A PRÓXIMA VÍTIMA

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Futebol, relacionamento, paquera, política e religião são, com certeza, os assuntos prediletos nas conversas coloquiais ou mesas de bar, somente variando a prioridade em função dos interesses específicos em discussão. A cidade em que moram os interlocutores é outro aperitivo a alimentar um bom papo, fazendo incluir nas conversas pitadas culturais, turísticas, ambientais ou paisagísticas. Pode-se, ainda, falar de problemas sociais e estruturais da cidade, a exemplo da violência urbana que já atinge de forma grave e crônica parte das capitais brasileiras.

 

Um dos assuntos que gosto de conversar, como assumido apaixonado, é sobre a cidade que escolhi para morar e fazer nascer os meus filhos. E não faço qualquer favor quando falo de Aracaju, pois a considero uma pequena sábia, aquela que sempre soube manter a harmonia entre o seu corpo cosmopolita e a sua alma provinciana. Escrevendo em outras palavras, uma cidade que conseguia manter a sua vocação desenvolvimentista sem perder a pureza do pacifismo e a segurança de seus filhos.

 

Dizia, nestas conversas, que era exatamente esta característica o que mais encantava o visitante da cidade, fazendo-o surpreendido com charme plural que se exibia diante do seu olhar. Primeiro, quando percebia a modernidade de seus edifícios, a conservação das praças, a limpeza das ruas, a eficiência do SAMU, a diversidade cultural, a beleza da orla, as opções de lazer e o balançar do rio-mar. Depois, quando descobria que o aracajuano, nascido ou adotado pela cidade, é assumidamente pacífico e curte a vida no compasso da tranqüilidade.

 

Em vários destes bate-papos ficava evidente que Aracaju, como em qualquer outra cidade, também produzia filhos da e para violência, mas, como lembrava sempre um interlocutor policial, tal constatação apenas confirmava a sua veia cosmopolita. A confirmação estaria, segundo ele, na lógica diretamente proporcional entre o crescimento e o aumento dos problemas sociais. Ainda mais – complementava eu provocativamente – quando localizada no pobre, explorado e mal-compreendido Nordeste, com seus escassos recursos financeiros e fatos políticos inescrupulosos.

 

Talvez seja esta compreensão provinciana-cosmopolita a principal razão que transmitia ao aracajuano a sensação de que vivia em um habitat calmo e seguro, mesmo quando os jornais noticiavam ser violência urbana uma antiga moradora da cidade. Era como se as notícias apenas atestassem que a violência estava dentro das estatísticas aceitáveis e, em conseqüência, distante e desconhecida da maioria absoluta dos cidadãos. Mais ainda, quando era compulsoriamente apresentada a alguém conhecido, especialmente se morador de um dos bairros de elite, era recebida como falta de sorte ou mera obra do acaso.

 

Foi, inclusive, esta a explicação mais repetida que escutei quando o “acaso” certo dia surgiu diante do meu olhar. A forçada apresentação se deu quando do recente Pré-Caju, ocasião em que alguns amigos foram assaltados assim que pisaram no solo sergipano. Na época, todos nós brincamos que a culpa era deles, pois trouxeram a violência urbana em suas bagagens paulistas, mesmo que argumentassem, como de fato argumentaram, que nunca foram assaltados em São Paulo.

 

Hoje, entretanto, o que era uma simples brincadeira ou uma argumentação teórica não mais resiste à verdade desnuda pela realidade. Não se pode mais esconder que o que Aracaju perdeu a aréola de tranqüilidade, passando a viver um assumido e não-querido clima de insegurança pública. Assaltos em ônibus, seqüestros relâmpagos, violações de residências, assassinatos e agressões físicas eclodem todos os dias e em todos os lugares, fazendo regra o que diziam ser mera exceção.

 

E a grave e crescente violência não atinge apenas a capital sergipana, pois se espalha como uma epidemia incontrolável pelas cidades do interior do Estado. Todos percebem, sentem, e conversam sobre o assunto, pois raros são aqueles que não se tornaram vitimas direta ou indireta da insegurança pública. Todos não, pois é impressionante a mudez da Secretaria de Segurança Pública na questão, que parece habitar, temerariamente, no fictício mundo das novelas, em que os cidadãos-telespectadores somente podem papear e dizer: quem será a próxima vítima?

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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