A velha direita mostra as unhas

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A eleição finalmente chegou ao ponto esperado desde 2010, pelo menos, quando ganhou corpo a disputa entre dois projetos de governo. O projeto que propõe continuar investindo diretamente na redução da pobreza, na inversão de prioridades calcada na necessidade de distribuir as riquezas enquanto elas crescem, contra o projeto liberal de fazer o bolo crescer primeiro para depois distribuí-lo. Ou o projeto de distribuir o peixe ao mesmo tempo em que se ensina a pescar, contra o projeto que defende bastar somente ensinar a pescar, sem dar o peixe.

É simplório reduzir a questão a uma disputa entre tucanos e petistas, ou entre os oito anos do governo FHC e os 12 anos do governo Lula/Dilma. Ou ainda entre a direita e a esquerda, se não repararmos nos pressupostos e nos subentendidos contidos nas entrelinhas dos discursos. A direita nem sempre é reacionária ou golpista, e a esquerda não é necessariamente revolucionária.

Os pressupostos dizem respeito a um sistema de crença, os subentendidos sempre envolvem um julgamento, um juízo de valor, e por vezes levam à distorção da verdade. Não se pode dar aos subentendidos o rigor dos pressupostos. O que se interpreta nem sempre pode ser tomado como verdade absoluta.

Vejamos o caso da ficha de Dilma no Dops. É uma publicação requentada de 2009, na quando embarcou a tão criteriosa Folha de São Paulo, em primeira página, apontando a então ministra como “terrorista” perigosa. Fotos, montagens, “denúncias” alimentaram as redes sociais. Quando a mentira ficou demonstrada, o jornal deu uma explicação impublicável: a autenticidade da ficha “não podia ser confirmada, mas tampouco podia ser descartada”. Naquele ano, Dilma chegou a aparecer ao lado de um fuzil.

Pois a tal ficha voltou a circular como um troféu dos que odeiam Dilma e o PT.
“Esta é sua ficha criminal antiga (assaltante de bancos, terrorista e homicida…), a ficha atual ainda é pior”, é o que circula nas redes sociais. A ficha — falsa, como já comprovado — cita diversos assaltos, mas não fala em homicídio. E daí, que importa? Neste momento, vale até fazer apologia à ditadura. A pergunta que fica: é somente para ser do contra ou a revelação de um desejo incontido?

Terrorista, assaltante de banco, homicida — é o subentendido. O pressuposto é que Dilma Rousseff foi mesmo fichada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), polícia política da ditadura militar, porque lutou clandestinamente pela redemocratização do Brasil, e ficou presa de 1970 a 72.

Detida em São Paulo e levada para a Operação Bandeirante (Oban), no mesmo local onde cinco anos depois Vladimir Herzog perderia a vida, foi torturada durante 22 dias com palmatória, socos, pau-de-arara, choques elétricos e imobilizada na temível cadeira do dragão.

Em agosto passado, num encontro com jovens do movimento estudantil, Dilma explicou sua atuação contra o regime militar. "Foi um sonho de que poderíamos transformar o Brasil de forma profunda e radical. Nós queríamos não só a democracia, queríamos afirmar a soberania do país, queríamos mudar radicalmente as condições de desigualdade que o nosso país vivia. Nós tínhamos muitos sonhos e tínhamos a imensa e enorme angústia de que isso tinha que ser feito com a maior rapidez", disse.
E completou: "Os sonhos são interessantes. Eles passam de uma geração para outra. O que passamos para essa geração foi o que tinha de melhor da nossa. Sem democracia era impossível a vida política, a organização, era muito difícil mudar. Tivemos uma série de dificuldades no caminho: uns foram mortos, outros torturados, muitos saíram do país para poder sobreviver. O que podemos dizer que ganhamos foi a implantação da democracia no país".

Esse sonho de transformação é reduzido pelos adversários a coisa de bandido, numa incompreensão do que foi a luta pela redemocratização do Brasil, com seus riscos de vida e necessidades de sobrevivência. O que implicou pegar em armas.
Cinco anos depois de Dilma sair da prisão, Aécio Neves foi nomeado secretário de gabinete parlamentar na Câmara dos Deputados, onde ficou entre 1977 e 1981, portanto, quando tinha entre 17 e 21 anos e morava no Rio de Janeiro, segundo sua biografia oficial.

Alvo de agressões verbais do candidato tucano no debate na rede SBT, onde foi chamada várias vezes de mentirosa, Dilma chegou a se sentir mal após a discussão pública. Nem isso foi o suficiente para deter a maré de ódio que toma conta das redes sociais.

“Tá se sentindo mal? A pressão baixou??? Chama um médico cubano, sua grande f.d.p!”. A mensagem foi postada no Facebook pelo médico gaúcho Milton Pires, funcionário da prefeitura de Porto Alegre, formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em terapia intensiva, logo após o mal estar da presidenta Dilma, com uma queda de pressão. Seus seguidores salivaram de ódio. Um deles dizia que a presidenta deveria buscar proteção da Lei Maria da Penha, após ter sido espancada no debate.

“Quando eu vejo um homem na televisão ser ignorante com uma mulher, como ele (Aécio) tem sido nos debates, eu fico pensando: se esse cidadão é capaz de gritar com a presidenta, fico imaginando o dia que ele encontrar um pobre na frente. É capaz dele pisar ou não enxergar”, reagiu Lula.

São exemplos do ódio que se alastra pelas fileiras da direita. Segundo o jornalista Breno Altman, em artigo publicado no site Opera Mundi, “há uma onda reacionária em movimento, que abala e ameaça os fundamentos mais comezinhos da vida civilizada e democrática. Sua encarnação política é o antipetismo. Seu redentor, o candidato tucano Aécio Neves. Os conservadores perderam a vergonha na cara. Batem no peito e se enchem de orgulho em ser o que são: um grupo político-social que veste simbolicamente as camisas pardas dos inimigos mais ferrenhos da civilização”. Desde 1964 a direita não se manifestava espontaneamente com tanta agressividade e convicção. Esse é um pressuposto perigoso.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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