropofagia. Exemplo dos mais conhecidos para expressar a incivilidade indígena ou a sofisticação das suas crenças. (Gravura em metal de Theodor de Bry, 1592). |
Há quase uma década, tornou-se lugar comum compreender os indígenas como sujeitos históricos, detentores de passado e produtores do seu futuro. Paralelamente, fortaleceu-se a crítica de que os livros didáticos veiculam imagens desatualizadas em relação ao que se pesquisa nas ciências humanas e sociais em nível acadêmico. Alguns críticos afirmam que os livros representam indígenas como situados nos degraus iniciais da escada civilizatória.
Para saber até onde vai o exagero da crítica e conhecer melhor a natureza da escrita didática da história, investiguei dois manuais de história da América publicados no Brasil e na Argentina. Mas não centrei atenção nos didáticos contemporâneos. Fui ao início do século passado para saber como os autores de livros didáticos se apropriam da pesquisa avançada sobre a pré-história do homem americano. Investiguei o Compendio de historia da America (1900) do brasileiro Rocha Pombo (1857-1933) e o Compendio de la historia general de América (1910), do argentino Carlos Navarro y Lamarca (1868-1921).
O resultado pode surpreender aos críticos. Analisando os usos das teses evolucionistas da nascente antropologia norte-americana – a pesquisa reconhecida hoje como avançada no final do século XIX –, constatei que Rocha Pombo empregou as fontes sobre pré-história por meio de um vulgarizador francês, o Marques de Nadaillac (1883). Lamarca, ao contrário, referiu-se diretamente a Lewis Morgan (1877). Seu manual, em algumas passagens, servia como instrumento de erudição, informando, não apenas sobre a teoria em acordo, mas também sobre as novas ideias e as polêmicas entretidas na academia estadunidense.
Caso ainda mais surpreendente pode ser flagrado no país de origem das chamadas pesquisas de ponta. Para R. Nasch (2000), a investigação sobre os povos indígenas destituída dos pressupostos evolucionistas de Morgan, por exemplo – produzida no final do século XIX e início do século XX por autores como Robert Park, Franz Boas e Melville Herskovits –, demoraria três décadas até chegar aos livros didáticos para crianças e adolescentes.
Até às vésperas da II Guerra Mundial, foi o providencialismo e não a teoria evolucionista do progresso – como o fizeram Rocha Pombo e Lamarca no Brasil e na Argentina – que justificou soberanamente a extinção das populações indígenas e a dominação branca sobre o solo estadunidense.
Esses diferentes modos de acessar e empregar a última pesquisa acadêmica nos países consumidores e no país produtor de pesquisa de ponta reforçam a hipótese de que são diversas as motivações e formas de relacionamento entre a informação erudita e escrita didática. Consequentemente, somos convidados a repensar as generalizações que anunciam todos os livros didáticos como produtos sistematicamente atrasados, ontem e hoje.
Itamar Freitas é professor do Departamento de Educação e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe. Contato: www.itamarfo.blogspot.com. O artigo integra as colaborações à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq/UFS).
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