Ab exotico, lupus et aquilae.

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Eis que estou tentando escrever uma matéria. Falaria de que?

O último texto saiu tão grande que o jornal não publicou ainda. Preferiu ceder o espaço a um escriba de fora do estado, por escrever melhor (será?), ou por precisar e merecer, ser bem melhor cultuado e aplaudido nas terras sergipanas

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Seria a incursão medonha da nossa moléstia provinciana, que, pusilânime e menor, não se orgulha com a própria criação; prefere o que vem de fora, o exótico, no seu sentido grego literal, “eksotikós”, ou latino mais geral, “exoticus”, substantivado como “exoticum, i”, de fora, estranho, estrangeiro, forasteiro?

Poderei eu usar o termo forasteiro, diante do politicamente correto, ou do apoliticamente punível, por legislação tola e atrabiliária, que exige do tigre o borrar as próprias listras, para se des-tigrar, se desfigurar, e melhor se desfibrar, só porque o ousar diferente se faz melhor, com pose de gato angorá, em trejeitos de eunuco a engordar?

Posso ainda louvar em mim a restante convexidade viril, rejeitando, repelindo e repulsando aos que se não a querem falsear, desviando-lhe o agir e a utilidade, afirmam ser mais belo, por gostoso e moderno, diferentes devaneios e falências, que não ouso em mim, nem nunca estive a fim?
Logo agora que já estou perto do fim?

Dizer que é bom assim: tomar, tomar, tomar, … e bem tomar, só para utilizar ação depreciativa do verbo apoderar se de, ou mesmo de ingerir, copos e copos?

E dizer que este tomar exige a imposição de um no, por inserção de uma adverbial localização, nada proverbial, nem por admiração, quando maravilha para mim tem outra ação em complementar penetração, noutra paisagem, mais convidativa e amorável, onde vige um cheiro cativante e oloroso, sui generis, por inconfundível, em halo de promessas e enleios?

Dizer que, só para bancar o moderno e o afinado com o novo, devo reformular e variar as minhas fantasias? Falar que não agir assim é desconhecer o verdadeiro e único amor romântico, deleite que se não foi bem criado por Deus, assim o permitiu, dando ferramentas, coragem e vontade, para melhor gozar e fruir, ao seu livre arbítrio e esgar alvedrio? E que o homem bem precisa de muita coragem para suportar violação tão mal arremetida, quão descabida e dorida; e descaída?

Ah mulheres! Que me socorram as mulheres, se me enclausurarem no equivoco das minhas escolhas. Elas sim; indispensáveis e insubstituíveis: amarelas, branquelas, negras retintas, todas com seus cangotes macios, ternos e convidativos.

Ah! Comigo não! Incluam-me fora desta! É muita exotismo para o meu pensar antanho e tacanho. Prefiro assim, sem firmar prejulgados, de rejeição e marginalização da livre escolha dos outros.

“Degustebus, coloribus et amoribus non est disputandum”. Gostos, cores e amores não se discutem, repetem os pascácios, louvando a versatilidade dos imperadores romanos em seus palácios, mudando de pose e quebrando de lado, como Júlio César, que segundo Suetônio o seu biógrafo, era "omnium mulierum virum et omnium virorum mulierem" , o marido de todas as mulheres e a esposa de todos os homens, por vera comprovação ou adversária difamação.

Mas, eu não sou César, nunca o quis, e menos ainda degustar os seus invertidos prazeres.

Assim, prefiro ser tacanho: antanho mesmo; ultrapassado. Conservador por excelência, e radical por firmeza, entranhada no solo, em raízes tão profundas, quão necessário se faça extrair a essência do existir.

Refutando assim o exotismo colocado na ordem do dia, volto-me para a preferência exótica da nossa imprensa pelos articulistas forasteiros. Exoticidade sergipana, por excêntrica e extravagante, que não se crê assim tão esquisita, ao referendar o pensamento que vem de fora, reverberando-o acriticamente, negando espaços à criatividade dos aperipês.

Mas, quanto vale este pensar serigy, tão surubi, quanto uma casca de siri, se restar esquecido, desprezado e apodrecido?

Seria a nossa produção local tão desimportante frente ao que nos exportam, só por exótico e provir de fora?

A pergunta é cabível, porque raros são os articulistas sergipanos que mantem colunas periódicas, única razão para se comprar e ler jornais, afinal o noticiário da TV é bem mais rápido em divulgação e clareza.

Tudo isso sem falar na internet, que democratizou sobremodo a criação em custo decrescente, permitindo o twitter, tão superficial quão telegráfico, para os apressados que nada fazem de útil com o próprio tempo, e o blog, esta criação fantástica que não limita espaços, permitindo os voos amplos no vasto espectro do pensamento.

Do ensaio filosófico à sedimentação científica, o blog concebe a liberação dos devaneios poéticos e estéticos, viabilizando o esvoaçar das frágeis asas que se fazem condores, ou de outro tipo de ave, em asadas curtas e breves em pouca altura e baixia planura.

Falando agora de vôos, recentemente faleceu uma grande águia, por seus vôos inatingíveis de bem escrever. Seu nome; Cleomar Brandi.

Quem viu de bem próximo o seu altear, preferiu, porém, chamá-lo de “Velho Lobo”.

Não consigo entendê-lo assim.

Teria ele patas terríveis, garras vorazes e dentição tão afiada, apetrechos bem mais contundentes e consistentes, que as asas amplas dos seus vôos inimitáveis, por inacessíveis, em ascensão e suavidade?

Confesso que não entendi o porquê do lobo. Daí o ensaio sobre o exótico, o lobo e a águia.

Eu, do pouco que conheci de Brandi, não lhe observei nem garra, nem pata, muito menos a pontiaguda presa lobal.

Conheci-o pouco, é verdade! Apenas um contato rápido, um afago mútuo, em uma homenagem comum que recebemos juntos, por delicadeza da UFS. Homenagem da qual fui o orador, representando-o também, num longo discurso comemorativo dos quarenta anos da nossa Universidade Federal.

Pelo que vi e dele li, não me parece tenha sido, nem o lobo bom, aquele que come a vovozinha pra depois desfolhar, despetalar e fertilizar a chapeuzinho, nem o ruim depenador de frangas; daninho e solerte, um perigo a qualquer aviário; muito menos aquele que uiva para a lua, enlouquecido, enraivecido ou apaixonado.

Vi-o sim: como uma grande águia, um condor, voando e se fazendo exemplo admirável, em superação, bravura e ousadia.

E aí eu retorno ao exótico, para ficar no “eksotikós”; no que vem de fora, por preferência e maior deficiência.

Se a produção de Brandi restou destacada por cor e brilho, a imprensa fez pouco para divulgar os seus textos assinados.

Os jornais não lhe estimulavam tal faceta, como bem deveriam, e por isso perdemos todos.

De Cleomar Brandi escritor, lembro apenas, de uma substituição magnífica, por conta das férias de um colunista titular aos domingos no Jornal da Cidade, tempo da luminar edição de Marcos Cardoso.

E, se eu não estou a enganar-me assim, grande parte da criatividade de Brandi perdeu na anodinia de editoriais contidos e bem comportados, ou de matérias que se ocultaram na heterogênea mistura, que bem ou mal homogeneizada, socializa o conteúdo do diário, elevando o medíocre e rebaixando o de bela lavra, numa média, mais das vezes estagnante.

Neste particular, eis talvez aí, mais um grande exemplo da grandeza de Cleomar, que se mostrava despretensioso e sem ambições, preferindo a semeação anônima, assaz louvável, sem perceber, ou percebendo pouco, que ao tingir uma neblina em torno da sua criação, tornava-a, algumas vezes imperceptível e não destacada.

E neste ponto, eu insisto nesta velha crítica aos nossos jornais: esta preferência cativa pelos articulistas de fora, num ctrl-c, ctrl-v, equivocado, da grande imprensa sulina. Crítica que se estende sobremodo aos de parca lavora vocabular, mas que teimam em censurar, podando os espaços dos “rábulas das letras”, provisionados iguais a mim.

Assim, “ab exotico, lupus et aquilae”, do exótico, dos lobos e das águias, em exotismos à parte, finalizo: Era Cleomar Brandi, um velho lobo ou uma grande águia?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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