À guisa do 31 de março de 1964.

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Tomo emprestado do escritor Olavo de Carvalho a ofensa lançada aos militares a quem chamou de “cagões”.

 

Que é um cagão?

 

É alguma pessoa covarde, um cagalhão, ou alguém que costumeiramente se alimenta mal, e é vingado pelas tripas em diarreias mal contidas?

 

Não creio que tenha sido por via de inspiração retal, a lembrança de Carvalho na constatação acontecida nos últimos trinta anos de desapreço ao movimento militar revolucionário de 31 de março de 1964, agora sendo lembrado 55 anos passados.

 

Constata o Filósofo, sem papas labiais, que nunca tantos recentes cagarrões sujaram tanto a nossa história pátria!

 

–  “Teria sido um golpe?” – Questiona um deles depreciador indeciso.

 

–  “Foi uma revolução?” – Inquire outro, mais indeciso por titubeante.

 

–  “Teria sido um contragolpe, um arroto de porre, uma bufa mal solta, ou uma ópera bufa em flatulência de 1º de Abril em traques de festim? – Blefa aqueloutro por melhor chacota, sem graça, mas por gracejo.

 

E nesse baculeio sem rodeio, não teria sido o General Olímpio Mourão Filho o herói louco que restou mais esquecido e pouco reconhecido?

 

O General Olímpio Mourão, ele que se achava um “vaca fardada”, enquanto General, não tivera melhor estirpe, botando a tropa na rua para fazer deflagrar  a “revolução” ou o “golpe” de Juiz de Fora, em Minas Gerais, rumo ao levante, ao Rio de Janeiro, num desfile vitorioso e valeroso, sem oposição e resistência, com tantos cagalhões sitiados no Ministério da Guerra de então, paralisados à sombra de Caxias, a amparar-lhes um receio incontido em vera e antraz indecisão?

 

Ah Caxias, quantos no seu nome se inspiram e quantos fogem da luta quando o caldo engrossa e a vista embaça no discurso que dilacera e macera por melhor argumento da farsa de ocasião!

 

Porque aqui estou eu a lembrar também nestes cinquenta e cinco anos de descréditos os idos dos anos sessenta, quando por melhor farsa daquela ocasião, o escritor Júlio José Chiavenato, em “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai”, só no afã de demonizar o nosso Exército, por origem e formação, denunciava nosso Bravo Duque Caxias de utilizar-se de cadáveres infectados de cólera, para  em contracorrente enviá-los rio, ladeira acima, para contaminar as parcas forças guaranis.

 

Para muitos historiadores iguais, Caxias não seria, nem tanto, nem tão pouco o ideal “Pacificador” da nossa pátria, tão carente e órfã de heróis.

 

Seria o nosso Duque único um reles mistificador, alguém que inverteria ao seu talante o curso das águas platinas, de modo a infectar o inimigo, num feito bem maior que aquele de Moisés que conseguira atravessar a pé enxuto o Mar Vermelho?

 

Ninguém perguntou, contestou ou mesmo raciocinou enquanto impossibilidade e plausibilidade, se um rio poderia correr ao contrário.

 

Para que se no mesmo cagaço, e em outros textos cagaçais, aviltava-se igualmente ladeira abaixo, toda nossa história republicana com os Marechais ditadores acusados de apunhalar um Império constitucionalmente erigido, numa sucessão indisciplinada de rebeliões e quarteladas, muitas tratativas de sedição e usurpação, variegada coonestação de golpistas e ditadores, sem falar dos feitos guerreiros externos, cantados em ralas loas, nunca de todo comprovadas?

 

Não era este o único cenário decantado nos últimos cinquenta e cinco anos, quando nunca “tantos sofreram tanto e tão pouco restaram anistiados, locupletando-se nas burras do público e indefeso erário”?

 

Porque jamais se denunciou tanto estupro, tanta violência, tanta mutilação, sodomia e violação perpetrados por nossos militares, o Estado Brasileiro exibindo-se em falo impreciso, grande, enorme em tara coletiva, nos batalhões e casernas disseminado.

 

E, na ausência de uma estatística dissolvente, preferiu-se acreditar que a circunscrição geral, a brigada toda, e os batalhões, por ordem unida talvez, estupravam, mutilavam e assassinavam, no cacete, no pau-de-arara, no choque elétrico, milhares de milhões, tudo o que não pensaram nem nazistas, nem comunistas, nem mesmo pol-potistas cambojanos ou ruandeses hútus, sem gritos ou sussurros de cadeiras elétricas ou câmaras de gás.

 

Insepultos continuam sendo denunciados, às centenas de milhões, à espera de autópsia em tantas maldades pronunciadas, que nem conseguem exaurir e enfastiar o noticiário de mesma nota, em tamanha perversidade jamais vista em ubre pátria.

 

E todos acreditaram, os militares por primeiro, que assim ficaram sem heróis a se inspirar, repetindo indefesos, compelidos e contidos, num mesmo grito embrutecido: “Ditadura nunca mais!”.

 

Quando agora o Presidente Bolsonaro, “um louco inconsequente”, destoa deste cantar marcial mal ecoado, e ousa trinar errado do acovardado, a grande imprensa o acusa em grande desatino; “um desafino que não poderia existir mais aqui, nem como arpejo ou pior solfejo, sob risco da aviltar a memória, enquanto “seclus unquam statuit”, ou algo mais nefasto por ímprobo crime”.

 

Eis aí o grande desafio da História que não pode apagar: Foi Golpe ou Revolução?

 

– “Ah, não foi Golpe! Apaguemo-lo da nossa História! Convoquemos um novo Arnold Schwarzenegger, alguém que não sendo um exterminador do futuro, um “XisVazdas Nêgas” qualquer, um vampiro que banque agora “o exterminador do passado”, porque talvez conseguindo matar-nos a todos, e a nossa descendência, possamos adquirir melhor paz nas nossas consciências”.

 

– “Ah! Revolução foi a Francesa!” – dizem muitos – “a Russa e a Mexicana! Alhures, com “fumus boni jures” matou-se um Rei, uma Rainha, um Czar com toda a família, um Imperador austríaco que bancava cacique asteca, ‘essa gente abjeta que sempre precisa ser morta para que o trem da história possa prosseguir’”!

 

– “Por aqui, contudo, o golpe foi pior!” – Gritam todos sem dissenso, inclusive a imprensa que elogiara muito a “Revolução” enquanto não chamava de “Golpe” : – “Agora não vale! Matou-se um jornalista! Atentou-se contra a liberdade de imprensa!”.

 

É o que passaram a repetir em destaque quase unissônico, quando ocorreu num DOI-CODI destrambelhado um “suicídio” mal explicado.

 

Suicídio que não fosse ele, a ditadura teria sido tão branda que remeteria saudades, afinal este jornalista virou cadáver símbolo da violência proverbial acontecida.

 

Rememorações saudosas ou lamentadas à parte, é comum dizer que um povo que desconhece a sua história corre o risco de repeti-la.

 

Afoiteza tornada pior quando esquece-se a memória, falseando-a.

 

Volta então a pergunta: Ditadura nunca mais?

 

Não sei. Os golpes sempre acontecem para lamentarmos depois.

 

Eu que vivi estes cinquenta e cinco anos, lastimo pouco o arbítrio acontecido, afinal nunca tive a minha mocidade tolhida nem retida nos descaminhos optados por muitos que ousaram tercer armas, e hoje, em arengas e pendengas, reclamam dos arranhões bem ou mal recebidos.

 

E eu que nunca ousei bancar guerrilheiro, embora simpatizasse com alguns em sua lida particular, decepcionei-me ao ver tantos “bons companheiros”, se degradarem em novo agir, desonesto e funesto, quando num desmascaro verdadeiro, revelaram-se só  delinquentes quadrilheiros.

 

Quadrilheiros muitos, afinal nunca vi tantos corifeus da “ditadura”, enquanto políticos de sucesso, jornalistas alugando pena, funcionários subservientes, no tempo em que os oficiais militares reinavam como ideal salvação da pátria, e eram bons e úteis para a garantia dos lautos empregos, das comissões polpudas e nomeações sem a devida concorrência e disputa mediante concurso de provas e títulos, hoje bem remunerados recebendo  lautos pensionatos.

 

Onde estavam todos estes que tanto se beneficiaram daquele regime autoritário?

 

Cabe, todavia, uma pergunta mais incomodativa: – “Para outros que exibiram tanto idealismo fingido, melhor está o Brasil agora quando vemos muitos flutuando ainda na mesma lama comum, em novos cagaços e cagalhões?”

 

Ao lembrar, no entanto, tantas opiniões exaradas em maioria, ouso divergir das terríveis patrulhas ideológicas, repelindo velhas lamentações entendendo não serem mais cabíveis, mas que continuam profundamente carpidas, úteis apenas para deturpar a História e erigir equívocos na obtenção das homenagens intermináveis, em tantas recompensas de discutíveis concessões.

 

Dizem que isso é história. Deixem-me dela divergir, pois tenho cá as minhas dúvidas.

 

Vejo-a como um  estória desbotada para melhor ser repetida e mistificada por historiadores e enganadores.

Um relato do hegemônico poder político assacando contra a verdade, semelhante àquele lembrado por Hannah Arendt quando constatou a ausência de Leon Trotsky nos livros de História da Rússia Soviética, por décadas.

 

É verdade! As possibilidades de que uma realidade factual possa sobreviver ao assédio do poder são muito escassas!

 

Ardilosamente sempre é possível eliminá-la, provisória ou permanentemente.

 

Que o diga em Sergipe, com a ampla retirada dos nomes dos Generais Presidentes dos logradouros públicos, repaginando a História, ao sabor do gosto e do mau gosto do gestor em despudor.

 

Independente da Cúria ou de incúria, sabe-se que a soma dos ângulos de um triângulo é igual à soma de dois ângulos de um quadrado.

 

Se, por má cúria do poder dominante, for conveniente desigualá-los, aviltando Euclides ou Thales em melhor geometria,  isso será feito utilizando-se todos os meios de convencimento.

 

Quanto mais à História, uma ciência que oscila silente ao sabor dos Historiadores e suas versões!

 

Enquanto o Historiador não se exibir um pouco eunuco à maneira de Gustav Droysen, evitando emprenhar a História, com ovos de répteis sorrateiros, corremos o risco de sabe-la filha obscura da inverdade.

 

 

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