A REVOLUÇÃO DOS BICHOS E DOS HOMENS

Acabo de reler o velho clássico “A Revolução dos Bichos”, em que o fenomenal escritor George Orwel faz um verdadeiro libelo acusatório contra  autoritarismo presente na velha estrutura da União Soviética. Não resisti ao apelo convidativo que fez o desenhista brasileiro Ruy Trindade, ao fazer a adaptação do intrigante livro, transformando-o em uma fiel e bem contada história de quadrinhos.  Confesso que também me entusiasmou a curiosidade de saber se seria igualmente atraente a proposta dos quadrinhos, pois se assim fosse o indicaria para leitura de meus filhos.

 

Valeu a pena redescobrir a sagaz e contundente crítica de Orwel, com a sua imaginária Granja dos Bichos, em que, com maestria, reproduziu o ambiente revolucionário da época para o mundo dos animais. A então incendiária idéia do “comunismo científico” fora transformada na proposta batizada como “animalismo”, sistema político em que todos os animais eram iguais. Da mesma forma, localizou na Granja dos Bichos a antiga União Soviética, bem assim seus inimigos capitalistas nos proprietários das granjas vizinhas.

 

Com a sua caneta ferina, comparou os burocratas que assumiram o comando revolucionário com os porcos que governavam a granja, assim como os militares com os cães que seguiam cegamente as autoritárias ordens expedidas. Também não faltaram outras comparações intrigantes, a exemplo da elevação dos cavalos, burros e ovelhas aos postos de camponeses, operários e militantes que faziam da Granja o referencial de sucesso da proposta “animalista”. E não descuidou, como atento escritor, de destacar a propaganda enganosa, a manipulação da História, a alienação provocada pelo  esquecimento e pela mentira, a violência estatal, a manipulação eleitoral, as mordomias e a corrupção entre os membros dirigentes.

 

Como nenhum outro autor da época, desmontou a autoritária estrutura burocrática do extinto Estado soviético, bem assim o desvirtuamento da  charmosa proposta de um mundo igualitário. Tudo sem falar da fabricação de inimigos e a aliados de ocasião, sempre que o interesse e negócios dos porcos estivessem voltados para um ou outro lado. Pelo que narrara, se Orwel ainda vivo estivesse, tenho certeza, não hesitaria em adaptar o seu livro ao Mundo Democrático do General Bush.

 

É que o “animalismo do porco Napoleão” não é muito diferente da “democracia bushiana”, especialmente no que se refere ao seu resultado final. Ademais, da mesma forma com que os porcos da “Granja dos Bichos” se tornaram mais iguais que os  demais animais, no “Império de Bush” seus seguidores acreditam que são mais importantes do que o resto dos racionais. E assim como os porcos e os cachorros de Orwel acreditam que têm licença para prender ou  matar todos aqueles que interfiram   nos seus sagrados planos, pois tudo é válido para defender o “animalismo-democrático” que sonham para o mundo

 

O que se fez com o ex-ditador Saddam Hussein bem ilustra este jeito “napoleônico” de se pensar, pois de aliado na Guerra do Irã e grande comprador de armas fabricadas nos EUA, passou à condição de vilão internacional exatamente por possuir estas mesmas armas, várias delas anteriormente destruídas.  Não foi punido porque era um sanguinário ditador ou um assassino contumaz, pois tais características eram conhecidas no tempo de amigo, mas sim porque era o inimigo mais conveniente em tempos eleitorais.

 

Aliás, as bombas de Hiroxima e Nagazaki, as Guerras do Vietnã, Coréia e Golfo e o escândalo Irã-Contras já prenunciavam o fundamento das invasões do  Afeganistão e do Iraque. Nesta mesma linha de raciocínio, este o financiamento de conhecidos ditadores latino-americanos, africanos e asiáticos, elementos da lógica de que tudo é plenamente possível para estabelecer a igualdade e paz estadunidense. Na mesma família pode-se juntar a Guerra Fria, época em que as fronteiras nacionais não barravam espiões e mercenários contratados pelo novo Grande Irmão.

 

O reboliço eleitoral que empolga, divide e movimenta a cidadania estadunidense, como em nenhum outro momento da História daquele país, está sendo encarado como sendo o grande teste do Mundo Democrático do General Bush. John Kerry, candidato do partido oposicionista, tem denunciado que o seu adversário é um especialista em criar, apagar ou modificar fatos históricos, elegendo amigos ou inimigos a depender de cada situação. A partir do dia dois de novembro descobriremos qual a revolução desejada pelos homens-estadunidenses.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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