A Vovó Maromba

0

Joselma Duarte Santiago Nunes
E-mail: joselmaufs@yahoo.com.br
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/ UFS)
Orientador: Dr. Fabio Zoboli (UFS/ DEF/PPGED)

A vida de Jacira Noronha, conhecida como Vovó marombada nas redes sociais, nos faz pensar que envelhecer e continuar em forma, na atualidade, é praticamente uma questão de escolha. De acordo com a reportagem do site G1Roraima, publicada em 16/10/2016, a famosa vovó de 57 anos, mãe de quatro filhos e avó de três netos, ostenta uma barriga tanquinho, um corpo definido e 47 mil seguidores nas redes sociais. Para conseguir tal façanha, ela afirma que já fez cirurgia plástica, mas o que a faz manter o corpo sempre em boa forma é a musculação aliada a uma alimentação saudável. 

Vivemos com um corpo que possui uma estrutura natural, e é da natureza humana o envelhecer. Porém, na sociedade contemporânea, influenciada pela indústria cultural do belo e do jovem, envelhecer tornou-se também um problema social, pois além de a velhice causar no corpo um desgaste natural que se materializa em forma de flacidez, redução da libido, cabelos brancos, ressecamento da pele, enfraquecimento do tônus muscular e da constituição óssea, ela também é sinônimo de rejeição social, pois para se viver bem com a indústria mercadológica da beleza, é necessário se enquadrar nos padrões estabelecidos por ela.

Quando nos deparemos com a reportagem da vovó marombada, parece que o corpo biológico sucumbe ao tempo mediado por um melhoramento biotecnológico. Nesse sentido, a biotecnologia, aliada à produção do padrão de beleza corporal, aparece como uma ferramenta que potencializa e modula o corpo, apontando possibilidades de subverter a lógica do envelhecimento. Sendo assim, potencializa-se o embelezamento do corpo e sua capacidade de permanecer belo, através de cirurgias plásticas, silicone, cremes antienvelhecimento, lipoaspiração e exercícios físicos. 
Nessa perspectiva, percebemos que as mudanças de comportamento da sociedade, influenciadas por questões culturais, midiáticas e pelo avanço da tecnologia, refletem na maneira de pensar e agir das pessoas, fazendo com que o envelhecimento do corpo, por exemplo, deixe de ser encarado como algo natural do ser humano e passe a ser visto como uma situação que pode e deve ser evitada através das múltiplas opções oferecidas pelas mídias e pelos avanços tecnológicos da medicina estética.

Aliada a isso, existe toda uma cultura do corpo belo. E ser belo, nos padrões atuais, significa ter um corpo jovem, magro, esbelto, com alguns grupos musculares definidos e delineados. Sendo assim, a sociedade é cada vez mais impulsionada a conquistar um corpo que não quer sofrer rejeição social.

Dessa maneira, para auxiliar as pessoas na busca frenética pelo corpo sempre perfeito, o mercado oferece um amplo repertório de produtos, práticas corporais e intervenções cirúrgicas que prometem adequá-las aos padrões exigidos, deixando seus corpos prontos para serem exibidos como sinônimos de beleza, saúde e juventude.  Diante disso, podemos perceber através do exemplo de Jacira, que o corpo ocupa um papel significativo na sociedade e que ele faz parte de uma construção histórica, social e cultural, sendo produzido de múltiplas formas em tempos e lugares diferentes. 

Nessa perspectiva, é importante ressaltar, que em séculos anteriores a gordura foi sinônimo de saúde, beleza e sedução. Já no fim do século XIX e início do século XX, ela começa a ceder lugar ao corpo violão, mantendo a generosidade das formas, pois a magreza em excesso, naqueles tempos, remetia à ideia de pobreza ou doença. Porém, na segunda metade do século XX, esse padrão de beleza começa a se modificar e se inverte, pois a magreza passa a encarnar um novo ideal de beleza, uma vez que a sociedade passou a exigir corpos cada vez mais ágeis, aptos e adequados às novas formas de produção do mercado consumidor. Nesse contexto, a gordura começa a ser associada à doença e à imobilidade, características que não combinam em nada com os ares modernos do novo século.

Sendo assim, podemos imaginar que, se a Vovó Marombada tivesse nascido há alguns séculos atrás, certamente não sentiria o peso da maromba, nem o das pressões da sociedade contemporânea em relação à valorização da eterna juventude. Por outro lado, ela também não teria a possibilidade de se iludir com o retardamento dos efeitos do tempo sobre o seu corpo, através dos avanços tecnológicos da medicina estética do século XXI, e estaria “condenada” a encarar Chronus (o deus do tempo) diariamente, sem máscaras e sem disfarces, até que ele consumisse toda a sua juventude, beleza e vida, sem deixar que ela tivesse sequer a chance de refletir ou lamentar sobre o seu próprio envelhecimento.

Comentários