A Igreja na Guerra

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Ailton Rodrigues Rocha Santos
Graduando em História pela UFS
Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET-História UFS)
E-mail: ailton.historia@outlook.com
Orientador: Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Sousa (DHI/GPCIR/UFS)

Diversas produções têm encontrado na temática da Segunda Guerra Mundial o seu principal objeto de estudo. Essas criações estão sendo geradas tanto nos âmbitos mais convencionais, nos quais se destacam a literatura e o cinema, como também se manifestam através de espaços relativamente novos, isto é, por meio da exibição de séries, por exemplo.

Mas, qual tem sido o foco destas produções? O que elas têm privilegiado? Sem dúvida, as abordagens tanto em relação às produções mais convencionais quanto as mais recentes têm se concentrado, predominantemente, nas características políticas e bélicas do período, relegando direta ou indiretamente outros fatores que fizeram parte do evento em questão. Um dos elementos que não é muito tratado quando se lida com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial é o religioso. Excetuando as análises que investigam a situação dos judeus no período, não dispomos de extensos materiais que tratem sobre a situação de outros segmentos religiosos participantes daquele momento.

Um dos segmentos, que até recebe uma relativa atenção dos estudiosos, mas não o suficiente para proporcionar ao público explicações satisfatórias e mostrar o quanto ele foi primordial, é o catolicismo, ou melhor, a Igreja Católica Romana. Da mesma maneira que acontece com a maioria dos assuntos relacionados à contemporaneidade, a análise da situação da referida Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, especificamente em relação ao Holocausto, é impregnada de parcialidades. Assim, temos de um lado os seus críticos e do outro os seus defensores.

Um exemplo que ilustra bem essa situação são os “julgamentos” e os “indultos” direcionados a Eugenio Pacelli (Papa Pio XII) por causa de seu desempenho em relação à ocorrência do Holocausto. Em artigo intitulado, “Os Silêncios do Vaticano: a propósito de Pio XII e a Alemanha nazi”, João Bénard da Costa aponta os argumentos que os “julgadores” e os “defendentes” de Pacelli utilizam para, respectivamente, acusarem e absolverem o sumo pontífice por causa de sua atitude, ou falta dela, perante o acontecimento do Holocausto.

As alegações dos defensores do Papa em relação a sua atitude perante a morte de milhares de judeus são basicamente de quatro ordens: a primeira rejeita a ideia de que houve omissão por parte de Eugenio, pois o pontífice não somente protestou contra as atrocidades cometidas pelo regime nazista em relação ao povo judaico como também salvou alguns deles por meio de mediações com estadistas e abrigando-os no próprio Vaticano.

A segunda ordem de argumentação até aceita a ideia de que houve uma relativa omissão por parte de Eugenio, entretanto enfatiza que se o Papa não agiu de forma mais enérgica contra o holocausto foi por causa de sua falta de conhecimento sobre o que ocorria do “lado de fora” do Vaticano, uma vez que a Santa Sé, durante o período da Guerra esteve “isolada”. Outras duas teorias a favor de Eugenio Pacelli são complementares, pois acreditam que se ele não agiu foi visando um “mal menor”, isto é, qualquer ação mais ativa do líder acabaria por colocar em risco não somente os judeus, mas também os católicos romanos, especialmente os católicos alemães, visto que a concordata assinada entre o Vaticano e o Governo alemão antes mesmo do início da Guerra não foi respeitada integralmente pelos nazistas.

Os críticos, por sua vez, rebatem essas explicações e ainda acrescentam outras contrárias a Pio. Deste modo, temos diversas contestações contra a Igreja e uma, em especial, configura-se como a mais ferrenha dentre elas. Tal acusação considera que o Papa não se opôs vigorosamente contra as atitudes desumanas de Hitler, porque se a sua preferência política era contrária ao Nazismo, mais avessa ainda era em relação ao seu maior inimigo, a saber, o Comunismo. Nesse sentido, o silêncio objetivava acabar, mesmo que indiretamente, com o “perigo vermelho”. Curiosamente, o mesmo pontífice acusado de ser avesso ao regime comunista e, com isso, ter sido conivente com Hitler, também foi acusado pelo periódico “O Corpo Negro”, órgão informativo ligado a SS, de ser simpatizante do referido regime.

Tendo em vista todas as contradições apontadas no decorrer do texto, o que essa análise procura não é explicar qual “lado” é o mais coerente ou “verdadeiro”. Pelo contrário, apenas considera-se nesta reflexão o quanto a situação da Igreja Católica no período da Segunda Guerra Mundial necessita ser estudada com mais afinco, e não somente em relação ao Holocausto, mas em sua plenitude, já que foi parte integrante do processo.

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