A vida curta dos outsiders

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Antônio Carlos Valadares e Jackson Barreto tiverama coragem de encarar a síndrome do velho político que desafia as urnas e perderam. Da mesma forma que Leandro Maciel em 1974, Lourival Baptista em 1994, Albano Franco em 2010 e João Alves Filho em 2016.

Namoraram com o perigo de colocar-se diante do julgamento popular quando já não contavam com o vigor da juventude para se apresentarem a uma cada vez mais impaciente audiência de eleitores e despencaram no cadafalso da senilidade.

O engenheiro civil Leandro Maynard Maciel foi um dos políticos mais influentes de Sergipe no século 20, capaz de dividir as paixões estaduais entre as décadas de 30 e 70. Foi o nome que melhor se identificou com a poderosa União Democrática Nacional, a UDN. Deputado federal em três mandatos, governador de 1955 a 1959, era senador em segundo mandato, em 1974, quando não soube parar e queria se perpetuar no poder.

Contava já quase 77 anos quando se submeteu ao último pleito, agora pela Arena, sendo derrotado pelo jovem médico propriaense João Gilvan Rocha, do MDB, então com 42 anos. Uma surpresa até para o regime militar naqueles tempos de campanha eleitoral restrita e vigiada e censura à Lei Falcão.

Vinte anos depois, o vexame se repetiu. Desta vez com Lourival Baptista, que em 1994 queria ir para o quarto mandato senatorial seguido. Ele tinha sido deputado estadual, prefeito de São Cristóvão e deputado federal duas vezes, mas chegou ao topo da carreira quando foi governador, o primeiro escolhido pelo regime militar.

Lourival governou até o dia 14 de maio de 1970, quando se afastou para disputar o Senado. Ocupou a câmara alta por três mandatos, de 1971 a 1994, sendo que o segundo mandato de senador não foi conquistado nas urnas, mas por indicação. Foi um dos senadores biônicos pós Pacote de Abril de 1977, uma resposta dos militares ao resultado daquela eleição de 1974.

Em suma, Lourival foi um político relevante, o governador sergipano mais poderoso durante o regime. Mas no derradeiro pleito eleitoral que disputou, em 1994, perdeu o bonde da história para o petista José Eduardo Dutra. O velho político já contava com 79 anos, contra os 37 anos do jovem geólogo do PT.

Albano Franco sofreu a derrota definitiva em 2010, quando tentava retornar aos tapetes vermelhos do Senado, onde já havia pisado em dois mandatos anteriores. Homem bem-sucedido na política e na economia, além de deputado estadual, deputado federal, governador em dois mandatos, de 1995 a 2002, foi presidente da toda poderosa Confederação Nacional da Indústria por 14 anos sucessivos.

Albano estava às vésperas de completar 70 anos quando foi derrotado pelo jovem médico e deputado federal Eduardo Amorim, que tinha 47 anos. Sabiamente, engoliu a derrota e decidiu aposentar-se das disputas eleitorais, embora continue participando das discussões políticas.

Fiquemos nesses três casos de grandes políticos, que chegaram a governar o Estado e perderam a eleição para o Senado na disputa com um outsider. A história se repetiu agora com o delegado da Polícia Civil de Sergipe Alessandro Vieira, que se elegeu pela Rede derrotando Valadares e Jackson. O segundo eleito foi o médico e ex-deputado federal Rogério Carvalho, do PT, que não pode ser considerado um outsider, porque sempre foi político, deputado estadual e deputado federal.

O ex-governador Antônio Carlos Valadares, 75 anos completados no dia 6 de abril, está no Senado já há mais de 23 anos, onde sempre se destacou, mas já não guardava o mesmo ânimo e poder de convencimento para tentar permanecer. Jackson Barreto, 74 em 6 de maio, deixou o governo de Sergipe sem conseguir realizar a obra que gostaria e entrou na campanha marcado pelo anúncio feito em 2014 de que aquela seria sua última eleição.

Mas é bom o senador eleito Alessandro Vieira se acautelar para os caminhos e descaminhos da política, porque a história não tem sido indulgente com os senadores outsiders, aqueles que não pertenciam a um grupo político determinado ou ainda eram novatos nas artimanhas do poder.

O Médico Gilvan Rocha, o que derrotou Leandro Maciel, foi senador de 1975 a 1983. Candidatou-se ao governo do Estado em 1982 e perdeu para João Alves, saindo definitivamente da política.

O geólogo Eduardo Dutra, que derrotou Lourival Baptista em 1994, foi senador de 1995 a 2003. Já possuía experiência na política, na militância sindical e partidária, e por já ter disputado o governo em 1990, sendo derrotado por João Alves. Sofreu segunda derrota para João em 2002 e também perdeu para Maria do Carmo Alves em 2006, em nova disputa para o Senado. Foi presidente da Petrobras e da Petrobras Distribuidora, mas só conseguiu eleger-se naquela única vez, em 94.

O médico anestesiologista Eduardo Amorim era de fato um outsider quando se elegeu deputado federal em 2006, batendo um recorde de votação. Em 2010 foi novamente muito bem votado para o Senado, mas agora perdeu a eleição para Belivaldo Chagas, o quarto governador que vem das terras de Simão Dias. É claro que Eduardo não está aniquilado para a política, mas terá que remar muito para tentar voltar ao estrelato.

O jovem gaúcho Alessandro Vieira, 43 anos, tem que aprender primeiro uma lição: a política exige que você tenha lado. Talvez muitos dos seus 474 mil eleitores não simpatizem com o seu apoio a Bolsonaro e um suposto namoro com o partido do presidente eleito, o PSL, já abandonando o partido pelo qual se elegeu. A Rede não é exatamente um partido de direita ou bolsonarista.

O que se anuncia é que os filiados da Rede em Sergipe vão se filiar ao PPS, antecipando uma possível fusão entre os dois partidos. Assim, o senador eleito iria para o partido de Roberto Freire, passando, inclusive, a comandá-lo em Sergipe.

Delegado Alessandro também já é apontado como futuro integrante da “bancada da bala”, que dobrará de tamanho e terá mais de 100 representantes no Congresso no próximo ano. O tempo dirá se ele está certo nas suas escolhas ou se sucumbirá à sina dos senadores outsiders.

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