A MORTE DE JOÃO DA FARINHA

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O amigo Ivaldo Gomes enviou umas matérias. Achei ótimas e dei umas ajeitadinhas. Aqui vai uma delas.

O padre Teófilo estava fazendo suas orações matinais, ajoelhado em frente ao altar da pequena igreja( matinal para ele era cinco horas da manhã) quando chegou Zé Bento, com aquele jeitão humilde, rodando com mãos nervosas o inseparável chapéu de palha. No canto da boca, o mais inseparável ainda cigarrinho de fumo de rolo, que não havia jeito de cair, por mais que ele abrisse a boca.

—- Bença, padre.

—- Deus o abençoe, meu filho. O que o traz aqui tão cedo ?

Zé Bento hesitou.

—- Bom…. o senhor se lembra de João da Farinha?

—- Claro, filho, uma alma muito boa – falou o padre, levantando-se com um suspiro do cansaço causado pelo reumatismo.

—- Era, padre. Ele morreu.

—- Não ???

—- Foi. Morreu mesmo, e bem agorinha.

—- Mas, como? Como o coitado morreu?

—- Bom…. o senhor sabe, né?, moro numa rua sem saída, uma viela, com uma ladeira bem inclinada e a minha casa é a última, com aquele sobradinho amarelo.

—- Sei, sei, mas e daí?

—- Daí, que ele, que mora adiante de mim, desceu com a fobica de ré e bateu violentamente no muro da minha casa. Acho que ela não agüentou o peso da ruma de sacos de farinha.

O padre colocou a mão no peito.

—- Não???

—- Foi. Não restou nada do muro.

O padre sentou-se em um banco.

—- Coitado do João, morrer assim de uma batida.

Zé Bento balançou a cabeça.

—- Não, não. Ele bateu a fobica, voou pela janela, quebrando a vidraça novinha, que eu tinha comprado pra pagar em 10 vezes, caiu dentro do meu quarto e bateu com a cabeça no guarda roupa, que eu tinha comprado no Natal passado, também pra pagar em 10 vezes. Só ficaram os pedaços de madeira.

—- Coitado, morrer assim de traumatismo craniano.

—- Não, não. Ele tentou se levantar, pegando no trinco da porta do quarto, mas o trinco se soltou e ele rolou pela escada. Foi uma queda muito feia.

—- Coitado, morrer assim de fraturas múltiplas.

—- Não, não. Depois de rolar pela escada, ele foi parar na cozinha e bateu na geladeira, que caiu por cima dele.

—- Não???

—- Foi. Uma geladeira daquelas bem grande, que chamam de duplex, que eu ainda faltava pagar quatro prestações. Ela ficou toda esbagaçada.

—- Coitado, morrer assim esmagado.

—- Não, não. Ele tentou se levantar e bateu de costas no fogão. Aí o caldeirão de sopa, que estava fervendo, virou por cima dele.

—- Não???

—- Foi. Um caldeirão daqueles bem enorme. O senhor sabe, né?, lá em casa todo mundo gosta de sopa no café da manhã.

—- E o caldeirão???

—- Ficou todo amassado.

—- Coitado, morrer assim desfigurado.

—- Não, não. No desespero, ele saiu tropeçando, gritando de dor, e bateu na caixa de força, que estava destampada.

—- Não??? É de dar dó.Uma pessoa tão boa como João morrer eletrocutada.

—- Não, não. Com o choque, ele pulou e trombou com a cristaleira e quebrou todos e copos e taças, que eu estava guardando para o aniversário de Florisvalda, a  minha filha mais nova. Foi vidro pra todos os lados.

—- Não???

—- Foi. Eu tinha acabado de comprar tudo lá na capital. E tive que vender dois bodes pra dar a entrada. O resto vou pagar em 24 vezes.

—- Coitado, morrer assim todo retalhado.

—- Não, não.Não foi assim.

—- Mas então como foi que ele morreu?

—- Só morreu depois que eu peguei a espingarda de dois canos e atirei nele.

O padre escancarou a boca e se benzeu.

—- Não??? Filho, você matou João?

—- Claro. O desgraçado estava destruindo a minha casa!

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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