A África contemporânea que todos querem esquecer!

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Janaina Cardoso de Mello

Profa. Dra. Adjunta, do DHI e do ProfHistória

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 

A África não é um país e sim um continente com 54 países. O Egito é um país africano. A África não é só a História da Escravidão, domínio branco, colonizador ou imperialista (séculos XVI-XIX). A África contemporânea não está apenas nas religiões afro-brasileiras (candomblé ou umbanda) ou na cultura (capoeira, samba, turbantes, folguedos como Taieiras, Cacumbi, Chegança, etc.).

Há uma gota de sangue negro em cada brasileiro. A melanina, o cabelo crespo, o nariz e os lábios proeminentes são fatores físicos identitários. Mas quem conhece suas origens de fato? Os estudos históricos mostram que povos bantos, congoleses, angolanos, guinés, entre outros, compõem nossa ancestralidade e, ainda assim, não sabemos quem somos e de onde viemos.

Em 2018 a NETFLIX, em coprodução com a BBC Two, lançou a série “Black Earth Rising”, escrita e dirigida por Hugo Blick. Com 8 episódios de 60 minutos, tendo no elenco o veterano John Goodman e a excelente atriz negra Michaela Coel, investigam-se as conspirações nos julgamentos do genocídio de Ruanda em 1994. Filmes anteriores como “Hotel Ruanda” (2004) e “Aperte as mãos do diabo” (2007) apresentaram a história do massacre.

Entre ficção e realidade, abordam-se as 800 mil mortes de tutsis em cem dias por extremistas hutu. Os assassinatos iniciaram após a derrubada do avião com os presidentes de Ruanda, Juvenal Habyarimana, e do Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos hutus. Usando facões vizinhos mataram vizinhos e familiares; exército e milicianos bloquearam estradas e invadiram casas, eliminando tutsis. O ódio foi incitado em rádios e jornais. Centenas de mortos em campos de futebol e igrejas, como a de Nyamata. Estados Unidos, França, Bélgica e a Organização das Nações Unidas (ONU) pouco fizeram para deter a violência.

Exilados tutsis formaram a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), retomando a capital Kigali e encerrando o massacre, mas posteriormente são acusados de retaliar os hutus. Muitos hutus, civis e militares, fugiram para o Zaire, hoje República Democrática do Congo. A cólera dizimou milhares de refugiados.

Quase nada dessa tragédia humanitária chega nas aulas de História, por falta de tempo ou interesse. Mesmo com a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da cultura e da história da África no currículo das escolas brasileiras, limitam-se à escravidão e não veem a África contemporânea.

A África sofreu a interferência da Europa e América, explorada nas terras, minérios e trabalho compulsório da população forçada a imigrar para outros continentes. Séculos de escravidão e a abolição sem terras, educação, indenizações e empregos lançaram muitos afro-brasileiros na marginalidade. As cotas nas universidades e concursos têm buscado reparar injustiças históricas, mas ainda enfrentam resistência de quem jamais foi excluído de direitos pela cor da pele. Estudar a História da África e sensibilizar-se nos desafios do povo negro requer eliminar o preconceito racial cotidiano.

 

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