A lei da reatividade

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Essa semana eu resolvi trazer várias queixas sobre pessoas que não reagem às intempéries da vida à minha terapeuta. Eis que ela pediu para que eu escrevesse um texto sobre o que é ser uma pessoa reativa. Ela sabe melhor do que muita gente, que minha habilidade para expressar sentimentos e emoções se dá através da escrita. Ao contrário do que muitos pensam, a escrita não é uma forma de fugir da fala, são linguagens diferentes cujo propósito é o mesmo: comunicar. As formas de linguagem e expressão são diversas. Há pessoas que se sentem mais à vontade em se expressar através das imagens, do olhar, da fala, da escrita, da arte produzida, dos gestos. Nenhuma forma de comunicação é limitante ou limitada, o que as limita somos nós, sempre nós, seres humanos que amamos padrões, moldes, caixas, e utilizar o verbo ter como definidor de tudo. Tem que ser assim!

Mas, afinal, o que é ser uma pessoa reativa? Bom, as reações também são interpretadas de diversas formas. Há quem classifique a sinceridade de acordo com o seu estado emocional no momento. Por exemplo, uma resposta assertiva pode ser interpretada como grosseira. Uma resposta honesta, como deselegante, e por aí vai. Na feira das vaidades e egos, há uma linha tênue entre como eu me expresso e como o outro entende, e por isso, essa linha é sempre frágil, fazendo com que a comunicação apresente diversos ruídos ao longo do caminho. Quando pensei sobre reatividade, inicialmente culpei o mundo ao meu redor, crescer com algumas dores e ausências, dificuldades financeiras, enfretamentos por ser mulher em um mundo machista, e por falar demais, mesmo sabendo que me expresso muito mais e melhor quando estou escrevendo.

Depois, refleti sobre o não se encaixar nesses padrões sociais em que você TEM QUE ser educada, polida, sincera, pero no mucho, amar a família acima de tudo, respeitar as hierarquias, baixar o tom, se comportar com finesse. Eu falhei e permaneço falhando em todos esses pontos. Passei tantos anos da minha vida tentando agradar tanta gente, que negligenciei a mim mesma. E quando sou mais assertiva ou me expresso com discordância é justamente para não cair no mesmo erro do passado, aceitar sempre sorrindo, e dormir sempre chorando. A comunicação é tão maravilhosa e diversa que nos permite dar sentido a tudo que recebemos do emissor, de maneira a interpretar suas formas de acordo com o que seja mais conveniente, o mesmo faz o emissor da mensagem. E isso é maravilhoso, pois nos apresenta a outras formas de pensar, de interpretar, de dialogar e de reagir.

Reagir é algo sublime, e é tão diverso como as formas de linguagem que apresentei inicialmente. Você pode reagir com o silêncio, com um sorriso, com uma árdua discussão, com argumentos com base científica, com gritos, com lágrimas, com versos. O que é certo? Eu não sei, ninguém sabe. Não existe uma régua padrão para medir como reagir, como comunicar, porque as pessoas são diversas, o comportamento humano é complexo, voraz e cada vez que tentamos reduzi-lo a uma caixinha da moral e bons costumes, cometemos o mesmo erro que julgamos no outro, o de querer empurrar goela abaixo algo que não cabe a todo mundo, e que muitas vezes, nem cabe a nós mesmos. Então, ser reativa é apenas ser. Todos nós reagimos enquanto seres vivos e pensantes, só depende de sua interpretação e maneira de análise cognitiva para compreender que existem formas muito diversas e precisas de esboçar uma reação, até mesmo a subserviência é uma delas.

No fim, cheguei à conclusão de que o diferente incomoda, e sempre irá incomodar porque tira qualquer um da sua zona de conforto, expõe fragilidades, vaidades daquilo que você não tem habilidade e astúcia para fazer, mas o outro, muito equilibrado, tem. O verbo ter, então, permanece guiando ainda das relações mais desprendidas às mais apegadas ao materialismo que as emoções afloram em nós. Se acrescentarmos o prefixo Subver ao verbo Ter, nossas fragilidades e reações adversas podem fazer mais sentido ao longo dessa trajetória confusa que é a de compreender a si, sem interferir na compreensão de si do outro. Viagens linguísticas à parte, toda essa inércia ou distopia que presenciamos do atual momento é também uma reação, a meu ver, fruto de uma sociedade complexa e que ainda não consegue lidar com a individualidade e a coletividade no mesmo tempo e espaço. Portanto, reajam!

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