A gripe espanhola de 1918 e o que nós podemos aprender com ela 

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Katty Cristina Lima Sá

Mestranda em História Comparada pela UFRJ

Bolsista Capes

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS)

e-mail: katty@getempo.org

 

No ano de 1918, próximo ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a enfermidade até então conhecida por “febre das trincheiras” saiu dos fronts e se espalhou pelo mundo. Esta nova gripe foi rebatizada de “espanhola”, mas não era originária da Península Ibérica, e sim dos campos militares norte-americanos. Tal nomenclatura é explicada pela transparência da Espanha na divulgação dos fatos sobre o contágio em seu território, o que se contrapôs a nações como Grã-Bretanha, em que a Royal Academy of Medicine procurou ocultar a gravidade e amplitude da doença.

No Brasil, as primeiras informações sobre a gripe espanhola foram notificadas pela imprensa em agosto de 1918, porém com tom de descaso. Ora, tratava-se apenas de uma gripe comum, uma “limpa-velhos”. Fora isso, no contexto de conflito bélico mundial, as teorias da conspiração logo foram difundidas, especialmente a seguinte: uma nova “bactéria” havia sido desenvolvida pela Alemanha como estratégia para alcançar vitória na Grande Guerra. Atualmente, sabemos que as influenzas são provocadas por vírus que, eventualmente, evoluem de forma natural.

A descrença inicial da imprensa e a postura do governo brasileiro, tida como relapsa, não impediram a disseminação da gripe espanhola em nosso país. Na então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro, o primeiro caso foi registrado em setembro de 1918, após 23 dias o número de doentes havia atingido os 930. Em relação a São Paulo, estimou-se que 2/3 da população tenha sido contaminada. Apesar da taxa de mortalidade marcar cerca de 1%, as ruas dessas cidades foram esvaziadas de pessoas vivas e repletas de cadáveres empilhados, muitos deles enterrados em valas comuns. Os caixões estavam em falta. A doença, que parecia acometer apenas os mais idosos, também demonstrou seu poder perante a faixa etária considerada menos vulnerável, a dos 20 aos 40 anos.

A escassez de alimentos tornou-se notável, bem como os saques, as notificações de suicídios e os transtornos mentais, denominados de “loucuras coletivas” ou “epidemias mentais”. O quadro agravou-se ainda mais devido à crise econômica, a alta do desemprego e a inexistência no Brasil de um sistema de saúde público, universal e gratuito que oferecesse assistência às classes mais baixas. Ademais, ainda que tenha vitimado muitos da classe operária, tal pandemia se mostrou democrática ao ponto de custar a vida do ex-presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1918), que faleceu prestes a assumir seu segundo mandato.

O quadro retratado remete ao caos e nos faz refletir acerca do futuro em meio a atual pandemia de COVID-19. Contudo, os casos de solidariedade do passado também merecem ser ressaltados: na cidade de São Paulo, por exemplo, houve intensas campanhas para a arrecadação de roupas e mantimentos destinados aos mais pobres, e entidades filantrópicas trabalharam no auxilio àqueles que não tinham socorro médico. Para nós, em 2020, cabe seguir parte dos conselhos publicados no jornal O Estado de São Paulo há um século: evite aglomerações, não faça visitas, cuidem da higiene – nossos antepassados atentaram para nariz e garganta, mas nós ficaremos com as mãos – tenha um trato ainda mais reforçado para com os idosos. E não podemos esquecer-nos que, se possível, fique em casa e pense naqueles que não possuem esse mesmo privilégio.

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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