A Marisa vende Prada

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Passeando pelos calçadões do centro de Aracaju, não pude deixar de notar a vitrine da Marisa. Todas as tendências firmadas para a próxima estação pareciam estar lá: calças em tons pastel, saias e vestidos com comprimento mullet – aquele mais compridos na parte de trás -, peças com estampas que remetem à dos lenços e tudo o mais. A primeira impressão foi relativamente positiva. Mesmo não nutrindo muita simpatia por uma ou outra aposta, sou razoável e admito que é interessante notar como uma rede brasileira tem apresentado, por preços convidativos, coleções tão sintonizadas com os desejos de moda global.

Marisa apresenta coleção atenada (foto: Paulo Otero / divulgação)

No entanto, já em casa e com acesso às fotos do resto da coleção, notei que mais uma vez a Prada parece ter sido inspiração direta para a equipe de criação da Marisa – pelo menos, no desenho de alguns modelos. Aconteceu mais ou menos como no ano passado, quando a Marisa, assim como praticamente todas as outras redes de fast-fashion, resolveram reproduzir, em maior ou menor grau, as listras coloridas e as estampas barrocas que a casa italiana colocou na passarela no final de 2010.

Admito que já fui menos tolerante em relação às peças chamadas “inspired” – essas que mais parecem uma cópia de outra, sabe? Hoje, continuo não levantando a bandeira da causa, mas até aceito que a Mulberry, por exemplo, não é a única grife que tem o direito de colocar nas vitrines a bolsa tipo carteiro. E, sejamos sinceros, o que Miuccia Prada coloca na passarela chama a atenção e desperta desejos, de forma que todo mundo, quase que inevitavelmente, faz ecoar o que ela cria. Pelo menos, tem sido assim nas últimas temporadas.

Há algum tempo, li uma declaração, no mínimo, interessante em relação a tudo isso. O comentário dizia que seria muito frustrante para uma grife perceber que ninguém copiou aquilo que ela colocou na passarela. E, parando para pensar, até que faz sentido. Imagine criar uma coleção que não repercute e que em vez de “viralizar”, gera apatia. Mas a brincadeira começa a ficar perigosa quando marcas já consolidadas no mercado de moda brasileira, por exemplo, lançam coleções nas quais boa parte das peças são “inspered”, cobrando uma fortuna por elas e assumindo o design como seu.

Essa discussão sobre originalidade na moda não é de hoje. Em 2007, a revista Piauí publicou a matéria “Copia+imita+plagia= roupa nova – A equação de alguns estilistas brasileiros para criar o que se vê na passarela”, gerando certa polêmica entre os entusiastas e profissionais do meio. Como o próprio título sugere, o texto, entre outras coisas, apresenta algumas “coincidências fashion” que acabam colocando peças com altíssimo grau de semelhança em passarelas separadas pelo oceano Atlântico e por pequenos espaços de tempos.

Vestido da Marisa com perfume da Prada (foto: Paulo Otero / divulgação)

Na matéria, a estilista Layana Thomaz fala de um tal de inconsciente coletivo da moda que acaba colocando todo mundo na mesma onda. Já Silvio Chadad, consultor de marketing moda, defende que, nesse ramo, a cópia, dificilmente é questão de casualidade.  Glória Kalil, declara que não existe mais cópia deslavada e arremata: "Como diz mesmo madame Rucki, do Studio Berçot [escola de estilismo parisiense], a última invenção da moda foi a minissaia. Então, é difícil inventar a roda.” Deve ser mesmo…

Acredito que no universo da moda, assim como em qualquer outro campo essencialmente criativo, as ideias não surgem do vazio. Buscar referências, fazer releituras e não romper esse intercâmbio entre o contemporâneo e o precedente é mais do que natural. O que não me convence são cópias sem nenhuma pitada de identidade. Para mim, não fica bem nem em fast-fashion nem em vitrine de grifes renomadas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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