A inflexão conservadora

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O mundo desfrutou de extraordinária revolução dos costumes a partir do pós-guerra. Agora experimenta a inflexão da reação conservadora. O radicalismo cristão ocidental e islâmico afro-oriental quer ir à forra.

Pretextos para combatê-los são diversos, mas os inimigos no fundo ainda são os mesmos: os valores duramente construídos, e em constante evolução, como a democracia, a liberdade e a igualdade.

Assim como os combatentes muçulmanos odeiam a libertinagem cultural ocidental, os conservadores cristãos — pentecostais, neopentecostais e carismáticos à frente — julgam que há liberalidade demais.

Não se toleram as diferenças, seja nos modos das mulheres se expressarem intelectualmente ou ao se vestirem, seja na ascensão dos negros e pobres, para muitos ainda considerados sub-raças ou párias da sociedade.

A Europa e os Estados Unidos vivenciam essa inflexão na marcha do neofascismo, da xenofobia e do racismo. Mas nos países onde a construção da democracia é recente, como o Brasil, ao mesmo tempo que os avanços sociais são ansiados e até implantados, a reação conservadora se manifesta mais duramente.

É claro que a chegada ao poder de um presidente de viés socialista, sucedido por uma mulher ideologicamente alinhada, mexeu com os brios dos conservadores. Uma crise econômica alimentada por eles veio como um sopro de esperança na fogueira já morna dos que julgavam jamais estar apartados do poder.

O conservadorismo, como corrente de pensamento político, surgiu na Inglaterra para se contrapor à Revolução Francesa. No Brasil, aqueles que resistem a mudanças e são mais apegados às tradições também passaram a reagir a qualquer inovação comportamental, moral, social, política e até religiosa, muitas vezes confundidas como obras do governo.

Revolução, mesmo que de costumes, é tudo o que o conservador não quer. O conservador se julga ordeiro e o que foge ao seu controle é a desordem.

Mas o conservador não é necessariamente um déspota, porque, como disse Napoleão, muitas vezes o povo é mais conservador do que o político. E num momento de inflexão como este, “naturalmente” cresce o número de adeptos e o apoio das massas ao conservadorismo.

Complexidades e contradições da sociedade. Porque há e deve haver sempre espaço para os que buscam a justiça social e para os que trabalham pelas liberdades individuais. Para os que propugnam pela maior presença do Estado na vida do cidadão e para os que propõem o domínio da iniciativa privada na maioria das atividades. Para os que lutam pelo progresso e para os que desconfiam dele. Pelo menos teoricamente.

Por isso personalidades para muitos consideradas atrasadas, como Michel Temer, Jair Bolsonaro, Marcelo Crivella, Eduardo Cunha e João Alves Filho, encontram faixa própria onde trafegar na política. É da democracia. A velha e boa democracia um dia combatida por alguns deles mesmos.
Agora classificados pela imprensa como de centro, embora sejam mesmo de direita, os tucanos de maneira geral seriam mais liberais, embora engrossem a fila da mesma reação conservadora.

Avanços na legislação em direitos civis e temas como aborto, casamento gay e legalização das drogas ainda são vistas como bandeiras da esquerda, com a direita, mais conservadora, assumindo a defesa da família tradicional.

Mas há uma tendência de inflexão de setores médios da sociedade para o pensamento conservador. Algo amplamente, e até grosseiramente, manifestado nas redes sociais, que encontra explicação em intelectuais e formadores de opinião, como Luiz Felipe Pondé, Marco Antônio Villa, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Danilo Gentili e até Lobão — arautos da direita brasileira responsáveis, faça-se justiça a eles, pela popularização de um ideário conservador que ganhou espaço com o desgaste do PT.

Eles viraram estrelas, têm milhares de seguidores, vendem livros e, sem nenhum pudor, muito pelo contrário, entoam um discurso com críticas agressivas a petistas, feministas e "gayzistas", entre outros.

Fazem doutrinação contra Paulo Freire e Simone de Beauvoir, vejam só. Denunciam os “crimes cometidos pelos militantes de esquerda” durante o regime militar. E destilam ataques ao bolivarianismo, a Cuba e tudo que possa lembrar Marx, a esquerda ou o comunismo.

É claro que esse discurso reverbera nos salões que representam o todo da sociedade. Não por acaso o Congresso Nacional é o mais conservador do período pós-64. A conclusão sobre o retrocesso é do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).

Apesar das manifestações populares exigindo renovação política e avanço nos direitos sociais, a eleição de 2014 ampliou o número de parlamentares militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo. Do lado oposto, reduziu-se drasticamente a bancada dos deputados ligados a causas sociais e ao sindicalismo.

O crescimento da bancada BBB (boi, bala e Bíblia) fortaleceu figuras carimbadas como um Marco Feliciano, pastor e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (?), que combatem ferozmente o debate sobre gênero e identidade.

E permitiu dar superpoderes a um bandido como Eduardo Cunha, que foi presidente da Casa e autor do projeto de lei que complica a atenção à vítima de violência sexual, dificultando o acesso legal ao aborto em caso de estupro. A lei é de agosto de 2013 e foi sancionado pela presidente Dilma Rousseff.

Entre um corte e outro nas políticas sociais, governistas tentam pôr fim ao Estatuto do Desarmamento — que já sofreu mudanças, supressões e incorporações em pelo menos 20 artigos, parágrafos e incisos, a maioria, facilitando o acesso ao porte de armas — e liberar o comércio irrestritamente, retirando até impedimentos para que pessoas que respondam a inquérito policial ou a processo criminal possam comprar ou portar arma de fogo.

Liberar armas para todos, indistintamente, atenderá apenas ao desejo incivilizado dos que desejam vingança e querem fazer justiça com as próprias mãos. E os conservadores implantarão a política do salve-se quem puder.

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