A mão, a bengala, e a herma

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A mão e a bengala do imperador, e a herma desaparecida de Jackson de Figueiredo.

Recebo um comunicado via e-mail da Assessoria de Comunicacao Seinfra, <ascom@seinfra.se.gov.br>, dando conta que aquele órgão finalizou “o serviço de remodelação e restauro da estátua de D. Pedro II, localizada na Orla de Atalaia. Alvo da ação de ‘vândalos’, a estrutura de cobre teve a mão direita e a bengala arrancadas e agora recebe a implantação das peças. A escultura faz parte do Monumento aos Formadores de Nacionalidade, importante ponto de visita de sergipanos e turistas que chegam à capital”.

O que a Seinfra não disse, talvez porque caísse mal, é que o referido monumento, um dos mais visitados e fotografados, foi erigido pela mesma Seinfra, só que orientada, conduzida e idealizada em governos tidos como “carcomidos e ultrapassados”, cujas obras permanecem imbatíveis em termos de utilidade, modernidade e criação, mesmo se lhes tentando tirar a bengala, decepar a mão e camuflar a inspiração.

E os vândalos de ocasião, como os de sempre, agora tinham arrancado o anel, a bengala e a mão do velhinho imperador que estava sofrendo com a maresia, com a má azia dos estômagos e a aerofagia dos discursos vazios.

A Seinfra diz que para execução do serviço mandou trazer de Minas Gerais o escultor, Leo Santana, o mesmo que produziu as estátuas originais, sendo gastos 17 dias de trabalho em duas etapas; uma “para moldar e esculpir no cobre as partes ‘roubadas’”, e a segunda “para firmar as peças refeitas ao resto da escultura e revitalizá-la como um todo”, utilizando para tanto, “produtos importados”; um “ácido para retirar as manchas amareladas em volta da estátua, um sabão neutro para lavagem”, aquecimento do cobre e uma esfregação com “produto pastoso”.

Com tais pastas importadas, destaque-se também que o processo, pelo menos, objetivou restaurar a pintura e recuperar a cor original da peça.

Mas, pela notícia com fotos e retoques tão excitantes, bem se poderia pensar que mão e bengala reconstituídas teriam ficado bem melhores que no original, valendo o noticiário como espécie de penduricalho na mão do monarca dizendo que a Seinfra de hoje, só com uma mão e uma bengala, obrou maior e melhor que a de ontem em todo o monumento.

É verdade! O imperador mutilado estava pegando mal! Parecia coisa deliberada, proposital. Porque é complicado lustrar o feito de quem não nos agrada. E é, sobremodo, difícil promover a conservação do patrimônio público, uma constatação de insegurança mesmo, porque se até a bengala e a mão do imperador foram roubadas à luz do dia ou perante o luar em acalmia, que diremos das nossas mãos como simples mortais?

E aí eu me lembrei dos ‘vândalos’ agora citados no comunicado da Seinfra.

AH, Vândalos, quantos de vocês exibindo barbichas em desalinho, incineravam ônibus por protesto, pichavam paredes pregando o “fora tudo”, lideravam passeatas, inflamavam assembleias, e hoje, com unhas polidas e degustes de burguesia, creem-se construindo uma história maior só com a reposição de uma mão e uma bengala?

Só com uma mão e uma bengala? E eu tenho que ser notificado, com fotografia e tudo desse zelo inusitado?

Ora, missão de quem administra é fazer e realizar. Se não possuir criatividade e inteligência para construir e idealizar, pelo menos, conservar para preservar; sem alardes. Esta é a obrigação de quem por missão está a conduzir a coisa pública, sem se arvorar no tanto, nem no tão pouco.

E com este tão pouco: uma mão e uma bengala; eu me pergunto: Onde estarão outros monumentos menos visíveis que a mão imperial deposta e sua bengala de aposentação?

Onde estará, por exemplo, a cabecinha de Jackson de Figueiredo, que antes tomava um sol inclemente, sem chapéu e proteção, a todo poente no terminal hidroviário? Terminal que restou melhor testificação elucidativa da inexpressividade e absoluta des-criatividade de homens, usando o pensador jornalista numa outra inspiração?

Jackson de Figueiredo

Eis, portanto, Jackson de Figueiredo fazendo 120 anos de nascido (9/10/1891) tão esquecido neste 9 de outubro, que até a sua herma ninguém sabe nem mais viu. Um esquecimento tão longínquo, porque se antes ornava o centro de uma pracinha, dali fora arrancada, escantiada para um desvão apertado da calçada, monumento reerigidos praticamente ao res do chão, à mesma cota dos viventes, só para restar menos admirado, e virar depositório da urina de cães, e dos dejetos de homens desvalidos.

Da figura e da obra de Jackson de Figueiredo, José Silvério Fontes, em terras sergipanas foi quem melhor estudou e debateu sua ação como homem inquieto diante dos dramas do ser.

Agora, passados 120 anos de seu nascimento, um homem como Jackson de Figueiredo faz muita falta ao pensamento católico. O aggiornamento da Igreja, a sua abertura para o mundo, para as outras igrejas, cristãs e não cristãs, ensejou uma acomodação, um indiferentismo, uma excessiva aceitação de todas as crenças, liturgias e preceitos.

O próprio discurso da Igreja em Latino-América tomou um caráter revolucionário, em viés socialista, arrimando-se numa Teologia da Libertação, que em subestimo do sacro mudava o discurso, radicalizando-se em reação ao status quo, imaginando a economia de mercado e a propriedade privada como o inimigo a perseguir.

Ora, quem não comunga deste pensar viu-se afastado, fustigado mesmo, por este chicote raivoso do novo Cristo. Houve até uma comparação depreciativa de duas correntes: a dos progressistas e a dos reacionários; aquela, seguindo pensadores estranhos à própria Igreja e esta imaginada como inercial, resistente e modorrenta, embora mais inteligente e bem mais preparada para o debate no campo do pensamento e das ideias.

Mas, quando as ideias debatem em público, igualmente às prostitutas, na falta do convencimento e do valimento prevalece a ofensa, o xingamento explícito e o patrulhamento abafadiço, à surdina, por melhor covardia, afinal da calúnia algo sempre fica.

E o resultado de hoje é que um convite como o de Dom Sebastião Leme em 1916, convocando os católicos a se exemplificarem enquanto maioria do povo brasileiro teria pouco alcance, porque nesta crise ideológica atual, clero e leigos, diante de tanta pregação dissonante, perdidos se encontram sem saber por onde caminhar.

Assim, eis a cabeça de Jackson mais esquecida que a bengala do imperador destronado.

De Jackson de Figueiredo, o homem arrebatado que quebrara imagens de santos na adolescência, que liderara uma reação na Bahia contra o asilo concedido pela República Laica Brasileira aos Jesuítas expulsos de Portugal, que nunca fora um indiferente um acomodado. Este Jackson, poeta de Incenso e Ouro, pensador pascaliano diante da inquietação de seu tempo, pescador de homens, agitador de ideias, idealizador do Centro Dom Vital como bastião do pensamento católico renovador, tomando a Ordem como princípio a combater o indiferentismo liberal, é o mesmo sergipano destacado fora daqui, longe daqui e que aqui hoje ninguém sabe onde está o seu busto, homenagem de seus admiradores.

Os tempos são outros. Dizem-me. A Teologia da Libertação não percebeu que nestes tempos de muito estudo e capacitação para compreensão dos fenômenos e domínio da natureza, quem tem o conhecimento adquire o poder. Conquista-o sem usurpá-lo de ninguém. E neste particular, as Universidades Laicas pregam melhor que os Seminários, até porque a missão destes nunca lhe fora espoliada. Os Seminários é que se fizeram esvaziados na medida em que resolveram dissertar o que não entendia; as comezinhas relações entre os homens, esquecendo o seu diálogo com Deus.

Hoje, distante do tempo de Jackson de Figueiredo, o grande problema ainda continua. É o indiferentismo liberal entronizado com o relativismo do livre pensar, interpretar e esquecer até o Evangelho, o que não deveria acontecer nesta terra de Santa Cruz abençoada.

Mas, dizer assim é imaginar uma conversão forçada, desde Nóbrega e Anchieta e há até batinas de hoje que entendem caber um pedido de perdão aos nativos, porque as sotainas de outrora não se lhe deixaram virar repasto ao coco e dendê.

E assim até uma cabecinha de Jackson de Figueiredo pode sumir e desaparecer, virar até mesmo matéria de fundição vendida como sucata de ocasião.

E a notícia da bengala e da mão do imperador implantadas faz-me lembrar de tudo isso, afinal a notícia chega aos 120 anos do pensador católico tão esquecido.

Esquecido porque resolveram ornamentar como sua herma um terminal de lanchas. Uma espécie de piada de mau gosto, afinal Figueiredo foi um intelectual arrebatado, um agitador cavaleiro da ordem católica, jamais um canoeiro, um transportador de cestos, um condutor de coletivo. Era um homem fascinado pelo mar, é verdade, mas foi por ele traído, que o engoliu numa pescaria fatal, bem jovem ainda, aos trinta e oito anos de idade, num acidente terrível na Ponta do Joá, na Gávea, pedra que delimita as águas com a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

De Jackson de Figueiredo, seu maior estudioso, José Silvério Leite Fontes assim narra os últimos momentos.

“Uma das distrações mais queridas era a pesca aos domingos, na ponta do Joá, que separa o marulhar tranquilo da Gávea das águas revoltas e convulsas da Tijuca. A rocha escarvada pela fúria incessante das ondas treme sob o choque do Atlântico bravio. Daí se avista o oceano infindo e a plácida baia confundindo-se. De um lado, ao fundo, a linha recortada das montanhas, os blocos pétreos, esparsos na Guanabara; do outro lado, o horizonte cheio de segredos, mergulhando na crispação ondulante das vagas atlânticas.

Era ai, nessas pedras escorregadias que amava praticar o seu esporte… Certa vez, quase se ia despencando no abismo… Não havia de ser nada!…

No domingo, 4 de novembro, com seu filhinho Luís, de oito anos, e Rômulo de Castro partiu para uma pescaria sem igual. Após o almoço, o pequeno Luís, surpreendido pela aparência brutal e selvática do ambiente e percebendo naquilo algo de imenso e aterrador perguntou-lhe: ‘Papai, quem fez o mar e as plantas’? Pegou Jackson de Figueiredo uma tenra folha e deu sua última lição de apologética. Aquela folha era o homem frágil, circundado pelo mistério pujante da natureza, arrebatado pelos ventos do abismo.

Lançando mão do instrumento de pesca, arrumou-se numa pedra que beirava com o precipício. Repentinamente, um movimento em falso e escorregou pela encosta, mergulhando no torvelinho das águas. O filho quis jogar-se ao mar. Mas o seguraram. Era inútil. Não houve meios de socorrê-lo”

Sem cair em desespero, Jackson nadou até o completo cansaço, o mar sempre arrastando a cada aproximação com a pedra. Depois, houve o completo desaparecimento do corpo, após um último esforço e um gestual orante de despedida.
Prossegue Silvério Fontes:

A tragédia estava consumada. Mas, no seio da Eternidade, se transmutava em comédia. ‘A vida é um drama, com epílogo nas mãos de Deus’.

Cumpria-se o último desejo no seu romance inédito: ‘E abro os braços a ti, treva envolvente do mar, treva cheia de estrelas. Eu não penso que o futuro seja como o passado. Eu quero que se arroje do teu seio sobre mim um vento de tempestade, e me lance no abismo ou me faça ver a face da vida eterna, do amor mais forte do que a morte’.

Sete dias guardaram as águas o seu corpo, até que o recolhessem as praias de Maricá”.

E nós do lado de cá, do seu e nosso Sergipe, no ensejo da notícia de recomposição da mão e bengala do imperador destronado, estamos a perguntar, na passagem dos 120 anos de Jackson de Figueiredo: Onde estará a memória e o seu busto, fundido no bronze por seus amigos e admiradores?

Resgatem-no! Ponham-no num lugar destacado! Que não seja tão desprezado e humilhado. É o mínimo que podemos fazer por nossos vultos e nossa história.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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