500 mil mortes e contando

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Prof.ª Dr.ª Andreza S. C. Maynard

Universidade Federal de Sergipe

Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

Atualização Oficial COVID-19 – Organização Mundial da Saúde. Fonte da imagem: https://covid19.who.int/region/amro/country/br. Acesso em 23/06/2021.

No dia 19/06/2021, o Brasil atingiu a marca de meio milhão de vidas perdidas para a covid-19. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país ocupa a 2ª posição no ranking mundial, ficando atrás apenas dos EUA, que registraram 597.037 mortes. Esses números chocam, assim como causam estranheza o Brasil ter ficado à frente da Índia, que registrou 390.660 mortes, e China, que registrou 5.421 mortes.

Desde que a pandemia teve início, a OMS recomendou um conjunto de protocolos para evitar o contágio e a propagação do vírus, como o uso de máscaras, álcool em gel e o isolamento social. Com a produção em tempo recorde de vacinas, e comprovada a sua eficácia, esses imunizantes passaram a ser recomendados pela referida Organização. Vários países começaram a vacinação em massa a partir de dezembro de 2020.

No Brasil, a primeira pessoa foi imunizada em São Paulo, em 17/01/2021. Mais de 5 meses decorridos do início da vacinação no país, apenas 30,43% da população recebeu a 1ª dose, de acordo com o consórcio de veículos da imprensa, a partir dos dados das secretarias estaduais de saúde.

A campanha de imunização vai melhor  na teoria que na prática. No dia 21/06/2021, o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou que toda a população adulta receberia a 1ª dose da vacina contra o novo coronavírus até setembro. Um dia depois, as secretarias municipais de saúde de Aracaju (SE), Campo Grande (MS), Florianópolis (SC), João Pessoa (PB), Salvador (BA) e São Paulo (SP) suspenderam a vacinação momentaneamente por falta de doses.

Durante a realização da CPI da pandemia, instaurada para apurar supostas omissões e irregularidades nas ações do governo federal, veio a público a informação de que a Pfizer ofereceu vacina ao Brasil com 50% de desconto, e que 53 e-mails enviados por esse fabricante foram ignorados. Concomitantemente, surgem denúncias de superfaturamento na compra de doses da Covaxin, vacina indiana.

O número de mortes continua a subir no Brasil, enquanto o presidente Jair Bolsonaro insiste na defesa de que a economia precisa ser reavivada, ao mesmo tempo que minimiza as consequências humanas da pandemia. Numa série de declarações informais e pronunciamentos oficiais, o chefe do executivo brasileiro desprezou as recomendações da OMS a respeito do uso de máscaras, isolamento social e satirizou a doença, chamada por ele de “gripezinha”.

Bolsonaro é conhecido não apenas no Brasil, mas também na imprensa internacional como um convicto negacionista. Ele questiona a eficácia das vacinas e, embora esteja apto para receber o imunizante, continua a se recusar, afirmando que está protegido do vírus por ter contraído a doença em 2020. O presidente destoa da comunidade internacional e segue na contramão de outros líderes mundiais que não apenas se vacinaram, como fizeram questão de divulgar suas fotos para incentivar a campanha de imunização em seus respectivos países.

Em dezembro, foi a vez do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e do então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Em janeiro, a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e o presidente da Argentina, Alberto Fernandes, foram imunizados. Na Itália, que tanto sofreu com a pandemia em 2020, o Papa Francisco apareceu, no dia 23/06/2021, com o rosto descoberto enquanto cumprimentava fiéis.

Nos países onde a vacinação avançou e a pandemia foi controlada, foi liberado o uso de máscaras em espaços abertos e autorizada a presença de público em shows e eventos esportivos. O Brasil permanece com uma média diária de 2 mil mortes, altas taxas de ocupação de leitos em hospitais e um plano nacional de imunização que avança em ritmo lento.

É ilógico pensar que os brasileiros continuam a morrer vítimas de uma doença para a qual já existem vacinas. E mais absurdo ainda é saber que milhares de mortes por covid-19 poderiam ter sido evitadas, de acordo com os especialistas. A conclusão a que se chega é de que não houve carência de informação, de recursos financeiros, ou de oferta de vacinas. O que faltou? O que continua a faltar?

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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