12 anos de escravidão. 15 dias de prisão.

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Ontem (dia 25) fui ao cinema assistir 12 anos de escravidão, bastante comentado em sites de crítica cinematográfica como um dos fortes candidatos ao Oscar de melhor filme. De fato, do início ao fim, o filme mexe com as emoções mais íntimas de quem o assiste, especialmente nos fortes momentos de açoite dos negros e das negras escravizadas, marcados por diálogos que escancaram a crueldade dos que acreditavam (e dos que ainda hoje acreditam) que há justificativa para um sistema em que a ordem é a propriedade de um ser humano sobre outro. Muitos aspectos técnicos do filme podem (e acredito que serão) comentados até o dia de entrega do Oscar. Deixarei isso para os especialistas.

Quero aqui, de forma breve, fazer uma relação entre o filme do diretor negro Steve McQueen, que retrata uma história do século XIX nos Estados Unidos pré-guerra civil, e a realidade brasileira do século XXI. Faço isso principalmente porque, no mesmo dia em que assisti 12 anos de escravidão, recebi a notícia de que um ator negro (Vinícius Romão) com atuação em produções televisivas nacionais havia sido preso “por engano”. Vinícius foi acusado de roubo, por uma mulher que havia sido assaltada no Rio de Janeiro e, apenas com base no depoimento dela, permaneceu preso por 15 dias na Casa de Detenção Patrícia Acioli, em São Gonçalo.

Aqui estabeleço uma relação com 12 anos de escravidão. O filme narra a história real de Solomon Northup, negro “desescravizado” (livre aqui não cabe, afinal por mais que tentem nunca conseguem prender um negro. Somos todos livres por essência e por resistência), violinista destacado na sociedade de Nova York que, após uma noite regada a bebidas em Washington, foi sequestrado e preso como escravo, sendo assim mantido por 12 anos, “por engano”.

Não foram poucas as vezes, nessa mais de uma década com sua liberdade roubada, em que Northup tentou dizer que o haviam confundido. Mas, por ser negro, nunca foi ouvido. O argumento era: negro é negro! Todo negro é escravo até que se prove o contrário!

Não devem ter sido poucas também as tentativas de Vinícius Romão, nesses 15 dias, em argumentar que o haviam confundido. Por ser negro, também não foi ouvido. Os argumentos são: negro é tudo igual! Todo negro se parece! Todo negro é criminoso até que se prove o contrário!

Alguém duvida disso? Para os incrédulos, basta atentarmos para o que disse o delegado Niandro Lima, do 25º DP: esse tipo de situação é “natural”, pois o assalto “pode ter sido violento e ela [a mulher assaltada] ter se confundido”.

Não há outro nome para isso a não ser criminalização da população negra! Como por essas terras ser negro é sinônimo de criminoso, pegaram o primeiro negro de cabelo ‘black power’ que encontraram pela rua e disseram algo do tipo “ei rapaz, a rua não te pertence. Liberdade não é algo para você. Está preso”. Vinícius estava voltando para casa após o trabalho de vendedor (função que desempenha para complementar a renda) em um shopping na região próxima ao local em que aconteceu o assalto, foi “reconhecido” pela mulher que sofreu o assalto e, por isso, foi preso.

E não há dúvidas de que o pegaram apenas por ser negro. Ou alguém acredita que um Reinaldo Gianecchini, ou um Rodrigo Hilbert, ou um Caio Castro (também atores como Vinícius Romão) poderiam, algum dia, ser presos “por engano”? Não, branco não é tudo igual. Preto é que é. Afinal, como nos ensinam nas escolas desde as séries iniciais, a África – de onde viemos – é um lugar só, com um só povo, uma só língua, uma só cultura.

A história da prisão “por engano” de Vinícius Romão é apenas um caso que revela a proximidade entre o Brasil do século XXI e a história retratada em 12 anos de escravidão. Quantos “Vinícius”, “Josés”, “Antônios”, “Paulos”, “Pedros”, “Marios” – que não são atores de novela e não geram comoção dos brasileiros e brasileiras – não são presos “por engano” todos os dias apenas por serem negros? Quantos desses, “por engano”, não passam anos, décadas, em depósitos de gente apenas por serem negros? Quantos desses, apenas por serem negros, são amarrados a postes e têm suas vidas destruídas pela ação de “justiceiros”? Quantos desses, apenas por serem negros e “por engano”, não são mortos todos os dias pelo Estado brasileiro?

Importante ressaltar que o filme é baseado em um livro homônimo escrito pelo próprio Northup em 1853, demonstrando a importância do registro e da memória do povo negro para o conhecimento da sua história. Não fosse o livro de Northup não haveria o filme e, dificilmente, o mundo saberia dessa história.

12 anos de escravidão chega ao Brasil aproximadamente 126 anos após a assinatura da Lei Áurea para nos mostrar, de forma contundente, como a história de Solomon Northup é real e bastante atual também em nosso país.

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