A fé que move Assembleias

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Uma pesquisa do jornal O Estado de São Paulo divulgada este mês comprovou que a participação de segmentos evangélicos na política nacional tem crescido nos últimos anos e não se resume apenas à atuação em nível federal. Nas Assembleias Legislativas de todos os estados há parlamentares cuja fé é relevante na sua vida política.

Em alguns estados, como São Paulo, Pernambuco e Paraná a atuação se dá por meio de bancadas evangélicas oficiais, assim como no Congresso Nacional, que agem como um bloco orgânico e ideologicamente bem definido.

Em outros, por mais que não haja uma bancada constituída oficialmente, a porcentagem de evangélicos nas Assembleias é igual ou próxima à proporção de evangélicos da população local. São exemplares o Acre (33% de parlamentares estaduais são evangélicos, mesma fatia de evangélicos do estado) e o Amapá (25% de deputados, sendo 28% da população evangélica).

Nos estados mais populosos do país a militância evangélica nas Assembleias Legislativas também é destacada. Dentre os deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, 21% são evangélicos, próximos dos 29% de evangélicos na população. Já em São Paulo 11% de deputados evangélicos militantes para 24% de pessoas que se declararam evangélicas no último Censo do IBGE.

Esses números dão a dimensão do trabalho organizado e sistemático que correntes evangélicas estão promovendo para atuar e interferir diretamente na política local e nacional, afinal estão contabilizados na pesquisa apenas os parlamentares que, explicitamente, utilizaram a sua fé na busca por votos. São pastores, bispos, irmãs e missionárias que, em muitos momentos, colocam a bíblia e as suas crenças religiosas acima da Constituição Federal e dos preceitos democráticos.

Não há ainda uma pesquisa que revele a quantidade de evangélicos nas Câmaras de Vereadores, mas em âmbito municipal a ação articulada desses grupos já conseguiu aprovar leis como a obrigação do uso de calcinha pelas mulheres em casamentos (Vila Velha/ES); a obrigação da execução da oração Pai Nosso em escolas públicas (Ilhéus/BA); e a leitura de trechos da bíblia antes das sessões legislativas na Câmara Municipal de Passo Fundo/RS (alguma semelhança com a Câmara de Aracaju e suas “mensagens bíblicas”?).

Em nível federal, dois importantes projetos que tramitam no Congresso, por exemplo, são de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO) que, não por coincidência, é o presidente da Frente Parlamentar Evangélica. Um é o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, que prevê a suspensão de resoluções do Conselho Federal de Psicologia e estabelece que os psicólogos tratem a homossexualidade como doença e, assim, atuem no sentido de “curar” os gays e lésbicas. O outro projeto encabeçado pelo parlamentar goiano é a PEC 99, a qual já foi objeto de outro artigo nesta coluna.

Outros assuntos como atuação das missões evangélicas em áreas indígenas, inserção religiosa na mídia, direitos humanos, aborto e reforma política também têm mobilizado evangélicos e estiveram na pauta de discussões do último encontro da Associação dos Parlamentares Evangélicos do Brasil (APEB). Temas centrais que não devem ser tratados pelos agentes políticos a partir de convicções religiosas, mas por meio do debate democrático e do ponto de vista dos direitos dos cidadãos, independente da fé que professam ou ainda se professam alguma crença.

Espalhando igreja por todo canto, usando programas de rádio e/ou televisão e prometendo prosperidade aos fiéis, esses grupos vão conquistando votos, ampliando suas bancadas, alcançando suas metas na política brasileira e, de forma organizada, violando a separação fundamental entre Igreja e Estado e, assim, pondo em risco a democracia brasileira.

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