A quem interessa o desmonte da Universidade Federal?

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A narrativa que o governo tenta construir sobre a pouca eficiência das universidades federais não tem encontrado sustentação na realidade. Um mês atrás, em entrevista a Augusto Nunes, da rádio Jovem Pan, o presidente Jair Bolsonaro disse que há pouquíssima pesquisa e, quando ocorre, é em universidade privada, como Mackenzie, citando que aquela instituição paulista produz pesquisa com o grafeno. Errou duplamente.

Segundo o Ranking Universitário Folha 2018, a Universidade Presbiteriana Mackenzie aparece em 62° lugar no item Pesquisa, abaixo, inclusive, da Universidade Federal de Sergipe, que nesse item aparece no 42° lugar do ranking. A UFS tem nota 31,70 em Pesquisa, contra a nota 26,97 da Mackenzie.

A Unit, recentemente citada como exemplo pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, aparece em 88° lugar no ranking da pesquisa, com nota 21,33. A título de comparação, a Universidade de São Paulo (USP), primeira no ranking, tem nota 41,51 nesse item.

Ranking Instituição Ensino Pesquisa Mercado Inovação Internacional. Nota
USP 97,52
UFRJ 97,29
UFMG 96,38
UNICAMP 11º 11º 96,37
UFRGS 13º 12º 95,58
UFSC 26º 13º 92,30
UFPR 11º 13º 25º 92,29
UNESP 15º 26º 19º 92,01
UNB 14º 22º 25º 13º 91,02
10° UFPE 12º 17º 23º 90,34
33° MACKENZIE 36º 62º 37º 45º 74,78
38° UFS 75º 42º 36º 57º 51º 69,63
84° UNIT 133º 88º 45º 80º 46º 50,77

 

Há outro erro de informação cometido por Bolsonaro naquela entrevista: a pesquisa da Universidade Mackenzie é filha direta do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mais especificamente, a pesquisa é orientada pelo professor Marcos Pimenta, da universidade federal mineira, onde se concentram as maiores pesquisas sobre grafeno do país. Grafeno é uma forma do carbono mais revolucionária que o plástico e o silício.

O Ranking Universitário produzido pela Folha de S. Paulo é respeitado por todas as universidades. Avalia anualmente as 196 universidades do país com base em dados nacionais e internacionais e em duas pesquisas de opinião do Datafolha em cinco aspectos:

O Ensino é avaliado em quatro componentes: avaliação dos professores pelo MEC, percentual de doutores e mestres por instituição, regime de dedicação dos professores se integral ou parcial e nota média no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade).

A Pesquisa tem nove componentes: total de publicações de artigos científicos nos periódicos indexados na base Web of Science, número e relevância das citações das pesquisas produzidas pela instituição e por docentes, recursos recebidos pelas agências de fomento, produtividade dos docentes e número de teses produzidas.

Mercado é a avaliação de profissionais sobre preferência na contratação de formados nas universidades. Inovação diz respeito ao número de patentes pedidas e quantidade de estudos publicados em parceria com o setor produtivo. E Internacionalização tem relação com citações internacionais dos trabalhos produzidos pelos docentes e percentual de publicações em parceria com pesquisadores estrangeiros.

Pelo ranking mais recente, as 17 primeiras universidades são públicas, sendo que 13 delas são federais. Estão na frente principalmente por serem as melhores no ensino e na pesquisa. No geral, a UFS aparece na 38ª colocação e a Unit na 84ª. E a UFS supera a Unit em quatro dos cinco aspectos pesquisados, sendo que no ensino e na pesquisa está bem à frente. Aproximadamente, 90% dos alunos de mestrado e doutorado de Sergipe são da UFS.

Esses dados só podem ser contestados por uma pesquisa que seja cientificamente mais correta, não com opiniões de cunho meramente ideológico e muito menos por mentiras.

A verdade é que há um projeto de desmonte das universidades federais no Brasil arquitetado por Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho, seguido à risca pelo economista Abraham Weintraub, ministro da Educação, certamente com o objetivo de privatizar a educação superior.

Nesse sentido, o governo atua em duas frentes para quebrar o histórico protagonismo político das universidades públicas: criando uma narrativa para desqualificá-las e asfixiando-as com cortes nos orçamentos, como o recente bloqueio de 30% na verba das universidades e dos institutos federais.

“Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas. A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking”, anunciou o ministro, fazendo um discurso completamente vazio, contraditório e de má-fé.

Ninguém tem dúvida que esse governo não se importa com o papel social que as universidades federais desempenham. Na UFS, por exemplo, 70% dos seus 30 mil alunos hoje matriculados são oriundos de escolas públicas, sendo a maioria deles jovens pobres que têm ali uma oportunidade de crescer na vida. Quem vai se importar em dar educação para essas pessoas se a universidade federal for privatizada?

Quanto à balbúrdia, esse povo precisa aprender que universidade é lugar do contraditório. E é nesse ambiente de contradições, de discursos contrários e ações divergentes que a humanidade das pessoas cresce.

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